não vale o sopro

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obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

Chávez por siempre, Maduro presidente

A campanha eleitoral e o povo venezuelano num mundo pré-eleições.


teste.jpgSaí do metrô achando que a páscoa era hoje. As escadas que davam pra rua, compridas que só, terminavam em uma tenda vermelha cheia de coisas e cores (de outros vermelhos mais vermelhos que outros). E sob ela algumas pessoas, também vermelhas, dançavam uma música que só não era vermelha por teimosa que era. Mas não só dançavam. Cantavam. Gritavam. Viravam a cabeça de qualquer um passante que possuísse olhos e ouvidos relativamente sãos. Eu disse “relativamente” sãos. E foi aí que me perdi de novo. E de novo tive que desenhar todo o caminho de casa na cabeça. Mas o caminho não vinha. Não vinha. Não vinha de jeito nenhum. Era aquele carnaval, eu pensava, era aquele carnaval vermelho que me seduzia. Toda aquela coleção de faixas e frases em estêncil, com bigodes e sobrancelhas sérias pintadas em diferentes tons de vermelho, toda essa produção, todos esses adornos – tudo isso malvadamente seduzia quem passava por ali.

“Chávez vive, La lucha sigue!”, “Chávez no murió, se multiplicó!”, “Chávez por siempre, Maduro Presidente!”, “Con Chávez e Maduro, el pueblo está seguro!” brindavam, ali naquela tendinha, a mais nova campanha do atual vice-presidente venezuelano. E ali dividiam o espaço com mais três, quatro pessoas que, como eu disse, dançavam, cantavam e – com gosto – entregavam panfletos mais vermelhos que todo o resto. E faziam isso com gosto, muito gosto. Dúzias de pessoas atravessavam o espaço. Compartilhavam gritos. Dançavam e cantavam a mesma música que havia horas vinha tocando ininterruptamente. E gente, muita gente repetia o canto, repetia a dança – muita gente só repetia o que muita gente repetia. E assim seguia.

Quando me dei por conta, já tava batendo o pezinho e segurando uma folha vermelha cheia de frases brancas e exclamativas. Todas elas brancas no vermelho – todas elas exclamativas. E eram tão fáceis de ler! Mesmo pra mim - pobre leitor do espanhol – eram tão fáceis de ler! E, além de fáceis, eram estranhamente agradáveis. Quero dizer, enquanto me surravam o ouvido, me acariciavam o peito. Surgiam de supetão, sem aviso nenhum, pra pousar leve na vontade comum de qualquer indivíduo. Inclusive eu.

Mas depois de cego, surdo e mudo, larguei do vermelho e fui pra casa. Consegui ir pra casa. Entrei no pátio, mimei os cachorros, fechei a porta atrás de mim e tranquei o mundo ali fora. Quando voltei à esquina para comprar três canillas e um queijo pro café, vi que não tinha mais nada lá. Era noite. E noite, dizem os venezuelanos, nem bandido anda na rua por medo de ser roubado. Isso é fato, todos sabem. Na noite, nem bandido.


Lucas Reis Gonçalves

Lucas Reis Gonçalves é poeta e articulador cultural. Novo-hamburguense morador da capital gaúcha, foi finalista do Prêmio AGEs de Literatura com o seu primeiro livro, Se soubesse o que dizer, diria em prosa (Paco Editorial, 2011), e, através dele, criou, juntamente com o músico Dado Vargas, um novo projeto de declamação poética: Eletropoeteria. Lucas nasceu em 1990 e atualmente escreve para sites de literatura (públicos e independentes)..
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