Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

A arte e o amor internalizados


pablonerudaf.jpg

Sempre escrevi sobre música neste espaço, mas por um acontecimento inédito na minha vida, tive que pausar as palavras musicais para uma confissão. Porque agora, quase aos 30 anos eu compreendi o que é o amor e a arte dentro de mim, antes eu só achava que sabia. As poesias que escrevo sobre amor sempre surgem de uma grande paixão, aquela que deixa ser ar e sem inteligência. Mas sempre pensei que a dor e devoção que continua durante uma vida inteira apenas por uma pessoa era desequilíbrio, falta de amor próprio ou de se abrir para novas oportunidades.

Mas quando menos esperava um dos meus poemas favoritos de Camões começou a sair do meu mundo poético e passou a ser sentido:

Amor é um fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói, e não se sente/ É um contentamento descontente/ É dor que desatina sem doer/

Esses versos sempre me tocaram pela beleza e profundidade da combinação de palavras, a carga dramática e seus diversos significados. Mas estava longe de ser vivenciado, em especial em relação ao "contentamento descontente". Para mim, ou estamos vibrando de alegria ou estamos tristes, desiludidos e o que vem depois? O término! Na minha vida esse looping eterno sempre imperou: Paixão→euforia→ experiências com o outro→ sofrimento→ aceitação do sofrimento→ término→ paixão.....

Mas alguma coisa mudou por aqui em relação a isso nessas últimas semanas, junto veio a transformação do meu contato com a arte, mas não uma mudança do olhar. O que mudou foi o meu contato com o mais profundo e artístico que tenho dentro de mim. Abri espaços para percorrer esse caminho criativo interno e quase que ao mesmo tempo fui abrindo espaços para o amor, assim como se fosse cavando a alma e lapidando o que ia encontrando. E a arte que encontrei dentro de mim nada tinha a ver com a obra, era tão forte e emocionante que jorrou de dentro e os caminhos exteriores foram se abrindo naturalmente. É foi só então que o amor que Neruda deixou como legado em seus versos ficou tão claro que deu até para tocar.

688468.jpg

Foi nesse exato momento que percebi que a resposta para o estímulo que vem do meu interior não depende de nada, só da minha coragem de olhar para dentro e viver um grande amor ou um grande impulso artístico. Coragem porque nem sempre as condições de fora são favoráveis e aí você é obrigado a lidar sozinho com toda lama e luz que encontrou pulsando dentro de você.

Sim, porque essas duas coisas gritam para sair desvairadas e você insiste em abafá-las com a rotina, com o antidepressivo, com o livro que você lê mas nem queria muito, com as pessoas que você vê, mas preferia estar sozinho.

Ah e só para deixar claro, não estou falando daquele amor que se constrói com os anos, sempre respeitei esse tipo de amor e as pessoas que pacientemente o constroem, mas não acho que era desse amor que os meus poetas preferidos estavam falando.

O que me foi despertado, foi aquele amor fora da norma e que é como uma expressão artística verdadeira, que tem em si a sensação de se jogar do penhasco para ver no que vai dar, aquele tipo de amor que a gente tem que ter coragem para admitir, para deixar o certo pelo incerto para vive-lo. Seria muito mais fácil escolher um amor companheiro, compreensivo, que seguraria a minha mão quando eu tivesse 90 anos. Mas não foi esse que escolhi viver, escolhi aquele amor que pode não estar ao meu lado no próximo mês, mas que se iguala a arte que quero criar e pulsa junto com cada molécula dos meus desejos e da minha criatividade.

Fácil não é, mas cai na antiga discussão de fazer o que se ama ou ter estabilidade e segurança. Eu decidi me arriscar e me sentir viva e vulnerável todos os dias e assumir o risco. E posso dizer que só de ler os meus poemas preferidos e senti-los de verdade, já me vale a pena.

the_flight_by_kmye_chan.jpg


Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Flávia Sgavioli