não vale o sopro

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obvious magazine

There are those that look at things the way they are, and ask why? I dream of things that never were, and ask why not?

bem-vindo à Venezuela, meu amor

Sobre os afagos e os bons modos dos anfitriões.


DSC00951_2_1.JPGJá se sabe: caí quase que sem querer nos braços da capital venezuelana, e aí fiquei. Quanto mais braços me abriam, mais abraços eu esperava – e ainda espero. De braços abertos. E sempre foi assim. Lembro bem. Cheguei mergulhado numa chuva calorosa de bem-te-queros, com milhões de convites pra isso, e outros milhões de convites praquilo e mais outros milhões e milhões de convites suficientes pra criar um gênero alternativo de calendário, e só de convites. Nessa euforia do recém-chegado; nessa vontade do desconhecido; nessa dança salseada do bem-querer, os venezuelanos fizeram uma das coisas que mais sabem fazer: agir como um verdadeiro e emocionado anfitrião. E, agindo assim, estenderam um bem aveludado tapete vermelho, massagearam as minhas costas sussurrando expressões típicas de “você está tenso, meu amor, deve ser da viagem”. E logo perguntaram qual cerveja eu preferia, aí eu, fazido que só, disse que de nenhuma tinha provado, mas que era curioso, porque, né, todos nascemos curiosos. Aí foi fácil. Começamos pela primeira cerveja. Daí pra amizade foram poucos goles. Na segunda, já rolava amor – e agora eu amava os venezuelanos. Agora eu já podia me dizer venezuelano, já me sentia venezuelano. E, como venezuelano, passei a atravessar a rua pelo meio dos carros, a descer malabaristicamente do ônibus em movimento, a ser mais feliz (e mais triste) com o passar do tempo. E com o tempo, percebi que era simples, muito simples parecer venezuelano. Foi aí que parei de parecer venezuelano pra realmente pensar como um. Só que, pensando como venezuelano, comecei a não querer mais daquelas cervejas, passei a procurar outras - e todas me satisfizeram durante um tempo. Enjoado, já não bebia mais. E sem a bebida, o amor me deixou. Já não amava mais. Daí pra simples amizade foi preciso uma, e apenas uma, noite de boca seca, não mais. Agora já não amo e não bebo. Agora nem venezuelano nem brasileiro eu sou. De boca seca e coração vazio, sou aquilo que tenta fazer a única coisa que parece preencher: nada. Tão só e absolutamente, nada.


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