não vale o sopro

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obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

Sodomia impenetrável

O vigário Frutuoso Álvares e seus tocamentos desonestos


sodomia001.jpgE assim com outros muitos moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes, nem onde ora estejam, teve tocamentos desonestos e torpes em suas naturas e abraços, e beijando, e tendo ajuntamento por diante e dormindo com alguns algumas vezes na cama, e tendo cometimentos alguns pelo vaso traseiro com alguns deles, sendo ele o agente, e consentindo que eles o cometessem a ele pelo seu vaso traseiro, sendo ele o paciente, lançando-se de barriga para baixo e pondo em cima de si os moços e lançando também os moços com a barriga para baixo, pondo-se ele confessante em cima deles, cometendo com seu membro os vasos traseiros deles e fazendo da sua parte por efetuar, posto que nunca efetuou o pecado de sodomia penetrando.

Não. Isso não é um engano. E sim: essa é uma prática bastante curiosa - mas não incomum.

Esse belo e excêntrico texto foi retirado (acreditem!) das confissões realizadas ao visitador do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa, Heitor Furtado Mendonça, durante a sua visitação no estado da Bahia de Todos os Santos, em 1591. Extraída das Confissões da Bahia (Cia das Letras, 1997) e proferida pelo (já citado) vigário Frutuoso Álvares, a confissão, cujo excitante texto apresentei logo acima, nos narra um ser extremamente complexo: o (nem) tão estranho padre que come (e dá para) novos moços e utiliza-se de diversos - e criativos - tocamentos para niná-los durante suas pretensiosas orações.

Mas a sacanagem do velho -com seus sessenta e cinco anos - não para por aí. Depois de afirmar que não avisa às (talvez nem tão) pobres vítimas que o que pratica é pecado, revela:

E, confessando-se, disse que de quinze anos a esta parte que há que está nesta Capitania da Bahia de Todos os Santos, cometeu a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos, abraçando, beijando, a saber, com Cristovão de Aguiar, mancebo de dezoito anos, então que era ora a dous ou três anos, filho de Pero d’Aguiar, morador na dita sua freguesia, teve tocamentos com as mãos em suas naturas ajuntando a uma com a outra e havendo polução da parte do dito mancebo duas vezes.

Querem saber se o cara foi queimado, torturado ou abusado? Pois bem, nada disso. Foi apenas proibido de cometer (aí no sentido arcaico e atual da palavra 'cometer') outros atos pecaminosos e chamado para se apresentar no próximo mês.

Bonito, né?

Obs. 1: "Polução ou cumprimento era clichê inquisitorial e eclesiástico que significava ejaculação ou orgasmo sexual. Para as mulheres usava-se muito o termo deleitação". Daí, vai um cumprimento aí?

Obs. 2: Confissões da Bahia não aborda só esse tipo de sacanagem, não. Existem muitas outras. ;]

Obs. 3: O material é ótimo. Fora essa leitura superficial, os costumes, as culturas e a própria língua são aspectos claramente bem expostos na obra e fazem dela uma puta leitura.

*publicado no Pepino em Conversa


Lucas Reis Gonçalves

Lucas Reis Gonçalves é poeta e articulador cultural. Novo-hamburguense morador da capital gaúcha, foi finalista do Prêmio AGEs de Literatura com o seu primeiro livro, Se soubesse o que dizer, diria em prosa (Paco Editorial, 2011), e, através dele, criou, juntamente com o músico Dado Vargas, um novo projeto de declamação poética: Eletropoeteria. Lucas nasceu em 1990 e atualmente escreve para sites de literatura (públicos e independentes)..
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