não vale o sopro

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obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

A rumorologia venezuelana

Direto de Caracas, brasileiro conta sobre como anda o clima venezuelano depois da morte de Chávez.


hugo_chavez_morto_luto.jpgAqui a coisa funciona por rumores. E quando digo "coisa", digo tudo - a cidade toda, o país todo. Há alguns dias, quando disseram (e sempre dizem que dizem) que a gasolina seria retida; ou quando disseram que haveria mais um saque geral no centro de Caracas, o mundo parou. Pessoas desistiam de ir para o trabalho, escolas deixavam de funcionar e lojas, mercados, farmácias fechavam consideravelmente mais cedo. E tudo por rumores. Rumores que caem de boca em boca e acabam, em minutos, ganhando uma cidade inteira. Rumores esses inflamados por pessoas que creem piamente saber da verdade, de tudo. Aqui é assim: todos sempre sabem de alguma coisa. Todos sempre assumem alguma posição sobre tudo. Tanto é verdade que temos lugares posicionados. Por exemplo, o bairro onde é localizada a embaixada norte-americana é (ou era) antichavista. Os jornais, a televisão, a padaria e o shopping ou são chavistas, ou antichavistas. Tudo assim. E esses todos que sempre sabem de tudo e assumem claramente um posição sobre esse tudo pintam a cara dupla e gritante da Venezuela. E não para por aí. Pairava, era claro, sobre o ar venezuelano, uma espécie de estado de alerta - uma tensão coletiva diretamente ligada à situação do seu governante. Cada faísca era uma explosão. Cada rumor era uma verdade. Enquanto uns, radicais opositores, brigavam (e xingavam e brigavam) pelo esclarecimento dos fatos presidenciais, outros, religiosos fanáticos, esperavam novas (e boas) informações acerca do seu - quase santo - comandante. Famílias aqui choram por ele, brigam por ele e se separam por ele. Aqui uma conversa com mais de dez minutos dificilmente escapa da política. E com a morte de Chávez então, não há minuto que sobre para outra coisa. Na verdade, com a morte de Chávez, não há outra coisa.

Shoppings estão sendo fechados mais cedo, brigas estão acontecendo em plena rua, movimentações estranhas e novos rumores estão surgindo. O mundo venezuelano mais uma vez está construindo o seu destino de boca à boca e de grito em grito. Na terça-feira, quando foi divulgada a morte do (ex-)presidente, a cidade se encheu de buzinas e de gritos de luto ou comemoração. Alunos da classe do lugar onde ministro aulas, por exemplo, pediram à minha colega professora um tempo para exercerem seu “papel de cidadão venezuelano” e se abraçarem pelo acontecido.

A orientação geral para a população é permanecer em suas casas durante os três dias de luto declarados pelo governo. Pelo visto, o homem morreu, mas a tensão sobre o que ele representa e tudo que acontece em torno da sua figura estão longe de acabar.


Lucas Reis Gonçalves

Lucas Reis Gonçalves é poeta e articulador cultural. Novo-hamburguense morador da capital gaúcha, foi finalista do Prêmio AGEs de Literatura com o seu primeiro livro, Se soubesse o que dizer, diria em prosa (Paco Editorial, 2011), e, através dele, criou, juntamente com o músico Dado Vargas, um novo projeto de declamação poética: Eletropoeteria. Lucas nasceu em 1990 e atualmente escreve para sites de literatura (públicos e independentes)..
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