Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

O Cantar de Gal

Ela seguiu os passos de Maria Bethânia, mas por outro caminho. Gal Costa foi uma cantora, que assim como Elis Regina, deixou claro em seus discos toda a metarmofose de sua vida pessoal. com um disco mais áspero, outro mais brando, sempre apresentou exímia musicalidade com seu timbre peculiar e autenticidade latente.


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O "Cantar", disco da cantora de 1974, toca pela beleza e leveza de sua voz e é exatamente por isso que ele mereceu destaque neste texto. Nele Gal se mostra camaleoa, é claro que mesmo com essa obra que destoa de todos as outras da cantora, é impossível ouvi-la sem a referência tropicalista e suas psicodelias vocais que marcaram sua careira. Mas é quase que um acalanto ouvir sua voz com tamanha suavidade, depois do furacão de criatividade que foi a tropicália.

Parece que em "Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia", gravado em 1974 no Teatro Vila Velha, Gal já estava ensaiando algo mais suave com Caetano e Gil, menos tropicalista. E aí neste ela afinou a sensibilidade, apostou na voz mais rasgada e me cativou à primeira ouvida. Há em "Cantar" um sentimentalismo marcante, quase todas as músicas são cantadas com um sorriso, uma serenidade que podemos sentir nas deslizadas suaves de uma nota à outra em cada estrofe.

Gal conseguiu cantar uma bossa diferente daquela que Nara Leão imprimiu na época. O ar baiano e sua expressividade vocal deixou a bossa um tanto peculiar neste álbum. Seria um retorno as suas primeiras influências musicais? Todos sabem que João Gilberto com "Chega de Saudade", tocou muito a baiana no início de sua carreira. Talvez Gal achou que já havia extravasado muito pela Tropicália e decidiu nos presentear com a face mais doce de sua voz.

Caetano sempre companheiro musical da cantora, participou da faixa "Flor do Cerrado" com um trecho de “Garota de Ipanema”; um carinho aos ouvidos, até para quem não é fã de bossa.

Cantar foi visto por alguns críticos como saudosista da Bossa Nova, desatualizado para aquele 1974 tão fustigado pela ideogenia. O álbum recupera o que a Tropicália havia interrompido, ou seja, é como se viesse cronologicamente depois do álbum Domingo (1967).

Com direção de Caetano Veloso, gravado pela Philips e com arranjos de João Donato, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Perinho Albuquerque, "Cantar" exprime o amor singelo de Gal, da bossa, e Caetano, da gente.

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Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector.
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