não vale o sopro

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There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

15 de fevereiro de 1922: os modernistas de topete exacerbado


semana22.jpg"Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, motores, chaminé de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte!", abria o segundo dia da tão famosa Semana de Arte Moderna o (logicamente) paulista Menotti del Picchia. Não porque esse último fosse poeta ou por qualquer outra mera fatalidade, o dia 15 de fevereiro foi O dia da poesia do repercutido festival. semana_jornal.JPG

Em meio a uma apresentação sem grandes sustos do piano de Guiomar Novaes, a real atração: a conferência de del Picchia e as leituras de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Plínio Salgado. Sustentados por um coro respeitável de vaias, miados e latidos, os poetas mantiveram-se firmes e não afrouxaram pé sob tamanhos insultos.

Mais tarde, Mário comentou sobre tal episódio:

"Mas como tive coragem pra dizer versos diante duma vaia tão barulhenta que eu não escutava no palco o que Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas?... Como pude fazer uma conferência sobre artes plásticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?..."

Mário não estava só. Junto com ele nesse rio de afiadas pedras, em proporção semelhante, estava Ronald Carvalho. O poeta ousou ler o clássico - mas nem tão clássico assim na época - poema Os Sapos, de Manuel Bandeira. Por entre ironias do público sobre o refrão poético "Foi! - Não foi", Ronald leu por completo o (agora) aclamado texto:

Os Sapos

Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: - "Meu pai foi à guerra!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: - "Meu cancioneiro É bem martelado. semana22_noticia.jpg Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos.

O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma.

Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia, Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi: - "Meu pai foi rei!"- "Foi!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: - A grande arte é como Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário. Tudo quanto é belo, Tudo quanto é vário, Canta no martelo".

Outros, sapos-pipas (Um mal em si cabe), Falam pelas tripas, - "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita, Lá onde mais densa A noite infinita Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, No perau profundo E solitário, é

Que soluças tu, Transido de frio, Sapo-cururu Da beira do rio...

Repercussão do dia

Mono 12.jpg

O resultado na época, contrapondo-se à visão histórica da literatura agora em voga, não foi o dos melhores:

"Foi, como se esperava, um notável fracasso a récita de ontem da pomposa Semana de Arte Moderna, que melhor e mais acertadamente deveria chamar-se Semana de Mal - às artes. O futurismo tão decantado não é positivamente de futuro... No presente, diante da ignorância de tal semana por parte da sonolenta sociedade, ainda é possível que dê alguma coisa; depois, porém, de conhecer a droga, ninguém penetrará a botica em que foi transformado o Municipal [...] A sonolenta sociedade paulista foi sacudida duas vezes do seu torpor de atraso: uma, para vibrar com Guiomar Novaes, e outra, com mais intensidade ainda, quando soube repelir o cabotinismo. De tudo quanto vimos e observamos do tal futurismo, metidos sempre no nosso atraso mental, deduzimos que os modernistas possuem uma coisa: topete, muito topete, e tanto assim que já se anuncia pra amanhã uma exibição teratologista." (Folha da Noite, 16/02/1922)

Assim mesmo, enquanto Guiomar calava o público e esse tentava (e tentava e tentava) calar os poetas modernistas, um sopro insólito já era dirigido para as próximas gerações: a Semana de Arte Moderna de 1922 ainda iria vingar.


Lucas Reis Gonçalves

Lucas Reis Gonçalves é poeta e articulador cultural. Novo-hamburguense morador da capital gaúcha, foi finalista do Prêmio AGEs de Literatura com o seu primeiro livro, Se soubesse o que dizer, diria em prosa (Paco Editorial, 2011), e, através dele, criou, juntamente com o músico Dado Vargas, um novo projeto de declamação poética: Eletropoeteria. Lucas nasceu em 1990 e atualmente escreve para sites de literatura (públicos e independentes)..
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