não vale o sopro

Não há nota de rodapé que note.

obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

Ela e a Geladeira

Como você, mulher, age durante a noite.


tese.jpgVai acontecer de madrugada. Tu vai levantar meio zonza da cama, esfregar os olhos com as mãos fechadas e juntar tuas pantufas que tão jogadas uma lá e outra cá do quarto - uma ginástica fenomenal pra ir até a cozinha e abrir a geladeira. Tu já sabe o que tem lá, mas vai mesmo assim, mergulhada na esperança de que alguma coisa surpreendentemente se criou lá dentro, sozinha. E sozinha, pé por pé, tu vai até a cozinha. Ali tu vai acender a luz, ver como tá a tua roupa, esfregar mais uma vez os olhos e procurar a geladeira. Esse vai ser o clímax do momento - a tua esperança vai virar desespero e, com medo de que não tenha nada além de água lá dentro, tu vai abrir devagarinho a porta. E devagarinho o desespero vai virando uma depressão pré-aquilo-que-vai-vir e, mesmo assim, louca de sede, de fome ou de qualquer outra ansiedade capaz de abrir uma geladeira, tu vai abrir e te deparar com o nada. Nada - geladeira totalmente vazia. No fundo da última prateleira, vai ter uma garrafa. "É de água", tu vai pensar. Tua vontade virou sede e tu vai querer aquela garrafa. Quando pegar, vai ver que o que tem de água ali dentro não forra nem o fundo de um copo. Tu, assim como a última pessoa que abriu a geladeira, não vai querer encher a garrafa. Vai colocar ela no mesmo lugar. Vai fechar a geladeira, ver como tá a tua roupa de novo, esfregar com mais força (e raiva) os olhos e apagar a luz da cozinha. Lá fora, no corredor, tu vai parar. Vai olhar pros teus pés (ou o que tu acha que são teus pés) e vai quase chorar. Quase. Mas aí tu vai decidir que "foi melhor assim - daí não engordo" e vai voltar pra cama. Já na cama, com as pantufas lá e cá no quarto, tu vai resolver pegar o celular e ler as últimas mensagens que te passei. Tu não vai enxergar direito, vai tá sem os óculos. Não vai valer a pena esfregar os olhos mais uma vez - não pra isso. Então tu vai resolver deixar de lado o celular - me deixar de lado - e virar pra dormir. Mas, curiosa como tu é, tu vai ficar tentando lembrar quais foram essas últimas mensagens que a gente trocou. E, mais-do-que-surpreendentemente, como quem ganhasse no jogo do bicho (porque é ilegal, mas é legal), tu vai pular da cama e falar em voz alta a tua lembrança da última mensagem que te escrevi:

- Te deixei um presente dentro da mochila. É de comer.

Tu vai morrer comendo Ferrero Rocher.


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