não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas

Filha, você pode ser um menino se quiser

Entre o rosa e o azul, existe mais conceitos e discussões que acredita a vã sabedoria da sociedade.


Mother-Child-Klimt-L.jpg Mother and Child, Gustav Klimt.

Escrito no dia 24 de março de 2014, numa madrugada de insônia.

Filha,

Quando você nasceu foi declarada do sexo feminino, mas quando ainda era muito pequena, um cisco na minha barriga, já imaginava “E se a escolha não for a mesma constatada pelos médicos?”. Sim, já discuti isso com seu pai.

Um tanto depois, quando seu nome era um mistério, fomos numa loja comprar suas primeiras roupas. Quando questionei a vendedora sobre roupas unissex, ela me mostrou nem 1% de opção num mundo de rosa e azul, o que tornou claro que o mundo não está nada preparado para escolhas tão delicadas quanto quem você é, ainda nos afogamos num mar de cores que ditam precocemente o que se espera de uma pessoa.

Sou uma boba, fico imaginando você já adulta, me contando suas novidades na mesa, me apresentando amigos, levando broncas e tomando um belo café com leite preparado com todo carinho por mim e sempre – s-e-m-p-r-e – te imagino como uma folha em branco. Nenhuma roupa, nenhum corte de cabelo ou qualquer preferência da minha imaginação que possa imitar suas escolhas. São suas, não me meta nelas.

Claro, sempre te darei conselhos, irei te ouvir e vou opinar quando achar necessário, mas quem você é e o que deseja, são questões que apenas diz respeito ao seu ser. Hoje você tem 8 meses, quase 9, brinca com avião, lata de milho, bonecas, tartaruga ninja, forma de silicone de cupcake, mordedores, saquinhos com feijão e arroz, pote cheio de feijão, sim, estou sendo muito criativa na tarefa de te entreter sem gastar dinheiro e o mais importante: aqui não tem brinquedo de menina e menino. Temos diversão.

Lembre-se disso. Vou te vestir de rosa – mais rosa, porque você ganha muitas roupas dessa cor – vermelho, azul, preto, tudo que achar confortável, você tem a orelha furada, assim como seu pai - porque eu não uso brinco - e sim, as vezes coloco presilhas no seu cabelo, mas devo admitir que acho aquilo chato para crianças.

Só quero te deixar claro, querida, você pode ser um menino, uma menina, algo entre um ponto e outro, uma flor, um pedaço de nuvem, um peixe com pés, tudo que você quiser, desde que seja uma pessoa de opinião própria. Prefiro que você reflita sobre tudo e me conte sobre sua decisão, do que seja a garotinha perfeita e de sucesso da mamãe. Melhor, nem seja, isso é muito chato.

Desejo do fundo de minha alma que você pense sobre o mundo, veja desenhos no céu, acredite no potencial criativo humano e fale sobre concepções do que o conhecemos como “normal”.

Tenho medo, claro, que você sofra violência por ser mulher ou por qualquer outra escolha futura, mas se quero uma filha corajosa, também devo me cobrar a coragem de te ajudar a enfrentar o mundo. Somos uma equipe, lembre-se disso. O mundo e seus conceitos pré-definidos podem se explodir em purpurina.

Com amor, Mamãe.

Carta inicialmente escrita para o blog Cartas para Helena, mas que devido ao alcance que teve, coloco em meu espaço na esperança que palavras tão pessoais possa ajudar alguém um dia.


Paola Rodrigues

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