não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas

Breve análise mundial da violência contra a mulher

65% dos brasileiros acreditam que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas", 70% da população feminina mundial é ou será vítima de violência, mais de 100 milhões já foram mutiladas e tantos outros milhões estupradas. A estatística mundial só mostra o que ainda não compreendemos: a porcentagem é um ser humano e isso tem que ser combatido.


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Foi divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada o resultado da pesquisa Tolerância à violência contra as mulheres, onde para o choque dos próprios pesquisadores, grande parte dos brasileiros acredita que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" e "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros".

Foram entrevistados 3.810 pessoas entre maio e junho de 2013 em todo o país, sendo ainda divulgado que 66,5% dos entrevistados eram mulheres, um dado mais chocante ainda, mas fruto de uma cultura previamente conhecida por muitos.

Para fechar com chave de ouro e mostrar que contradição pouca não faz matéria de sucesso, a mesma pesquisa também aborda a violência doméstica e os números demonstram com bastante precisão que a violência por parte do marido não é aceita. Uma questão que coloca em pauta conceitos mais complexos do que os mostrados, já que aparentemente a violência contra a mulher casada é repudiada, mas se a mulher está fora do "lar" e ousa usar qualquer vestígio de liberdade, mais que merecido ela ser violentada.

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Mas o que realmente me chocou foi a falta de informação por parte das pessoas após esses dados. Se alguns ainda viviam em negação, dizendo que o machismo era uma invenção, outros desconsideram todos os fatos históricos, sociais, culturais, com discursos que beiram a ignorância em redes sociais. Ignorância é algo opcional em dias onde a internet pode ser acessada em quase todo lugar e sim, quem fala isso tem acesso à informação, só escolheu não procura-la.

Machismo não é exclusividade brasileira

Nem corrupção, roubo, assassinato e morte. Apesar de nosso país bater recordes e possuir números que não só são insatisfatórios como absolutamente preocupantes, nenhum desses eventos é algo inventado e promovido exclusivamente no território tupiniquim e a importância de compreender os fatores que acarretam os fatos impera, já que para combater o mal, é necessário conhecer seus caminhos.

O próprio Patriarcado é uma herança dos hebreus, que conhecemos como toda a linhagem apresentada na Bíblia, onde os homens tinham direitos não só sociais, mas era uma questão divina seu poder sobre as crianças e mulheres. Se a velha história de que o homem das cavernas puxava sua mulher pelo cabelo, nunca saberemos, já que não há fatos que comprovem com precisão o lugar da mulher na sociedade pré-histórica, mas muito do termo já demonstra que desde o princípio de algumas civilizações a mulher era vista como um meio para o fim: procriar e cuidar.

bp26.jpg Filhas posam com a imagem da mãe, Asia Bibi, que era cristã e foi condenada à morte por blasfêmia no Paquistão, 13 de novembro de 2010. (Adrees Latif/Reuters)

Impérios ruíram, feudos foram construídos e a democracia bateu a porta e nem por isso chegou ao fim o conceito de que a mulher é um ser inferior intelectualmente, cujo lugar é na cozinha e criando os filhos, trabalhando por vezes para sustentar sua cria, mas é um absurdo que possua uma faixa salarial igual a quem trabalha de verdade. Saia curta, short, vestido, liberdade de opinião e uso do próprio corpo? Isso é ser vagabunda.

  • Mulher no volante, perigo constante.
  • Gostosa, te dava um trato lá em casa.
  • Biscate não sente frio.
  • Se deu na primeira vez, é porque não presta.
  • Engravidou porque é burra.

Existe ofensa contra a mulher em todas as línguas. Para a desgraça geral mundial, o preconceito ganha a cor da cultura.

Isso é algo encontrado em vários países, em graus preocupantes ou irônicos, estão lá. Estima-se que durante a Santa Inquisição mais de 50 mil pessoas tenham encontrado a morte nas fogueiras das Bruxas, 65% eram mulheres que sofreram perseguição política e religiosa por ser parteira, conhecer ervas, apresentar autonomia ou qualquer fato que poderia ser apontado como ato de bruxaria, o apelido carinhoso para preconceito.

bp31.jpg Nova Delhi, 16 de maio de 2007. (Adnan Abidi/Reuters)

Durante o Império Romano sabe-se que muitas mulheres foram mortas para diversão, a prostituição era legalizada, assim como a violência contra as mesmas. O Leste Europeu ainda é conhecido por seu tráfico de humanos, que ainda é maioria o sexo feminino. Índia? China? Oriente Médio? Ainda é necessário falar algo? Sim, é.

