nas palhas do coqueiro

Cultura, variedades, brasileirismos e uma pitada de sangue nordestino.

João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB.

Bonfim e Oxalá – A Festa

Realizada sem interrupção desde o ano de 1745, a Festa do Senhor do Bonfim, que atrai para a capital baiana o segundo maior número de participantes- só perde para o Carnaval, articula duas matrizes religiosas distintas – a católica e a afro-brasileira – assim como envolve diversas expressões da cultura e da vida social soteropolitana. Mais que uma grande manifestação religiosa da Bahia, a celebração é uma referência cultural importante na afirmação da cultura baiana, além de representar um momento significativo de visibilidade para os diversos grupos sociais que originaram a curiosa tradição.


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Embora se recrie a cada ano, os elementos básicos e estruturantes da Festa do Senhor do Bonfim permaneceram os mesmos, ou seja, a Novena, o Cortejo, a Lavagem, os Ternos de Reis e a Missa Solene. A celebração, que integra o calendário litúrgico e o ciclo de Festas de Largo da cidade de Salvador, acontece durante onze dias do mês de janeiro, iniciando-se um dia após o Dia dos Santos Reis, e encerrando-se no segundo domingo depois da Epifania, no Dia do Senhor do Bonfim.

Um dos pontos altos da festa, e que a individualiza no conjunto das Festas de Santo e Festas de Largo da cidade de Salvador, é a Lavagem do Bonfim, que se segue ao Cortejo, realizada por baianas e filhas de santo e acompanhada por um enorme contingente de moradores, turistas e de devotos do Senhor do Bonfim. Nesse momento encaramos a maior simbologia do cruzamento dessas duas religiões: Se por um lado o Senhor do Bonfim representa o viés cristão, seu correlato na matriz africana é Oxalá. Como isso se deu historicamente?

A lavagem da Igreja teve início em 1773, quando os integrantes de uma certa "irmandade dos devotos leigos" obrigou os escravos a lavarem a Igreja como parte dos preparativos para a festa do Senhor do Bonfim. Com o tempo, adeptos do candomblé passaram a identificar o Senhor do Bonfim como correspondente do orixá Oxalá. Percebendo a camuflagem, a Arquidiocese de Salvador, então, proibiu a lavagem na parte interna do templo e transferiu o ritual para as escadarias e o adro.

Durante a tradicional lavagem as portas da Igreja permanecem fechadas e as baianas despejam água nos degraus e no adro, ao som de toques e cânticos africanos. Por isso as Filhas de Santo lavam a escadaria do tempo católico, simbolizando o sincretismo religioso do povo baiano e resgatando historicamente a formação de seu sociedade.

Os rituais e celebrações da Festa se espalham por toda a capital baiana, tendo seu início no cortejo que sai da Igreja da Conceição da Praia, no bairro do Comércio, e seu ápice na Basílica Santuário Senhor Bom Jesus do Bonfim, situada na Colina Sagrada, cenário onde é realizada a lavagem das suas escadarias. Esta igreja, construída para abrigar a imagem do Senhor do Bonfim que foi trazida de Portugal no século XVIII, é um monumento tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - o Iphan, desde 1938, registrado no Livro de Belas Artes. Como Festa de Largo, incorpora práticas religiosas do catolicismo e do Candomblé, associando o culto dos orixás ao culto católico tradicional.

Neste ano de 2014 a Festa do Senhor do Bonfim recebe o título de patrimônio cultural imaterial brasileiro, com reconhecimento em consonância da Fundação Palmares e do Iphan, consolidando a festa como referência cultural da Bahia.


João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB..
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