não vale o sopro

Não há nota de rodapé que note.

obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

Pai, a Venezuela

Uma carta de brasileiro filho pra brasileiro pai.


teste.jpgAcontece que vim pra cá, pai. Assim – depois de pensar cinco vezes mais que as clássicas três. E continuo pensando. Esse lugar parece que foi feito pra isso, pra se pensar. Não sei. Acontece que vim pra cá e ainda penso muito. Não sobre mim, sobre o que escrevo ou deixo de escrever, nem sobre ti. Eu sei, desculpa, pai, mas não penso muito em ti. Eu e o mundo venezuelano temos mais no que pensar. Bem mais. Por isso, já meio caraquenho, acompanho a vontade vermelha e fanática de pensar e falar do que move o moinho por aqui - a política. Às vezes, vou te confessar, não penso. Só falo. É o costume aqui. Soube de um jovem que foi morto a tiros por falar da mãe do político do santinho de alguém. O jovem pensou no que falou segundos antes de levar o tiro; o cara do santinho foi pensar só depois de atirar. Irônico. Mas fica tranquilo, pai. Ainda não atirei em ninguém e, muito menos, levei um tiro. Sou precavido. Guardo tudo pra te escrever. Assim, por aqui, ninguém tem santinho nenhum. Pelo menos não desse tipo.

Aqui a gente vive (e morre) pela emoção, pai. Só por isso. Tudo pela emoção. Mas, vê só, essa emoção venezuelana não me soou estranha. Pelo contrário – muito familiar. Foi essa emoção que me fez lembrar de um velho professor aí do Brasil. Ê, saudade! Uma vez esse mesmo professor, que tem o mundo e meio na cabeça, me falou sobre uma teoria de um historiador famoso, pai do Chico, sabe? Pois é, esse cara falava sobre um homem cordial, um homem brasileiro. Um homem que age pelo coração, pela emoção – por isso o tal de “cordial” (cor, cordis, coração). Não vê? Se o brasileiro, conforme o pai do Chico fala, é o homem da emoção, do coração, da informalidade, da generosidade - o que é o venezuelano? Homem passional? Até o jeitinho, que o brasileiro leigo adora falar que é brasileiro, é muito mais jeitinho aqui do que aí! Até isso, pai. Até o tão falado jeitinho nem brasileiro é!

Quando anunciam a morte do presidente, o povo chora. Quando anunciam a morte do presidente, o povo ri - comemora. Quando anunciam a morte do presidente, o povo sai a xingar o espelho e, quando vê que não é o outro, volta pra casa, se esconde debaixo da cama e espera a chuva passar. E a chuva não passa. E os mesmos que antes eram mesmos agora são outros e passam a defender uma nova causa – só por ser nova. Aí tem mais choro; mais riso. E assim continuam, descontinuam, e continuam de novo. Todos falando, vivendo (e morrendo) a política. Enquanto eu, pensando sempre em pensar antes de tudo que falo e faço, penso só em conseguir te escrever na semana que vem bem.

Um abraço. Lucas


Lucas Reis Gonçalves

Lucas Reis Gonçalves é poeta e articulador cultural. Novo-hamburguense morador da capital gaúcha, foi finalista do Prêmio AGEs de Literatura com o seu primeiro livro, Se soubesse o que dizer, diria em prosa (Paco Editorial, 2011), e, através dele, criou, juntamente com o músico Dado Vargas, um novo projeto de declamação poética: Eletropoeteria. Lucas nasceu em 1990 e atualmente escreve para sites de literatura (públicos e independentes)..
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