Os fatos que justificam os atos

Agora é 15:33, duas mulheres já morreram no Brasil enquanto escrevia este texto. Estima-se que ocorreram, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia, entre 2009 e 2011, segundo o Violência Contra a mulher: Feminicídios no Brasil, outro relatório emitido pelo Ipea em 2013. Entre 1997 e 2007 estima-se que 10 mulheres morreram por dia no Brasil, segundo o Mapa da Violência no Brasil de 2010.

bp9.jpg Mulheres que se aventuram em papéis masculinos no Afeganistão sofrem perigosas represálias. Cartaz de campanha danificado onde uma mulher se candidata para o Parlamento, 8 de setembro de 2010.(Raheb Homavandi/Reuters)

Segundo informações da ONU, 70% da população mundial feminina sofrem de algum tipo de violência durante a vida, mais da metade das mortes de mulheres é causada pelo marido ou parceiros sexuais antigos. Na Austrália, Canadá , Israel, África do Sul e Estados Unidos, de 40 a 70 por cento das vítimas de assassinato do sexo feminino foram mortas por seus parceiros , de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Na Colômbia, uma mulher está supostamente morta por seu parceiro ou ex-parceiro a cada seis dias.

Ainda usando dados da ONU: Na República Democrática do Congo aproximadamente 1.100 estupros estão sendo relatados a cada mês, com uma média de 36 mulheres e meninas estupradas todos os dias. Acredita-se que mais de 200.000 mulheres foram vítimas de violência sexual no país desde o conflito armado começou.

O estupro e violação sexual de mulheres e meninas é generalizada no conflito na região sudanesa do Darfur. Entre 250.000 e 500.000 mulheres foram estupradas durante o genocídio de 1994 em Ruanda.

800px-Acid_attack_victim.jpg Vítima de ataque ácido, Camboja, 2007. (Wikimedia Commons)

A violência sexual foi uma caracterização da longa guerra civil de 14 anos na Libéria e durante o conflito na Bósnia no início de 1990, entre 20.000 e 50.000 mulheres foram estupradas.

A Mutilação Genital Feminina/Corte Genital, cuja sigla FGM/C é usada (Female Genital Mutilation/Genital Cutting) é um ato comum na África e no Oriente Médio, estima-se que 100 a 140 milhões de mulheres e crianças vivas atualmente tenham sofrido desta violência. No Sul da Ásia ainda existe o assassinato pelo dote, a "Morte pela Honra", onde a mulher é assassinada quando a família é incapaz de pagar o dote por ela.

Entre 500 mil a 2 milhões de pessoas são traficadas anualmente em situações incluindo prostituição, trabalho forçado, escravidão ou servidão, de acordo com estimativas. As mulheres indígenas no Canadá são cinco vezes mais propensos do que as outras mulheres da mesma idade para morrer como resultado da violência e na Europa, América do Norte e Austrália, mais de metade das mulheres com deficiência sofreram abuso físico, em comparação com um terço das mulheres não portadoras de deficiência.

Claro, todas elas são culpadas. Nasceram.

Tem solução?

Gosto de acreditar - ou acredito para sobreviver - num velho ditado de que apenas para a morte não há solução e para isso ainda deve ter um jeito, lá no fim, quem sabe. Não será rápido, nem fácil, nem bonito. Não será feito por partido político, colunista de jornal, dados ou o que estou escrevendo, isso só irá acontecer com doses cavalares de consciência.

Precisamos conversar, informar, esclarecer, colocar como hábito da população essas práticas, criando cidadãos mais informados e sedentos na busca por resultados, esses culminaram em bons políticos, filósofos, educadores, pontes para a mudança. E não, amarrar estuprador em poste, matar, vingança, ódio, gritar no Facebook que todo homem é misógino e que o Patriarcado é o mal do mundo, isso não é mudança, é reação a notícia. O machismo é uma teia que está inserida em um patamar cultural e combater isso é extremamente difícil.

Não acredito que a causa seja exigir o respeito para a mulher, é o respeito pelo ser humano em geral. Não é válido apenas gritar pelo direito feminino, mas pelo direito do transexual - do qual fui aprender sobre faz muito pouco tempo -, da liberdade de escolher o que se é e poder viver em condições propícias para uma vida digna, é a busca do direito de... Ter direito.

No final, após mais de 24 horas entre escrever, pesquisar, editar, arrumar erros, não sei quantas mulheres foram mortas, estupradas, vendidas, mutiladas, ameaçadas, violentadas fisicamente e psicologicamente até o ponto final deste texto.

Apenas lembre-se que em cada número da estatística mora uma pessoa e que o ponto final para as ações custam mais vidas do que custamos admitir.


Paola Rodrigues

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