não vale o sopro

Não há nota de rodapé que note.

obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

O dia (da mulher) que atrasou por causa de Jandira

A mulher que paralizou um blog e virou a cabeça do autor.


2508037838_50b8c0723f_b.jpgIlustração: Johnathan Zafrani

Jandira não teve culpa. Não intecionalmente.

Eu que aqui estou a escrever nesse blog, por um mero detalhe desse mundo de Murilo Mendes, acabei por deixar passar em branco o dia da mulher. Mas ressalto: deixei de falar sobre a mulher por estar de olhos (e corpo) inteiramente voltados a uma outra - A mulher do nosso poeta modernista.

Murilo, explica pra eles:

Jandira

O mundo começava nos seios de Jandira.

Depois surgiram outras peças da criação: surgiram os cabelos para cobrir o corpo, (às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos). E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo. E surgiram sereias da garganta de Jandira: o ar inteirinho ficou rodeado de sons mais palpáveis do que pássaros. E as antenas das mãos de Jandira captavam objetos animados, inanimados, dominavam a rosa, o peixe, a máquina. E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar quando Jandira penteava a cabeleira...

Depois o mundo desvendou-se completamente, foi-se levantando, armado de anúncios luminosos. E jandira apareceu inteiriça, de cabeça aos pés. Todas as partes do mecanismo tinham importância. E a moça apareceu com o cortejo do seu pai, de sua mãe, de seus irmãos. Eles é que obedecem aos sinais de Jandira crescendo na vida em graça, beleza, violência. Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira e eram precipitados nas delícias do inferno. Eles jogavam por causa de Jandira, deixavam noivas, esposas, mães, irmãs por causa de Jandira. E Jandira não tinha pedido coisa alguma. E vieram retratos no jornal e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira. Certos namorados viviam e morriam por causa de um detalhe de Jandira. Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira. Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira. E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas; não caía nem um fio, nem ela os aparava. E sua boca era um disco vermelho tal qual um sol mirim. Em roda do cheiro de Jandira a família andava tonta. As visitas tropeçavam nas conversações por causa de Jandira.

E um padre na missa esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.

E Jandira se casou. E seu corpo inaugurou uma vida nova, apareceram ritmos que estavam de reserva, combinações de movimento entre as ancas e os seios. À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem as formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.

E o marido de Jandira morreu na epidemia de gripe espanhola. E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela. Desde o terceiro dia o marido fez um grande esforço para ressucitar: não se conforma, no quarto escuro onde está, que Jandira viva sozinha, que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade e que ele fique ali à toa.

E as filhas de Jandira inda parecem mais velhas do que ela. E Jandira não morre, espera que os clarins do juízo final venham chamar seu corpo, mas eles não vêm. E mesmo que venham, o corpo de Jandira ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.


Lucas Reis Gonçalves

Lucas Reis Gonçalves é poeta e articulador cultural. Novo-hamburguense morador da capital gaúcha, foi finalista do Prêmio AGEs de Literatura com o seu primeiro livro, Se soubesse o que dizer, diria em prosa (Paco Editorial, 2011), e, através dele, criou, juntamente com o músico Dado Vargas, um novo projeto de declamação poética: Eletropoeteria. Lucas nasceu em 1990 e atualmente escreve para sites de literatura (públicos e independentes)..
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