Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

A Transa dos sons de Caetano Veloso

A ordem dos militares era curta e grossa: “Só voltem se forem autorizados”. E foi assim que Caetano Veloso junto com Gilberto Gil, foi exilado. A maior parte do tempo passaram em Londres, cidade cinzenta que pouco os inspirou a compor, cantar ou viver.


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Mas uma das únicas inspirações do baiano nos rendeu uma raridade que foi considerado, por muitos críticos, o melhor álbum do compositor. Com direito a abaixo-assinado na internet anos depois do seu lançamento: "Queremos 'Transa'do Caetano ao vivo".

Enquanto era taxado como persona non grata no Brasil, Caetano experimentava sons ao lado de Moacyr Albuquerque no baixo, Áureo de Souza e Tutty Moreno na bateria e percussão e Jards Macalé nos violões e guitarras.

Em entrevista para o jornal “Zero Hora” Caetano falou sobre a produção do álbum, que foi gravado praticamente ao vivo: “Gravamos o disco em quatro sessões. Foi quase ao vivo no estúdio. E as citações de canções brasileiras mais antigas me consolavam da falta que sentia do Brasil”.

Marcado pela melancolia e saudosismo de sua terra, “Transa” trouxe nova estética para a música brasileira. É um momento em que Caetano se vê influenciado apenas por seus sentimentos, tomado pela solidão e tristeza. É um disco híbrido que mistura elementos curiosos, para exorcizar mesmo.

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Caetano se mostra com menos fronteiras do que nunca, colocou muitos elementos da boa música brasileira e resultou em um marco na sua carreira e na música popular brasileira.

Mas falar de "Transa" sem falar do disco "Caetano Veloso", que fora produzido na mesma época do exílio, é dar um tom imcompleto à obra principal tratada neste texto. Com ares igualmente melancólicos, a obra também conhecida como "London, London", parece ser um complemento para Transa.

Não por acaso ele mistura o tempo todo a música europeia com a música popular brasileira, o português e o inglês, o baixo com a levada de reggae e citação de Beatles. Poesia e experimento, saudade e agonia. Transando a música, ele vai de “Nostalgia” que é um blues à “Triste Bahia”, baseada em um poema de Gregório de Mattos que beira 10 minutos de uma crescente rítmica, com tambores de candomblé marcantes ao final da canção.

Brinca o tempo todo com confissões e palavras nas músicas: a canção para Maria Bethânia mostra a necessidade em saber como estão as coisas, mostrando nela claramente uma saudade cortante. Rima a palavra em inglês “better” e “Bethânia”, deixando a poética da canção verborrágica e verdadeira. Ele queria mesmo era falar por meio da música. Dessa vez não como protesto, mas como desabafo.

Em “If you hold a stone” ele cita Dorival Caymmi em uma música essencialmente europeia. Com o baixo marcante e coros genuínos da cultura popular brasileira, ele canta com timbre anasalado: Eu não sou daqui/ Eu não tenho amor/Eu sou da Bahia, de São Salvador. Eu não vim aqui para ser feliz/ Cadê meu sol dourado e cadê as coisas do meu país.

A forte “Shot me Dead” é marcada por berimbau forte. Já em “Little more blue” a repressão é contada em inglês, mais simbólico impossível -- nada seria mais esclarecedor sobre a situação do compositor que cantar músicas na língua inglesa com elementos percussivos e culturais do Brasil. “It’s a Long Way” cita os Beatles, banda que desde o início exerceu forte influencia no tropicalismo.

Em “You don’t know Me” ele verbaliza o quanto é grato pela invenção do baião. A letra também na língua inglesa parece ser um diálogo entre Caetano e Londres, ele pede para ver além da cidade."Transa" nunca foi editado em Londres, mas seu lançamento, que só aconteceu em 1972 (ano que Caetano pôde voltar para o Brasil) definiu os rumos da música popular brasileira.


Flávia Sgavioli

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