não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

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Jogos Vorazes: o Império Romano ficcional

Na trilogia Jogos Vorazes temos uma sociedade velada em tirania, abusos e a crueldade representada no sacríficio de jovens para a diversão da população, algo já conhecido por nós há mais de 2 mil anos, traços do Império Romano com o qual até hoje convivemos.


empires.jpg O Símbolo da Capital - Capitol no original - e o símbolo do Império Romano.

Quando saiu o primeiro filme da Série Jogos Vorazes - The Hunger Games no original - vi e esperei ansiosamente pela continuação. O gênero e a história me proporcionou bastante entretenimento e de forma geral não foi um filme de todo ruim, mas o sentimento não me interessou a ponto de adquirir os livros imediatamente. No começo do ano passado ganhei de um amigo querido a trilogia e já que os livros estavam em mãos, li.

A obra de Suzanne Collins convence e isso posso afirmar com bastante convicção. O primeiro livro é narrado unicamente por Katniss Everdeen e apesar de ter sérios problemas com essa personagem devido a sua grande apatia e covardia, o universo e situações narradas são bem conflitantes.

the-hunger-games-image08.jpg Jennifer Lawrence atua como Katniss Everdeen na franquia da série para o cinema. Imagem do primeiro filme, cena em que os jovens são escolhidos no "Dia da Colheita".

Panem é uma nação que se formou após eventos que não são contados no livro e o poder é centralizado numa cidade, que é apenas chamada de Capital, os outros 12 Distritos são completamente submissos ao governo que exerce pressão e tirania.

Mas, há alguns anos antes do início da história do livro menciona-se a existência de um 13° Distrito, tendo sido destruído pela Capital após uma rebelião, marcado na história como "Dias escuros". Após a rebelião a Capital criou os Jogos Vorazes (Jogos da Fome em Portugal), para lembrar a nação do poder e completa falta de escrúpulos dos governantes em manter sua autoridade sem questionamentos.

Todo ano no Dia da Colheita cada Distrito deve ceder dois tributos, um garoto e uma garota de 12 a 18 anos, para participar dos Jogos, que é televisionado para toda Panem. Os 24 participantes são colocados numa Arena e devem lutar entre si até a morte, já que só pode haver um único vencedor.

770px-Quaterionenadler_David_de_Negker.jpg The Quarter Eagle, xilogravura colorida à mão de Hans Burgkmair, 1510.

Acredita-se que o Império Romano encontrou o seu fim entre o período que vai de 453 a 475 d.C, com precisão nunca saberemos, já que foram vários os acontecimentos que causaram o fim de um dos Estados mais poderosos e tiranos já conhecidos. Mesmo com seu fim sendo estudado, sabemos que muito do que foi difundido naquele período pesa em nossos ombros até os dias de hoje, a própria ideia de Estado e República ainda é colocada em termos que já ultrapassaram os dois mil anos de idade.

A sociedade romana em si tinha suas peculariedades que não só nos remetem ao livro, como a nossa própria cultura. Em Panem havia os Jogos Vorazes e na Roma Antiga tínhamos os Gladiadores, escravos que eram treinados para combate, jogados numa arena e lutavam entre si, com animais e toda a sorte de bizarrice que fosse possível com a única finalidade de entreter a população.

800px-Cole_Thomas_Interior_of_the_Colosseum_Rome_1832.jpg Interior of the Colosseum Rome de Thomas Cole, 1832.

O Coliseu, importante ponto turístico de Roma tem seus pilares manchados em sangue, um símbolo que tem perdurado com os séculos, nos lembrando do panis et circencis ou "pão e circo", uma expressão satírica feita por Juvenal, uma tática criada pelos romanos.

A jogada do Estado era genial, se não fosse doentia, entreter a população com sangue e depravação, iludindo-os com festas e distraindo-os dos problemas políticos da época. Se em nenhum documento é relatado como as famílias subjugadas e os próprios gladiadores se sentiam, nos livros temos seus personagens tendo voz e todo o absurdo de uma sociedade que comemora a violência e faz festa para esquecer os terrores impostos pelo governo.

800px-Jean-Leon_Gerome_Pollice_Verso.jpg Pollice Verso de Jean-Léon Gérôme, 1872.

Outro ponto importante no livro e na história é a representação dos personagens quando comparados. Alguns nomes nos livros são gritantemente romanos: Caesar Flickerman, Claudius Templesmit, Coriolanus Snow, Enobaria e Brutus, Seneca Crane, entre outros. Alusões aos antigos governantes e pensadores da época.

Mas para mim, como leitora, nada foi tão gritante - e talvez seja o que me fez gostar da série - como os hábitos da população da Capital, em que a lei da ostentação e alegria imperava. O circo lá era diário e o Estado controlava a 'nata' com mãos de ferro.

No segundo livro temos a festa em que Katniss e Peeta são convidados, o banquete é exagerado e as pessoas comem e bebem sem parar. Quando estão "tão cheios que não conseguem comer mais", apenas vão até o banheiro, induzem o vômito e voltam para a comilança, enquanto o resto da população morre de fome.

Em Roma era comum o exagero em Banquetes ofertados a aristocracia e o mesmo método era empregado pelos romanos, mas ainda havia um bônus, após todos se considerarem satisfeitos, seguia-se o estupro dos escravos, que geralmente eram crianças.

E não seriam crianças, jovens entre 12 e 18 anos? Pode não haver nenhum relato de estupro nos livros, mas os abusos certamente tem seu lugar.

capitol_1.jpg A Capital nos filmes da franquia Hunger Games.

Panem não é uma sociedade tão fundamentada e consistente quanto a narrada nos livros de Isaac Asimov e a crítica não é tão bem trabalhada ou filosófica quanto na narrativa de Admirável Mundo Novo, mas nem por isso temos algo que não nos deixa uma boa questão.

Não é nova as táticas de distração que o Estado emprega na população numa tentativa de entreter os olhos para aquilo que realmente merece atenção e nem os sacrifício daqueles que são submetidos a isso.

Em Jogos Vorazes temos uma nação que conhece a esperança quando um único ato é considerado de rebeldia e a revolução ganha lugar. Em Roma, o Império viu o fim devido a sua própria incapacidade de resolução e respeito com o povo.

Sabemos que no dia seguinte da decadência de um Império, outro governo mais tirano se levanta. Vemos isso todos os dias, de várias formas na TV e em relatos. Resta a dúvida: algum dia perceberemos que somos alimentados com a estratégia da ilusão?


Paola Rodrigues

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