não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

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A verdadeira história do Diabo

Diabo, Satanás, Tinhoso, Encardido, Capeta, não importa a alcunha, o mito do Príncipe que lidera o Inferno data do século VI.a.C e nesse relato o dono de toda maldade nada mais é que um ser cheio de amor.


blakejob_color11.jpg Parte da obra de William Blake em The Book of Job (1825). Lembro como se fosse ontem que toda vez que alguém fazia algo moralmente incorreto e ganhava a fama na TV minha mãe falava "Este tem seu lugar garantido no Inferno" e eu ficava muito triste pela pessoa, pois já havia sido me contado a longa história desse lugar em chamas, onde se impera a dor e a aflição, uma orquestra regida por aquele que não deve ser nomeado, o Diabo.

Com a chegada da minha adolescência e um gosto refinado por músicas consideradas do mal, o uso constante de preto e as jogatinas de RPG, me vi sendo apontada como cultuadora do Satã. Finalmente me perguntei quem era aquela que a tudo não aceito pelo sociedade ou incorreto era posto a culpa.

A verdade é que a história daquele que é temido e cultuado, é mais remota do que o Cristianismo conta, seu mito se inicia no século IV a.C, na Pérsia, mais conhecida na modernidade como Irão. O Profeta Zaroastro ou Zaratrusta descreve Arimã, que vivia em constante guerra com Ahura Mazda e sua história é contada no Avesta, que está para o Zoroatrismo como a Bíblia é para os católicos.

Mas o mito se divide neste momento em questão, nós ocidentais estamos acostumados com a velha e boa narrativa que nos conta como Lúcifer foi jogado ao Inferno após tentar usurpar o lugar de Deus e na história Persa temos um Arimã que ama Mazda mais que tudo e não admite se ajoelhar a qualquer um que não seja o Divino.

800px-Sanzio_01_Zoroaster_Ptolmey.jpg Zaroastra na obra de Raphael Sanzio.

Mazda revoltado com a atitude insolente manda-o para o Inferno como conhecemos, que nada mais é que o lugar desprovido da presença do Divino, que se assemelha com a nossa representação, um lugar repleto de dor e fogo. Qualquer um que já tenha amado e tenha sido colocado longe para sempre de seu amor, pode assim dizer, que conheceu de forma quase verdadeira as labaredas do mais profundo poço já descrito.

E as semelhanças não param por aí, Zaroastro ainda conta que o bem só ganharia do mal quando ele formasse seu exercito que combateria Arimã e sua gangue da face da Terra, uma história que tem sido contada com nova roupagem por outra religião há mais de 2 mil anos. Familiar, não? Quando pensamos na história de Cristo e sua Igreja não há formas de não fazer comparação e realmente concluirmos que durante o cativeiro na Babilônia os hebreus incorporaram muito do mito persa e numa nova copilação criaram o que milhões acreditam nos dias de hoje.

800px-Blake_Dante_Hell_V.jpg Pintura de William Blake "The Lovers' Whirlwind, Francesca da Rimini and Paolo Malatesta", baseada na obra Divina Comédia, de Dante, a representação do Inferno.

Arimã é representado como uma serpente, a mesma que iria levar Eva a provar do fruto proibido e assim criar o que somos hoje, humanos cheios de fraquezas e falhas.

Em O Poder do Mito, Campbell diz uma frase muito conhecida por nós atualmente, descrevendo os sentimentos do Diabo Persa "... e está separado de Deus; essa é a sua verdadeira dor" e mais uma vez temos uma ponta da concepção do que é mais difundido ainda em nossos tempos como um mantra: " Sem Deus, não há Amor e Luz".

Fontes de pesquisa: O Poder do Mito - Joseph Campbell. A História do Diabo - Vilém Flusser.


Paola Rodrigues

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