não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas

New Orleans, uma cidade fantasma

New Orleans é o resultado da mistura de dois povos cheios de cultura e superstição. Seus mitos são banhados em sangue, magia e relatos de um passado que habita a ficção e a história, sem nunca revelar sua verdadeira face.


american-horror-story-coven-.jpg Imagem promocional de American Horror Story: Coven.

Fundada em 1718 por franceses que se estabeleceram principalmente com plantações, New Orleans desde seu início foi relatada como uma cidade promissora da Louisiana e com divisões bem nítidas. Em 1755 houve uma grande migração, que se distinguiu por dois tipos de culturas, os Cajun, brancos, católicos, que migraram do Canadá devido a perseguição religiosa e os Créoles, provenientes das colônias francesas, em grande parte negros, que trouxeram não só os costumes de seu povo como a religião predominante, o Vodu e as crenças africanas.

A mistura fez um povo rico em folclore, diversificado e extremamente supersticioso, uma mistura perfeita para inúmeros relatos de personalidades loucas e sociopatas, com o bônus de vários fantasma e lugares malditos.

Foi cenário ou esteve presente com suas lendas em vários trabalhos da ficção, entre eles A Hora da Bruxa de Anne Rice, American Gods de Neil Gaiman, a série True Blood e American Horror Story:Coven, no filme A Chave Mestra e em HQs da Marvel, todos tendo em comum o terror e sobrenatural.

New Orleans é o contraste perfeito daquilo que leva em seu povo, de um lado o catolicismo, a devoção, a sociedade que ostenta nomes e bens e de outro a paixão, a magia e a crença, um traço que se estende a culinária, música e ao que seu povo passa de geração em geração.

01252u1.jpg 716 Dauphine Street.

O Palácio do Sultão

Na Dauphine Street você pode caminhar sem grandes pretensões, apenas admirando a arquitetura de várias casas ao redor, claro, se você não souber a história do que te espera no número 716, onde ergue-se uma casa de quatro andares. Inicialmente construída em 1836 por Jean Baptiste LaPrete, um fazendeiro local, para ser sua casa da cidade,que se viu forçado após a Guerra Civil a disponibilizar a mansão para aluguel, devido a completa falta de dinheiro.

O primeiro locatário seria o Príncipe Suleyman, que se dizia um sultão turco, abastado e cheio de glórias. Com um gosto acentuado por orgias que englobavam escravas, mulheres com deformidades e meninos, rapidamente mudou a decoração da casa, colocando pesadas cortinas nas janelas e lacrando todas as saídas, poupando apenas a entrada.

Certo dia um dos vizinhos percebeu que o lugar estava muito quieto, algo incomum para o estilo de vida do Sultão, foi quando notou que havia sangue escorrendo da porta de entrada e alarmado chamou a polícia. O que foi encontrado provavelmente iria habitar a lembrança de quem se viu obrigado a constatar uma das piores cenas de crime relatadas. Todos estavam decapitados, mulheres e crianças, o único que parecia ter sido poupado fora o chefe da orgia, a este havia sido reservado o triste fim de ter sido soterrado, sendo encontrado com apenas a mão esticada para fora da sujeira, pedindo ajuda. Obviamente,tal prazer havia sido negado.

Moradores próximos confirmam terem visto do Sultão várias vezes, relatam ouvir os gritos e o som de pedaços de corpos caindo no chão. A casa ganhou o título de assombrada e entrou para o grupo de casos sobrenaturais de New Orleans.

1140_Royal_Street (2).jpg 1140 Royal Street.

A Mansão LaLaurie

A Série American Horror Story trouxe em sua terceira temporada uma personagem que poderia se chamar "Esposa do Diabo". Sua história, agora muito conhecida, chocou e manchou a história de forma drástica. Delphine LaLaurie foi uma socialite e rica dama, tendo se casado em 1825 com o Dr. Luís LaLaurie, seu terceiro casamento, que viria a comprar em 1832 a Mansão oficial da família, na 1140 Royal Street.

