não matarás

O hediondo e banal

Paola Rodrigues

Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas

Publicidade infantil: quem ganha com isso?

Nossa sociedade está muito bem acomodada na ditadura do consumo perpétuo, mas será certo mirar tal arma para nossas crianças?


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Acho que uma frase que todas as pessoas vivas neste mundo já ouviram é que um filho não tem preço. Que o amor é transformador. Que temos que valorizar as pessoas.

Num outro extremo desta linha, temos comerciais, chamadas de Rádio e TV, propagandas de milhões e milhões, nos dizendo que você pode ser feliz, saudável, popular, legal e atual por uma quantia. Prometem que ao tomar aquilo, você irá consumir poucas calorias e estar super sarada para o verão. Prometem que com aquele carro, você irá viajar e azarar as gatinhas na praia.

Nos dão um valor para a qualidade de vida e aos buscar meios de pagar esse preço, esquecemos daquela tal qualidade de vida. É um paradoxo do consumo que estamos todos envolvidos.

Porém, nós, adultos e cientes que podemos buscar informação, meios e formas de não ser engolidos por essa ditadura de consumo desenfreado - que no final, apenas ocupa o buraco gerado pela infelicidade uma vida nada plena - conseguimos superar isso. Mas crianças, elas não deviam ser manipuladas e sofrer uma lavagem cerebral para também querer esse tipo de vida.

Se aos pais cabe a responsabilidade de limitar a exposição e acesso a produtos que visivelmente não fazem bem, mesmo sendo vendidos como a solução milagrosa para nossos problemas, qual é a responsabilidade da publicidade que abusa de crianças?

No dia 4 de abril de 2014 foi publicado no Diário Oficial da União, a resolução aprovada de forma unânime pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), vinculado à Secretaria de direitos Humanos da Presidência da República (SDH), que classifica como abusiva a todas as formas de “publicidade e comunicação mercadológica destinadas à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço”.

Se por um lado, nós mães e pais, saltamos de alegria, o outro lado da moeda, as agências e empresas que precisam dessa publicidade para convencer crianças a implorar por um copo que contém uma quantia ridícula de cafeína, sódio e açúcar, sentem seus direitos lesados. Afinal, o papel da indústria é vender, lucrar, não importa como e para quem.

O argumento passa do absurdo, para o que pode ser discutido. A Associação Brasileira das Agências de Publicidade (Abap), argumenta que proibir nãos seria a solução, já que crianças estão expostas a vários estímulos todos os dias. Será isso mesmo?

Estudando o caso

ft_prod_2_158_p.png (Fonte: Divulgação)

Vamos usar como exemplo o Bolinho Roll Cake, da Bauducco, que você pode encontrar facilmente em qualquer supermercado, mercado, mercearia, casa da tia e avó, perto de você. Na sua chamada fica claro que o mundo seria maravilhoso se tivesse "lanchinho gostoso todos os dias".

Campanha da Bauducco – Reino das crianças

Descrição da campanha seguindo a produtora: Este filme faz parte da campanha criada para o lançamento dos bolinhos Roll e Duo, da Bauducco. Estreou no dia 14/9/11. O filme “Reino das Crianças”, começa a ser veiculado nos canais a cabo e, em seguida, na TV aberta, leva os espectadores ao mundo ideal das crianças, em que os banhos são brincadeiras que se estendem pelo chão do banheiro, os pais contam centenas de histórias na hora de dormir, todos têm direito a cafuné da mãe o dia todo e, na escola, a um lanchinho gostoso com os novos bolinhos da Bauducco.

Segundo Monteiro et al. (2008), 72% das propagandas de alimentos infantis no Brasil são de alimentos não saudáveis, e o impacto desses alimentos para os consumidores é facilmente sentido, visto que os casos de obesidade infantil têm aumentado no país e no mundo (Monteiro et al., 2008; Kelly et al., 2010).

De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2008 e 2009, as prevalências de obesidade na população adulta são de 12,5% entre os homens e 16,9% entre as mulheres. Já entre as crianças, o excesso de peso abrange cerca de 33,5% na faixa etária de 5 a 9 anos de idade – quase o triplo do valor encontrado na Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição de 1989 (IBGE, 2010). Em 20 anos, as prevalências de casos de obesidade foram multiplicadas por quatro entre os meninos (4,1% para 16,6%) e por praticamente cinco entre as meninas (2,4% para 11,8%) (IBGE, 2010).

Sem título.jpg Informações Nutricionais presentes em uma unidade (38g) do bolinho Bauducco “Roll Cake Brigadeiro”.

- Dados retirados do site PropragaNUT.

Argumento

Num pátio de escola ou numa loja, a criança seria convencida a querer o tal bolinho com um apelo tão grande quanto esse? Dizem que é bom carinho de mãe, banho com diversão, muitas histórias para dormir e claro, um saudável bolinho repleto de tudo aquilo que faz mal. Não faz sentido.

Mas ainda existe o outro argumento: os pais devem saber e dizer não. Concordo e fazemos isso toda hora, todos os dias, mais vezes do que seria necessário para o próprio bem da criança devido a esse tipo de publicidade. Posso explicar para a minha filha que ela não vai consumir X produto porque faz mal e sempre vem a questão "Mas se faz mal, porque então dizem que é bom?".

Devo explicar para uma criança que mentem, manipulam, usam de artifícios para ganhar dinheiro e que dinheiro é necessário para a vida, mas vem sendo usado para deixar gananciosos felizes. É isso? Devo ser exemplar e me enquadrar nesse argumento?

Queridos, publicitários e empresas, crianças não são burras. Elas possuem personalidade, vontade, compreensão, devem ser respeitadas como seres humanos. Não devem ser alvo para suas empresas ficarem um tanto mais milionárias e ainda jogarem a culpa em nós pais, que temos que dar limites. Por favor, venha educar crianças numa rotina onde estão sempre falando que é maravilhoso tudo que mata. Tudo que não agrega cultura, conhecimento, educação, nutrição e bem.

Acredito que publicidade é necessário e nem sou contra o capitalismo, apesar de acreditar que a Ditadura do Consumo mata e cria depressivos por todos os lados, apenas assinalo que é necessário fazer publicidade para quem compreende, entende e no final é quem vai comprar.

Respeitar a infância é criar um mundo melhor e acredito que apesar da necessidade de manter o mercado, também precisamos de uma vida que não nos cause tantos danos. Isso é pela minha filha, o seu filho e os futuros filhos que ainda vão surgir.


Paola Rodrigues

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