não vale o sopro

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A preguiça da composição

em crônica por em 04 de jul de 2012 às 09:09

Sobre a preguiça e a comodidade tecnológica.

12843808-sketchy-doodle-web--computer-icon-set--back-to-school-style-notebook-doodles-vector-illustration-des.jpgCarrego comigo uma máquina fotográfica. Uma câmera digital simples, resolução mais-que-razoável de seis megapixels, lente Zeiss intacta, zoom óptico de até doze vezes e bastante leve. Dentro de uma pequena bolsa verde já gasta pelo mau uso e pendurada no meu segundo ombro, o objeto faz de mim um esboço do tipo fotógrafo profissional. Um esboço. Do outro - e por outro - lado, num dos bolsos da minha calça, um telefone celular multifuncional, com suas treze diferentes funcionalidades em um só aparelho, vibra a me chamar a atenção. Ainda funciona, penso eu. E funciona. Ele vibra, toca, fala, ouve, canta, filma, fotografa. Conta piada, termina namoro, pede demissão, chora. Ri. Ri alto e em bom som. Ri sempre em bom som esse celular. Sempre alto. Sempre.

Entro em casa. Esqueço, por bobagem ou por mania mesmo, a câmera sobre um dos dois sofás da sala e vou escrever no pé da janela do quarto. Muita luz. Fecho metade da janela. (Sim, esse novo quarto me dá o luxo de escolher a intensidade da incidência de luz - em lux - no meu ex-humilde habitat). O papel sobre a escrivaninha fica agora escrevível. Boa luz, considero. Ótima luz. Mas péssima de dentro. Péssima luz de mim. Melhor: nenhuma. Nada a escrever. Nada escrevível. Nada. Olho pra metade clara da janela. Branca. Menos branca. Nítida já. A fraca imagem do que se vê ali fora me atravessa os olhos. Sou obrigado a focar. Ela pede, suplica atenção. Eu dou, me entrego. No bolso direito, o celular implora funcionamento. Eu cedo. Sem hesitar, eu cedo. Nem ligo pro outro equipamento que, no sofá, sofre a ingenuidade de não saber do acontecido. De celular na mão, enquadro o momento. Perfeito. Perfeito enquadramento. Nem mexer, mexi. Foto concebida. Trabalho executado. Essa porcaria funciona. Funciona. Essa vai pro face. Essa vai pro face, repito comigo. Essa vai pro face.

Na sala, nem pio.

 

Artigo da autoria de Lucas Reis Gonçalves.
Lucas Reis Gonçalves é poeta e articulador cultural. Novo-hamburguense morador da capital gaúcha, foi finalista do Prêmio AGEs de Literatura com o seu primeiro livro, Se soubesse o que dizer, diria em prosa (Paco Editorial, 2011), e, através dele, criou, juntamente com o músico Dado Vargas, um novo projeto de declamação poética: Eletropoeteria. Lucas nasceu em 1990 e atualmente escreve para sites de literatura (públicos e independentes)..
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