Bailes e eventos para a nata da sociedade eram comuns, com uma lista de convidados seleta, o casal LaLaurie se tornaram um dos principais anfitriões de New Orleans, bem distante da macabra realidade que viria a ser descoberta.

lalaurie.JPG A Face do Mal, Delphine LaLaurie.

Apesar da fachada de beleza e carisma, alguns boatos eram ouvidos constantemente, como a grande quantidade de escravos que entravam na Mansão e nunca mais eram vistos. Em 10 de abril de 1834 iniciou-se um grande incêndio e os bombeiros que invadiram o local se depararam com o horror. No sótão havia dezenas de escravos amarrados, mutilados, torturados e assassinados por Madame LaLaurie. Vítimas de experimentos, relatos contam de um escravo com a boca costurada, morto por inanição. Membros foram espalhados por todos os lugares, que eram implantados cirurgicamente nos corpos dos prisioneiros e alguns ainda vivos imploravam pela morte.

Os LaLaurie fugiram e nunca foram julgados pelos seus crimes, mas até hoje a Mansão permanece e pelos séculos histórias de fantasmas são contadas sobre a mansão. Reformas recentes mostraram ossadas que datam da época, enterradas abaixo do piso de madeira, indicando que os corpos foram despejados no local.

MarieLaveau_(Frank_Schneider).png Retrado de Marie Leveau por Frank Schneider.

A Rainha do Vodu

Marie Laveau tem sido citada como uma santa, a intervenção de Satanás na Terra ou apenas uma história muito criativa sobre uma mulher que existiu, em qualquer uma das alternativas pouco se sabe sobre Marie, a não ser que se casou um negro livre chamado Jacques Paris em 1819.

A lenda conta que Marie foi uma grande praticante de Vodu e foi responsável pela cura de vários casos impossíveis na época, seus clientes em grande parte eram ricos fazendeiros e proprietários e ela usufruiu de grande importância, um fato que perdura até hoje, sendo seu túmulo um dos mais visitados.

Atualmente seu nome ganhou fama com participações em livros, séries, HQs e nem sempre ocupa o lugar de vilã, já que a lenda apenas aponta sua função de curandeira. Após o Furacão Katrina várias pessoas contam ter visto Marie Leveau "intervindo" para assegurar a saúde das vítimas.

candyman02.jpg Cena do filme "Candyman".

Candyman

Assim como em Blood Mary, a lenda do Candyman precisa da repetição para que os poderes sobrenaturais se apresentem. A regra manda que você repita o nome cinco vezes na frente do espelho e o terrível homem irá aparecer e provavelmente será a última coisa que presenciará em vida.

A lenda tem sua origem provavelmente num caso real, do escravo Daniel Robitaille que vivia numa fazenda em New Orleans, mas mantinha o amor pela arte e era um pintor talentoso. O fazendeiro interessado pelos dotes do escravo chamou-o para pintar o retrato de sua filha. A tragédia começa do encontro, Daniel se viu perdidamente apaixonado pela filha do fazendeiro e assim começa o fim.

Quando tudo foi descoberto começou a busca pelo escravo, que numa tentativa de fuga correu para a mata e foi encontrado caindo de exaustão alguns quilômetros depois. O castigo foi ter a mão direita decepada e após ser banhado em mel encontrou seu fim numa colmeia. Antes de morrer prometeu voltar e se vingar para todo sempre daqueles que lhe causaram tal dor.

The-Skeleton-Key-Conjure-of-sacrifice.jpg Cena do filme "A Chave Mestra".

Quase todas as histórias apontam torturas e depravações muito comuns para o período, onde a escravatura estava em seu auge. Cada lenda pode ser aplicada de várias formas para os abusos reais sofrido, ao escravo quase sempre era infligido ao mal e o "senhor" branco facilmente saia impune, a justiça vinha do além, que levava em si a justiça e vingança.

Se a ficção imita a realidade, podemos apenas torcer para que nesses casos os fatos tenham sido de menor crueldade ou que apenas os mortos encontrem sua paz, onde quer que habitem.

FONTE: Ghost Stories of Old New Orleans - Jeanne Delavigne. Old New Orleans, a History of the Vieux Carre, Its Ancient and Historical Buildings - Stanley Arthur.


Paola Rodrigues

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