nati nogueira

Para que o mal prevaleça basta que os bons façam nada. Edmund Burke

Natália Nogueira

Publicitária e pós-graduanda em semiótica, amante dos animais e da arte. Não sabe se aquietar e se arrisca a desenhar, pintar e cantar. Ama dormir e doces. Seu maior sonho é mudar o mundo.

Viktoria Modesta. A extensão do corpo humano

Sobressaindo-se à irreverência de Lady Gaga, à extravagância atemporal de Madonna e até as novidades mais frescas, como Meghan Trainor, ou o goticismo de Lorde, Viktoria Modesta toca na ferida da sociedade. Somos peças construídas e remontadas conforme a conveniência. Mas quem disse que isto é uma coisa ruim?


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A cantora pop britânica se lançou no mundo da música com o single “Prototype” que fala exatamente da mecanização do indivíduo. Viktoria tem 26 anos e teve sua perna esquerda amputada logo abaixo do joelho. E em seu clipe de lançamento, somos convidados a apreciar diferentes próteses extremamente exploradas em cada cena, enquanto o som a la Bjork soa a letra mais verdadeira e contemporânea possível. É impactante!

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Note a letra da música e cada frame do clipe. Associe cada sensação e perceba que Modesta se apresenta como um ser completamente à frente do tempo em que a narrativa se passa. Isto é comprovado pelas roupas das pessoas, alguns ambientes, o desenho retratado na TV. É possível associar as vestimentas à década de 40 ou 50. As pessoas estão completamente deslumbradas pela atitude da cantora. Viktoria-Modesta-010.jpg O conceito de ruptura é claro, porém não se refere ao real. Qualquer um que é pego de surpresa com o vídeo custa a entender que, na verdade, Viktoria é uma cantora pop contemporânea, linda, bem sucedida, jovem e sem um membro do corpo. Ainda no decorrer do clipe, alguns soldados encurralam a protagonista e reforçam a responsabilidade que ela tem perante todos os que a admiram. A resposta dela é de indiferença e, ao cruzar a perna cravada de cristais, a testa do guarda reflete o ponto vermelho de alvo. Somos todos alvos do que o “novo” pode representar, no entanto, ao “excluir sua responsabilidade”, Viktoria reforça sua conduta diante do que ela representa: ela mesma. viktoriamodesta3.jpg Por que ela deveria ser julgada e responsabilizada por uma onda de seguidores? Afinal, o simples fato de a ser é tão grotesco que requer um certo trato ao se apresentar? A moça não veio a passeio. Quebra tabus e levanta questões indispensáveis à atualidade. Ao se assumir um protótipo você passa a se perguntar o que isto significa? A resposta é fácil. Segundo dezenas de milhares de dicionários é um objeto é fase de testes. Seríamos nós objetos em desenvolvimento? viktoria-modesta4.jpg Caso sua resposta tenha sido negativa, eu o convido a pensar um pouco mais. Imagine-se um dia sem o seu celular; sem conexão com a internet. Convido-o a pensar através da linha do tempo. Há algumas dezenas de anos você não se imaginava falando com pessoas do outro lado do mundo; lendo um artigo escrito por uma desconhecida por meio de um ecrã. Isto tudo é novo, não acha? Parece-lhe natural, mas é mais um meio que levará a outro e não deixa de ser um teste. viktoriamodesta5.jpg Pois bem, você, pelo menos, não tem coisas conectadas ao seu corpo. Digo que sim. McLuhan já citava os objetos indispensáveis ao ser humano como extensões do nosso corpo. Olhe seu celular de maneira diferente, seu notebook, seu tablet, o chip de identificação do seu cartão de crédito...são, nada mais que peças que o auxiliam em tarefas que você não pode realizar sem existência das mesmas.

Somos mecanizados ou não? Pense nisto.


Natália Nogueira

Publicitária e pós-graduanda em semiótica, amante dos animais e da arte. Não sabe se aquietar e se arrisca a desenhar, pintar e cantar. Ama dormir e doces. Seu maior sonho é mudar o mundo..
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