não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas

Poder e manipulação: House of Cards

House of Cards justifica o sucesso com uma trama banhada em ego, vingança e poder, com personagens tão manipuladores e emblemáticos que facilmente podemos comparar com aquilo que vemos todos os dias.


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Este texto não contém spoiler.

Esquerda e Direita, Republicanos e Democratas, Conservador e Liberal, termos para distinguir os partidos que elegemos constantemente em busca de uma política que faça algo pela população, uma esperança quase ingênua, com o amplo conhecimento de que os representantes pouco fazem pelo povo, sendo suas atitudes controladas por seus partidos, manipulando eleições e criando a opinião pública a custas da destruição.

Thomas Hobbes, importante filosofo inglês, em sua obra máxima Leviatã, deixa claro que o povo apenas pode encontrar ordem se submetendo a força do Estado, que sem isso teríamos Bellum omnium contra omnes, ou seja, "A guerra de todos contra todos". Uma realidade que presenciamos provavelmente por culpa do mesmo fator que Hobbes acreditava ser capaz de controlar e obter a ordem. O Estado surge como inimigo da nação e a política uma arma apontada para a cabeça de cada um.

House of Cards é obra do inglês Michael Dobbs, do gênero ficção, mas uma ficção tão presente na realidade, que por mais que vários políticos e jornalistas tenham se sentido ofendidos e alguns até afirmaram ser um absurdo algumas situações, bem sabemos que o caso está mais para "carapuça vestiu" que apenas um infundado sentimento de verdade. O livro inicialmente foi adaptado numa série da BBC de 4 episódios e atualmente foi produzida pelo Netflix com um elenco merecedor de aplausos.

HouseofCards1 (1).jpg Frank e Claire

A obra contém alguns traços de Macbeth e Richard III, escrito por Shakespeare, onde as relações de seus personagens são afundadas em vingança, loucura e dramas que comprovadamente seguem a política desde sempre. Mesmo tendo assistido a série inglesa, tanto a atuação e a história original, que usa como pano de fundo o Parlamento deixa a desejar, talvez o grande sucesso e qualidade esteja na versão atual.

Desenvolvido e produzido por Beau Willimon, contando ainda com a produção executiva de David Fincher, conhecido por Clube da Luta e A Rede Social, a estrela paira mesmo sobre Kevin Spacey, detentor do Oscar de Melhor Ator por Beleza Americana, provavelmente em sua melhor atuação, ele concede face e voz a Frank Underwood, o psicopata por de trás do Deputado Democrata manipulador e cruel de House of Cards.

Frank já no primeiro episódio deixa claro para o espectador, enquanto estrangula um cão atropelado na rua, que faz aquilo que deve ser feito, sem limitações morais ou culpa. Prático, frio, metódico, vingativo, pouco a pouco o personagem que você inicialmente acompanha relutantemente ganha sua atenção, ódio e questionamento. Tal como o ditado "por de trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher", temos Claire, uma versão menos psicopata, mas nem por isso melhor de Frank, uma mulher sem limites para a ambição, que em grande parte dos episódios não compreendemos se é um efeito colateral ou uma acompanhante sem escrúpulo, a conclusão chega rápido e não é das melhores.

kate_mara_house_of_cards.jpg Zoe

Para completar a trama, a jornalista Zoe Barnes galga o caminho para a ascensão jornalística se prostituindo por informação, sendo a número um em notícias vazadas da Casa Branca enquanto vende o corpo e alma a Frank, entrando para o jogo de poder como a peça que informa o povo com aquilo que é importante para a jogatina e corrupção interna.

Ao longo da primeira temporada conhecemos mais e mais personagens, todos sujos a sua maneira, alguns bem intencionados, comprovando vários clichês. Peter Russo pode ser apontado como a personificação do "de boa intenção o inferno está cheio", mais um peão, uma peça que é facilmente usada e destruída a medida que outras convenções se tornam prioridade.

Em House of Cards temos uma visão clara do que o poder causa no humano, mais que uma história sobre política, é uma análise sobre como as relações humanas acontecem quando se envolve ego, dinheiro e a capacidade de destruição. Não só a população é atingida, perdendo emprego, vida e oportunidades a medida que mais e mais peões são descartados e adicionados no jogo, mas os próprios participantes se tornam vítimas, sendo usados de forma cruel a medida que o vencedor se mostra.

coreystollhoc.jpg Peter Russo

O próprio autor da trama em uma entrevista concedida a VOCÊ S/A afirma "Ter poder não é sobre ser legal ou agradável, mas sobre tomar decisões difíceis. E muitas vezes não há tempo para decidir se a decisão é boa ou ruim, mas simplesmente se dá para fazer". Decisões geralmente tomadas para o ganho próprio e na tentativa de conseguir mais capacidade de eliminar.

O traço mais marcante ainda fica por conta do diálogo de Frank com o espectador, seus pensamentos e crenças são compartilhados, como o momento em que discursa sobre a morte de uma jovem contando uma emocionante história familiar, elogiando o pai, é quando uma pequena pausa acontece, ele olha direto para você e conta como seu pai significava nada, mas ninguém gostaria de ouvir isso.

A falta de escrúpulo se torna justificativa para os atos, a caça deve se tornar caçador para sobreviver, mesmo que com isso cause verdadeiras calamidades, pois tudo é absolutamente perdoado mediante os fins. Numa história onde ninguém é isento de culpa, me pergunto, se em algum lugar escapa-se do festim e quanto isso reflete aquilo que realmente podemos ser.


Paola Rodrigues

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