nas palhas do coqueiro

Cultura, variedades, brasileirismos e uma pitada de sangue nordestino.

João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB.

Mãe Biu e a Nação Xambá

Quem é Mãe Biu do Portão do Gelo? Conheça um pouco sobre uma das figuras mais importantes das religiões afro no Brasil, além da história de uma das Nações mais antigas em atividade no Nordeste brasileiro.


mae_biu3.jpg Mãe Biu. Foto: Acervo Nação Xambá

Severina Paraíso da Silva, filha de Ogun, nasceu em 1914, filha consanguínea de José Francelino do Paraíso, casado com Maria do Carmo Paraíso, que fora sua madrasta. Foi iniciada por Artur Rosendo e Maria Oyá, nos ritos da nação Xambá em 1934.

Mãe Biu do Portão do Gelo, como ficou por todos conhecida, tinha personalidade forte e cativante, era respeitada e reconhecida como uma grande Iyalorixá, uma verdadeira Mãe de Santo, querida e inesquecível. É, sem dúvida, a personalidade mais marcante da Nação Xambá.

O Culto Xambá foi trazido de Alagoas para Pernambuco pelo Babalorixá Artur Rosendo Pereira, por volta de 1932. Durante o episódio conhecido como a Quebra de Xangô (leia mais sobre em http://bit.ly/1kGF3nv ) os membros desse terreiro fugiram para Recife e lá fundam o Terreiro São João.

Mãe Biu e seus companheiros foram testemunhas de uma época em que a repressão política e policial obrigava o fechamento dos terreiros. Esse foi um pesadelo vivido por ela e o povo de terreiro em 1938.

Entretanto o culto do Xambá não chegou ao Brasil pelas mãos de Artur Rosendo: ele apenas levou o culto para Pernambuco no período da repressão aos terreiros em Maceió. Esse culto precede a história das religiões afro no Brasil, mas essa é outra conversa: diversos autores apontam o povo Xambá ou Tchambá, como povos que habitavam a região ao norte dos Ashanti e limites da Nigéria com Camarões, nos montes Adamaua, vale do rio Benué. Existem várias famílias com esse nome, nos Camarões, tendo inclusive participado nas lutas pela independência daquele país.

Voltando ao tema em terras brasileiras, por conta dessa intolerância religiosa o culto aos orixás era feito com portas fechadas. Um ano depois, a mãe de santo reabriu seu terreiro no Recife e, em 1951, mudou-se para o endereço onde está até hoje.

Artur Rosendo é citado também por sua morte ser o marco da mudança física do terreiro e da ascensão de Mãe Biu. Após seu falecimento o terreiro muda-se de Recife para Olinda, buscando uma locação própria e que satisfizesse a maioria dos integrantes; e Mãe Biu surge como líder religiosa e figura política entre os povos de terreiro.

Controversa, durante sua liderança alguns grupos se descontentaram e se afastaram do terreiro. Entretanto suas atitudes contribuíram para o fortalecimento e a reorganização dos povos de terreiro após vários anos de intolerância e perseguição religiosa. Mãe Biu faleceu em 1993, deixando como legado a reconstrução da identidade das religiões afrobrasileiras em Pernambuco.

A relação entre Severina Paraíso da Silva e a Nação Xambá é tamanha que, para se ter uma ideia, existe um Museu, gerenciado pelos integrantes do terreiro, batizado com seu nome em Olinda. O Terreiro tem tamanha responsabilidade social que é um Ponto de Cultura desde 2004, garantindo subsídios e concorrendo a editais do governo federal.

mãeBiu.jpg Museu Severina Paraíso da Silva. Foto: Passarinho/Pref. de Olinda

Mãe Biu completa seu centenário de nascimento em 2014, sendo uma das personalidades homenageadas no carnaval de Recife e de Olinda. Hoje o Museu, o Ponto de Cultura e o terreiro da Nação Xambá encontram-se localizados no número 65 da Rua Severina Paraíso da Silva, antiga Albino Neves de Andrade, no bairro de São Benedito, em Olinda.


João Jales

João Jales tem 29 anos. Paraibano de João Pessoa, é redator, produtor, social media e estuda comunicação social na UFPB..
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