não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas

Um pálido ponto azul e Carl Sagan

A ciência, em suas várias apresentações, deixa de ser uma palavra que denomina o ato e se torna a busca inerente por conhecimento quando nos deparamos com a obra do Professor Carl Sagan e sua busca por eternas questões do humano.


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Das poucas coisas que posso realmente agradecer a ex-namorados, são os filmes, músicas e séries apresentados, e lembro muito nitidamente a primeira vez que vi um episódio de Cosmos, apresentado por um dos infelizes, não este novo que está fazendo um enorme sucesso um tanto questionável, mas o de 1980, com efeitos especiais muito engraçados para jovens pós James Cameron e com a narração do apenas fantástico Carl Sagan.

A este dedico o texto, porque num mundo onde jovens usam "Deus: Um Delírio" como bíblia e pregam o ateísmo com o mesmo louvor de Paulo, o Apóstolo, estamos com sérios problemas, de cunho científico.

Vou ignorar os fatos da vida de Sagan, porque tudo isso é facilmente encontrado na Wikipédia, basta saber para introdução que ele foi um pensador antes de tudo, pesquisador e estudioso, explicou as questões científicas como "Existe vida fora da Terra?" ou "Quem somos e para onde vamos?" de forma tão clara que realmente acredito que qualquer um que tenha tido um contato mais profundo com sua obra apenas possa dizer sem um pouco mais de reflexão, que não acredita completamente em algo. A voz da dúvida se faz necessária.

Não, ele não disse que devemos acreditar no que ele ensinou, não mostrou fatos como verdade absoluta, antes de tudo como um bom e velho professor, Sagan deixou para seus "alunos" o espaço para as próprias conclusões e cedeu informações para colaborar com um resultado verdadeiro. Em seu livro Dragões do Éden, ganhador do Pulitzer de 1978, uma das obras primas da literatura de não-ficção na minha humilde opinião, temos uma bela análise, com vários fato sobre o humano, sua evolução e vida, sobre a existência de forma ampla e até onde ela pode ir, tudo de forma simples.

Porque sim, Sagan foi genial em sua simplicidade. Talvez seu maior crime perante a comunidade científica tradicional não tenha sido idealizar e defender o programa SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence ou Busca por Inteligência Extraterrestre), um ramo que é piada para muitos, mas sim ter sido claro, expandindo conhecimento, não acreditando que a ciência deve ser mantida numa redoma de vidro.

PaleBlueDot.jpg Imagem feita pela sonda Voyager 1 em 14 de Fevereiro de 1990. A Terra é localizada a 6,4 bilhões de quilômetros de distância como um "pálido ponto azul".

E pior que tudo isso, nos colocar em toda nossa insignificância, mostrar que somos um ponto na evolução, nem o primeiro ou o resultado final de bilhões de anos de eventos que estão longe de estar sob controle, que a Terra é apenas um ponto no nada. Enquanto estudos são feitos para apontar nossa relevância e compreender nossa decadente sociedade de forma culta, esquecemos que tudo isso ganha importância apenas quando realmente colocamos significados nessas tais pequenas coisas. Sagan em seu livro O Pálido Ponto Azul reflete sobre as imagens feitas pela sonda Voyager 1, em que nosso pequeno Planeta é visto com um ponto azul, sem graça, no meio de vários outros pontos.

“Deste ponto de vista distante, a Terra não parece ter nenhum interesse particular. Mas, para nós, é diferente. Considere novamente aquele ponto. É aqui. É nossa casa. Somos nós. Nele, todos os que você ama, todos os que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. O somatório da nossa alegria e do sofrimento, cada uma das inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada um dos caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, mães e pais, crianças esperançosas, inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superstars”, “líderes supremos”, santos e pecadores na história da nossa espécie moraram aqui – num grão de poeira suspenso num raio de sol. (…) Para mim, isso ressalta a nossa responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que já conheci.”

Trecho do discurso feito por Sagan na Universidade de Cornell em 1994, que também faz parte de seu livro.

O homem que acreditava na vida fora da Terra, na insignificância de nós e na grandiosidade da reflexão, do que somos e seremos, sem entrar em contradição, era um partidário do uso da Maconha, escreveu o romance Contato, centenas de artigos, estudos e o consagrado - e necessário - The Demon-Haunted World, seu segundo melhor livro e um guia para qualquer um que queira começar a pensar com seu próprio cérebro.

tumblr_m29mk35ClZ1rt9903o1_1280.jpg Sagan e Dalai Lama conversam em 28 de Fevereiro de 1990.

Você pode ver inicialmente neste vídeo, disponibilizado pela Universidade de Cornell, algumas reflexões de Ann Druyan e o diálogo de Sagan com Dalai Lama.

Numa caixa de egos inflados e regras práticas para a cultura e ciência, Sagan foi um brilhante ponto em meio aos bilhões que já percorreram nosso Planeta. Sempre afirmou que não acreditava em Deus como "um gigante barbudo de pele branca sentado no céu", porém também disse "Mas se, com esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que regem o Universo, então claramente existe um Deus. Só que ele é emocionalmente frustrante: afinal, não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade!". Talvez algo que falta para muitos, foi uma constante para ele, o fato de respeitar e estender seus estudos para as crenças, sem desqualifica-las, assumindo que para afirmar que Deus não existe precisaríamos compreender mais sobre o Universo - e de fato, ainda não compreendemos o suficiente. Foi um cético, porque ceticismo exige cautela e observação.

Voyager03.jpg Disco revestido em ouro com sons, músicas e saudações em 55 línguas que a sonda Voyager 1 leva em sua jornada.

Em abril de 2013 foi constado que a sonda Voyager 1 havia deixado nosso Sistema Solar, estando oficialmente a 19 bilhões de km do Sol, mais longe do qualquer coisa já chegou. Está desativada, mas ainda pulsa e diariamente a NASA recebe relatório de sua viagem por nosso espaço, carregando com ela um relato para bilhões de anos.

No final de seu livro, Dragões do Éden, é citado o apresentador Jacob Bronowski, que inspirou Sagan para a realização da série Cosmos “Somos uma civilização cientifica. Isso significa uma civilização na qual o conhecimento e sua integridade são cruciais. Ciência é apenas uma palavra latina que significa conhecimento. O conhecimento é nosso destino”.

De certa forma, um pouco de Sagan se foi com a Voyager, trilhando nosso fatídico caminho.


Paola Rodrigues

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