nas palhas do coqueiro

Cultura, variedades, brasileirismos e uma pitada de sangue nordestino.

João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB.

A Quebra de Xangô

Em 1º de fevereiro de 1912 Maceió viveu um fato marcado pelo preconceito e pela intolerância religiosa: conhecido como A Quebra de Xangô, o episódio se constituiu na perseguição e destruição dos terreiros onde eram realizados os rituais religiosos de matriz africana. O quebra-quebra foi praticado pelos integrantes da Liga dos Republicanos Combatentes, grupo destinado à agitação popular contra o Governo do Estado de Alagoas na época, que por sua vez era ligado às religiões de matriz africana.


xangoAL.jpg Foto: Jamylle Bezerra/Agência Alagoas

Muitos historiadores e estudiosos costumam chamá-la de Quebra de 1912. Fato histórico, a Quebra de Xangô consistiu na destruição de todas as casas de culto afro-brasileiro existentes na capital alagoana. As referências historiográficas sobre o fato estão nos artigos publicados na sessão Bruxaria, de Oséas Rosas, no já extinto Jornal de Alagoas. Terreiros foram invadidos e objetos sagrados foram retirados e queimados em praça pública; pais e mães de santo foram espancados publicamente.

Na época a capital era considerada papel preponderante da Igreja católica na formação do território alagoano, não se sabe ao certo o número de terreiros destruídos, pessoas assassinadas ou os responsáveis pelo fato. O movimento foi insuflado uma milícia armada denominada Liga dos Republicanos Combatentes, esta, vinculada ao partido opositor Republicano Democrata. Este partido, por si, era uma entidade que cometia atos ilegais, como invasão a casas oficiais, tiroteios e intimidações.

Apesar de iniciado em Maceió, o movimento se estendeu pelo interior de Alagoas. Naquele dia, babalorixás e yalorixás tiveram seus terreiros invadidos pela milícia , seguidos por uma multidão enfurecida, e assistiram à retirada à força de seus paramentos e objetos de culto sagrados do interior dos templos, que foram expostos e queimados em praça pública.

O acontecimento culminou com a invasão e destruição dos principais terreiros de Xangô da capital do estado. Populares aliados da Liga dos Republicanos Combatentes, essas pessoas eram constituídas por uma maioria de operários, liderados pelo tenente reformado do exército, veterano da guerra de Canudos, Manoel Luiz da Paz. Os combatentes da Liga, nesse contexto, não deviam obediência a nenhuma autoridade e caíram com fúria sobre os povos de terreiro.

Esse evento que intimidou o povo de santo e suas práticas nas décadas subsequentes proporcionou o surgimento de uma manifestação religiosa intimidada, denominada Xangô Rezado Baixo, uma modalidade de culto praticada em segredo, alimentada pelo medo, sem o uso de atabaques, e animada apenas por palmas. Essa violenta ação contra o povo de santo tem repercussões contemporâneas e pode ser apontada como uma das fortes causas da invisibilidade de uma prática religiosa que é extremamente expressiva na capital e no interior de Alagoas, com pesquisas de estudiosos sobre o tema que apontam para a existência de cerca de 2 mil terreiros em todo o Estado.

Em 2012, cem anos após o massacre , o governador do Estado Teotonio Vilela Filho assinou um pedido de perdão oficial do Governo de Alagoas a todas as comunidades de terreiros de Alagoas, pelas atrocidades que marcaram o dia 1º de fevereiro de 1912. A assinatura foi feita no final dum cortejo popular, que passou por diversos locais a destacar a Praça D. Pedro II, Rua do Sol até a Praça dos Martírios, trecho este considerado importante ponto de confluência de terreiros de Maceió.

A partir do Centenário iniciou-se um festival de afirmação dos cultos afrobrasileiros denominado Xangô Rezado Alto, que recupera esse passado e reivindica à população alagoana e aos poderes públicos constituídos, atenção e compromisso para com as causa das populações afrodescendentes já não se intimidam frente às injustiças históricas praticadas no passado e que marginalizaram a população afrodescendente. Por isso Xangô Rezado Alto, num sinal de contraposição à prática que perdurou por um século e, para que nunca mais em Alagoas as religiões de matriz africana se sintam intimidadas ou envergonhadas de professar sua religião que é um grande e reconhecido contributo para a formação da cultura alagoana.


João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB..
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