nas palhas do coqueiro

Cultura, variedades, brasileirismos e uma pitada de sangue nordestino.

João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB.

Folia de Reis : Da estratégia de aculturação ao folclore brasileiro

De onde veio e onde ela existe? Onde ainda ocorre essa antiga manifestação cultural, trazida por religiosos portugueses e espanhóis e hoje impregnada na cultura popular brasileira? Saiba um pouco mais sobre a Folia de Reis, festa sagrada e profana que dá sequência às comemorações do nascimento do messias católico.


Natal-pela-Paz_Folia-de-Reis.jpg Foto: JC Curtis

Pra quem acha que as festas de fim de ano se findam como a utilidade do calendário passado, que, pendurado na parede, apenas ocupa espaço, se enganam. A Folia de Reis marca o início do ano com festividades espalhadas pelas cidades interioranas do Brasil, fechando o ciclo natalino e fazendo a cristandade retirar os presépios e árvores de natal da sala.

De origem ibérica, a Folia de Reis nasceu no século XVI, fazendo uma alusão à chegada dos Reis Magos à manjedoura que, segundo a Bíblia, teria sido o primeiro berço de Jesus Cristo. A alegoria se estendeu por todo o período entre o natal e o dia 6 de janeiro, marcado como o dia de Reis. Segundo Igreja Católica, essa teria sido a data que Melchior, Baltazar e Gaspar encontraram o menino e o período representa a peregrinação dos Reis para presentear o recém nascido em Belém.

No Brasil essa tradição chegou com os colonizadores, que se utilizaram da metodologia da festividade para realizar a catequização de indígenas. Era comum em Portugal e Espanha a doação e troca de presentes enquanto cantadores e dançarinos adentravam as residências, e esse ritual serviu aos jesuítas como um artifício para aproximar-se dos ameríndios.

Dando sequência ao processo de aculturação e subjugação de outras etnias, o método ainda foi estendido aos escravos africanos, na tentativa de extinguir os costumes ritualísticos trazidos do continente em que nasceram, transmitindo uma falsa ideia de filantropia e companheirismo aos cativos em terras sul americanas, confinados nas senzalas para receber a palavra de Deus.

Toda a festa mistura o sagrado e o profano, com muita singularidade. As canções entoadas são sempre de fundo religioso, mas a acolhida numa casa que receba a Folia é envolvida sempre por uma festa, regada a farta comida e bebida. Com versos improvisados de agradecimento pela acolhida, um grupo de brincantes, geralmente ligados a alguma paróquia, repetem os versos acompanhados pelos seus instrumentos enfeitados por fitas coloridas, que significam a presença de Maria e o Espírito Santo, segundo a tradição católica.

Na casa que recebe os foliões tem o festeiro, que é o responsável pela preparação da festa da chegada da bandeira, símbolo da folia. Ao sair os foliões então cantam a canção de despedida e agradecem os donativos e partem para outra casa que os receberão. Todo bando é composto por três reis magos, palhaços, mestre, bandeireiro e os músicos, chamados também de coro.

Nos séculos seguintes foi incorporada ao folclore brasileiro e se interiorizou nos séculos XIX e XX. Desde 1950 acontece anualmente em Muqui, no Espírito Santo, o maior encontro nacional de Folia de Reis, reunindo dezenas de grupos de diversos estados brasileiros. No interior do Nordeste e Sudeste a cultura ainda permanece viva, propagada pelos cantos e toadas dos brincantes e folcloristas. Ainda é conhecida pelo nome de Terno de Reis ou Reisado em algumas localidades. No Rio de Janeiro, para termos uma ideia, as comemorações se estendem até o dia de São Sebastião, 20 de janeiro.


João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB..
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