não vale o sopro

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There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

Venezuela: do lado de dentro da panela

Carta de brasileiro do dia 18 de abril conta como é estar no meio dos protestos e conflitos políticos do país venezuelano.


cace2.jpgA coisa tá preta por aqui - mas podia tá pior.

Hoje é quinta e é o quarto dia que, exatamente às oito horas da noite, o mundo venezuelano se ouve em panelaços. Agora mesmo vi cinco vizinhos saírem pra rua bater frigideira e guerrear contra outros cinco, seis que batem mais forte do prédio do outro lado da rua. Tá vendo? Uma guerra! E não é pouca coisa. Vim caminhando ontem à noite pra casa e me vi dentro de uma panela de pressão atacada, massacrada, destruída por uma cidade inteira, quiçá um país inteiro - só que pela metade. E essa panela, que transborda há anos e agora ainda mais há dias, já não consegue parar em pé sozinha. Governos de países de lá, governos de países de cá; mídia de lá e de cá; gente de cá e de lá - todos que descansam de fora dessa panela parecem dispostos (e sábios o suficiente) para falar da água que lhes cabe, a que transborda. E somente pelo que transborda, pelo pouco que lhes aparece, eles acham que podem controlar o fogo, segurar a panela. Mas não dá. Sinceramente, não dá.

Isso aqui precisa explodir - espero que não literalmente. Mas precisa. O venezuelano (ou parte dele) carrega uma bola na garganta, pronta pra ser cuspida. Alguns, nesses últimos dias, têm tentado engolir. Outros nem tentam. Alunos meus faltaram as últimas aulas e mandaram e-mails dizendo que "estou deprimido, professor, não tenho cabeça para o português. Logo passa.". E daí? Sou eu quem vai exigir que venham à minha aula enquanto queimam as suas bundas com discursos mal e porcamente discursados? Quem sou eu aqui nessa panela? Uma ervilha verde-amarela? Que nada! Que não venham! Que chorem, que gritem, que batam panela, que protestem no facebook, que façam o que der na telha! É o que eu estaria fazendo agora. E tô - um pouco.

Sei que abusei da exclamação, mas, convenhamos, quem não fica exclamativo enquanto escreve sob paneladas e gritos de protesto e "fraude!" não é gente. Com isso, eu quero dizer que sou gente. E, como toda gente, eu sinto muita falta da minha.

Um beijo gordo e bem forte de dentro da panela. Lucas


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