não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas

Pobre, negro, homossexual

Kaique Augusto está morto e milhares de jovens são agredidos, humilhados e sufocados em suas escolhas e sonhos. Quem será a vítima da próxima manchete do jornal?


desespero.jpg Lázaro Ramos no filme "Meu Tio Matou um Cara".

Sou branca, hétero, meu pai trabalhou sempre em uma fábrica, então tive ao meu dispor plano de saúde, escola particular e acesso ao que queria. O máximo de preconceito que posso dizer que passei na vida foi o de ter alguns quilos acima do ideal e de ter gerado minha primeira filha com 15 anos. Com isso já sofri um bom tanto, tendo que ver descrença no olhar das pessoas mais próximas e piadinhas ridículas, ter sido englobada numa estatística social patética.

Mas ainda na escola, lembro-me de um menino que estudava comigo, ele tinha uns 5 anos de idade e adorava minhas bonecas. Eu costumava deixa-lo brincar com elas, já que gostava de ficar pulando em folhas secas e tinha tempo com elas em casa. Depois de uns 9 anos eu encontrei-o novamente, na mesma escola onde cursei o final do ensino fundamental e em determinado momento fui chamada para o antigo Grêmio Estudantil. Para você que não acredita, a escola tem suas próprias regras sociais e não ser englobado naquilo pode render lágrimas amargas, adolescentes já são dotados de uma crueldade sagaz.

Em determinado dia, descendo as escadas, o vi chorando encostado na parede do banheiro masculino, que era visível da onde estava. A lei que impera é de quando alguém estiver chorando, você apenas se desloca para o lado e segue em diante e foi isso que fiz. Já no pátio um dos meninos do Grêmio iria me contar sorrindo, muito feliz, que haviam encontrado uma calcinha na mochila do rapaz em questão.

Na hora, senti uma gosto amargo na boca. Aquele peso, as bochechas quentes, uma sensação de que não devia estar lá, mas não falei nada. Fiz que sim com a cabeça e esbocei um leve sorriso. Hoje, se pudesse voltar atrás, me daria um tapa na face.

Nunca em minha vida tive qualquer preconceito com a classe social, a cor, a preferência sexual, mas com o tempo percebi que o silêncio era tão danoso quanto. Aquele meu silêncio de 8 anos atrás foi algo, porque aquele menino que um dia brincou comigo, compartilhou minhas bonecas e viria ganhar meu respeito estava chorando no banheiro porque haviam invadido sua privacidade, humilhado pelas suas escolhas e eu não o defendi por medo. Medo do que aquilo causaria na minha nova rede de amigos.

sigourney-weaver-prayers-for-bobby1.jpg Cena do filme "Orações para Bobby", que conta a história real de Bobby Griffith e sua família extremamente religiosa que se vê diante da descoberta do filho homossexual. Devo admitir que chorei mais do que o normal com este filme.

Por isso se faz necessário conversar sobre Kaique Augusto, o jovem que foi encontrado morto no dia 11 de janeiro em São Paulo e a Polícia Militar viria a recolher o corpo e relatar como Suicídio. Todas as polêmicas possíveis rondaram o caso: não é suicídio, foi assassinato, deixaram o corpo fora da geladeira no IML e tantos outros, mas a boa verdade que acredito é que aquele que matou ou o ato que empurrou Kaique daquele Viaduto está velado em nós. Que tudo vemos e nada fazemos.

Numa reportagem mais atual a mãe diz não acreditar mais em assassinato, que confirma o suicídio do filho e o advogado da família ainda fala "Pedimos desculpas à policia e aos grupos como skinheads que foram apontados como autores do crime". Você, leitor, consegue encontrar o erro nessa frase?

Kaique virou o culpado do que lhe ocorreu, porque no nosso país existe uma crença de que é fácil ser pobre, negro e homossexual. Porque se você é negro e está no shopping, uma família branca com seus três filhos segurando o mais novo iPhone vai temer por sua segurança, achando que será alvo de roubo. Um conceito enraizado e negado por muitos.

negro.JPG Um ótimo exemplo do que muitos pensam e poucos falam. Comentário postado no Yahoo Respostas e pode ser visualizado aqui.

Segundo o Mapa da Violência, que faz um estudo baseado em dados, o último relatório que determina os homicídios do Brasil por cor, a vitimização de negros teve uma aumento chocante, um fato que obviamente ninguém comenta.

Temos vários estereótipos a disposição e o velho discurso de que “Não se discute religião, política e futebol". Discute-se sim. Se faz necessário discutir o que estamos fazendo com nossos jovens, com nossos filhos, com o nosso decadente futuro próximo.

A religião prega amor, mas ao mesmo tempo diz que é errado duas pessoas se amarem, porque é necessário ter um pênis e uma vagina para abrigar o sentimento de forma valorosa. E claro que isso não deve ser questionado. A meu ver, o que contradiz o que muitos alegam sobre " O Homossexual é uma afronta a família" é a única afronta que encontrei na vida, que foram país héteros traumatizando filhos, adultos abusando sexualmente de crianças ou famílias praticando o ato de não refletir, criando pequenos seres cheios de ódio e preconceito.

Assim como a opção sexual, a pobreza também é estigmatizada. Pobre sempre tem que trabalhar mais, estudar mais, compensar mais, mais e mais, porém é disponibilizado pouco. Ser pobre, negro e homossexual poderia facilmente retirar o individuo do radar das oportunidades e coloca-lo no alvo para o próximo que vai ser violentado, humilhado e assassinado. O culpado quando localizado, ganhará condicional em pouco tempo, terá uma bela manchete e pronto, estaremos aguardando ansiosamente a próxima notícia.

E meu amigo de infância, a este foi reservado um futuro onde ele é chamado de viado, apontado como pária, onde os grupos de skinhead merecem um pedido de desculpa, porque realmente, dessa morte vocês não foram culpados. Tudo isso encoberto com aquela boa dose de silêncio que faz parte da nossa vida, aquela negação que ainda nos levará - se já não leva - a lágrimas amargas.

Estamos engatinhando ainda para um país onde as pessoas ao menos se interessem por saber o que significa o respeito, a reflexão, o questionamento. É necessário paciência e diálogo, não basta não concordar, levantar as mãos e afirmar " Mas eu não faço isso ", tais atitudes nunca mudaram nada.

E nossa realidade clama desesperadamente por mudança.

Fonte da notícia: iGay


Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas.
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