não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

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A solidão e o labirinto de Gabriel García Márquez

Gabriel García Márquez morreu e nós estamos sozinhos.


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Estava no meio deste texto quando percebi que tinha esquecido a data de nascimento de Gabriel García Márquez e, já que o dito cujo morreu, uma mini bibliografia seria interessante, não? Rapidamente, fui para a Wikipédia e, algumas horas depois da morte do autor, lá estava "Aracataca, 6 de março de 1927 — Cidade do México, 17 de abril de 2014".

Os dados são rápidos. Um escritor, um ator...alguém morre e logo vão atualizar os números, contar os fatos, enumerar as obras, tecer os elogios e algo me diz que ele não gostaria disso. Aquele que escreveu sobre fatos, que foi jornalista, que narrou uma história em cada obra, nem por uma vírgula valorizou qualquer coisa mais que as relações humanas. Percebemos isso quando José Arcadio Buendía, assombrado com um pedaço de gelo, proclama "Este é o grande invento do nosso tempo" na obra Cem Anos de Solidão ou "O que mata a gente não é o moral, Excelência — disse — "É a gonorréia", em O General em seu Labirinto.

Porque sim, Márquez ganhou um Nobel com Cem Anos de Solidão, ganhou o coração das meninas em O Amor nos tempos do Cólera, elucidou os cínicos em Memória de Minhas Putas Tristes e desvendou seu próprio mistério em Do amor e Outros Demônios. Meu coração foi arrebatado com O General em seu Labirinto e o mundo, por fim, conheceu a obra de um dos maiores escritores de nossa época.

Se sua inspiração veio de Kafka, Rulfo e Faulkner, me pergunto de onde nos inspiramos para amar Márquez. Talvez seja dos fatos bem amarrados de seus livros, do jornalista interessado, curioso e preocupado que já não vemos por aí, ou suas histórias com personagens tão palpáveis, que acariciavam as páginas com uma personalidade tão bem construída que o lúdico ganhava espaço. Nas páginas dos livros havia um mundo cru, político, de carajos, e mortes que fascinavam por nos contar o relato de um povo que permanece.

No mundo de Gabo, uma menina de longos cabelos é santa, nosso General é humano, Luís Alexandre Velasco está só, assim como nós, e Santiago Nasar morreu, é irremediável. Narrativas com mundos particulares, medos e anseios próprios que se traduzido para mil línguas, alguém irá se identificar, porque Márquez antes de tudo escreveu sobre as pessoas que formam uma história.

Nós, ocupadíssimos homens sociáveis, passamos os dias, folheamos os jornais, vemos o sol nascer e se pôr, não olhando a poesia, as cores e nuances do que nos cerca. Você se pergunta quem é aquele que domina a manchete do jornal? Ilusiona sobre a vida de alguém que foi grande, mas todos nascemos nus, em prantos, desejando o seio da mãe.

Meu amigo, o que mata é a gonorréia, lembre-se disso.

E hoje, nesta madrugada do dia 17 para o 18, recuso-me a narrar os prêmios, livros e títulos que Gabriel García Márquez ganhou e acumulou. Porque o sentimento que me inundou o peito quando terminei meu primeiro livro deste autor, este sentimento me deixaria incapacitada de fazer isto e me sentir bem. Porque a dor que sinto ao escrever tais palavras não é emocional, é física, causada por uma tendinite. Mas, veja bem, a necessidade de uma última vez prestar homenagem ao homem que dormiu comigo, cresceu comigo e me ensinou também a escrever se faz necessária, e ignorar toda a dor foi preciso.

E agora, já no final dessas palavras, me pergunto que diabos é aquele maldito Labirinto? Para onde foi toda a dor e amor desta nossa maldita América Latina? Entra Governo e sai Governo e nosso povo continua essa mistura entre riqueza e pobreza do pão.

A família Buendía viveu sua saga de solidão, um sentimento presente em toda obra de Márquez, porque no final acho que este sentimento faz parte do processo de despertar a alma. Será que em seu último instante o amado Gabo constatou a ladainha universal de que sozinhos nascemos e sozinhos morremos, carajos?


Paola Rodrigues

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