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Idéias e pontos de vista de um flâneur

Luís Otávio Hott

Escritor e flaneur-voyeur, um flanvoyeur entre o playground e o abismo.

Henry Fool, o poeta da vida sórdida


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Henry Fool é um personagem que vai além de seu filme, “As confissões de Henry Fool”, 1997, ele é um Beatnick, uma alusão à Rimbaud e Henry Miller, um gênio, um louco, mas acima de tudo, ele é comum, ordinário, possível, atrelado a uma vida sórdida e massacrante tanto quanto as nossas e é isso que o torna algo além do que uma simples personagem do cinema americano.

"Seja lá quem for Henry Fool – um vigarista, um gênio, um megalomaníaco ou um grande escritor...”

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Simon Grim (James Urbaniak) é um gari com uma vidinha medíocre que sustenta uma mãe deprimida (Maria Porter) e a irmã ninfomaníaca (Parker Posey). Sua apatia frente à sórdida realidade que o cerca transforma-o num sujeito taciturno e anestesiado, muitas vezes tido como deficiente mental pelos vizinhos e familiares.

Sua vida é alterada no dia em que um estranho misterioso chamado Henry Fool (Thomas Jay Ryan) aparece para alugar o porão da família Grim. Henry é espalhafatoso. Um fumante compulsivo, que bebe cerveja incessantemente, que tem um ego colossal e gaba-se de ser um intelectual. É também um homem com um passado obscuro, um criminoso, um ermitão e urbanoide ao mesmo tempo. Ele dedica sua vida à escrita de suas memórias, suas "Confissões", com o qual espera ser lançado ao mundo literário - isso se ele conseguir terminar seu livro.

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Henry se identifica com Simon e nasce entre os dois uma compreensão que vai além da amizade. Simon, influenciado por Henry começa a ler e escrever, e então o lixeiro se descobre poeta.

Hartley levanta interessantes questões relacionadas com a criação e a natureza do talento do artista. Henry tem cultura literária, expressa-se com fluidez - e quebra os diálogos cruzados de outros filmes, substituindo-os por monólogos - é gramaticamente perfeito e parece dominar todas as técnicas da escrita, em prosa ou verso. Simon escreve mal, tem dificuldade em fazer distinções básicas entre palavras homófonas (como "there", "their" e "they're"), mas pode ter algo dentro de si que consiga provocar fortes emoções no leitor - escreve com um instinto natural, puro. Hartley toma por desnecessários juízos exteriores (nossos ou dele) sobre as obras, as quais não são colocadas à nossa consideração, algo que nos poderia distrair da idéia central. O modo como o texto de Simon afeta quem o lê é apresentado de modo nada sério - chegando a ser difícil saber se o humor é intencional - como se de quase milagres se tratassem. Há que mostrar que o poema é forte e escatológico.

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Henry Fool é um homem comum que tenta escapar de seu destino banal, ele é um artista, um inovador, um homem que não aceita as amarras da sociedade dizendo que não se pode cercar a alma de um homem. Mas é também um ser confuso, amedrontado, que não consegue encarar de frente a realidade, que se angustia, que erra, e muito, mas que no fim se demonstra um homem de caráter, um bom canalha.

Fool é a representação do artista, da luta do artista, sua busca incessante pelo nada, a dificuldade de adaptação social, a liberdade que lhe é negada, a luta perdida que trava contra quem não o entende e nunca irá entender.

Hartley utiliza um fundo épico em Henry Fool, apontando seu olhar irônico através de uma coleção de personagens secundários que incluem um jovem em busca de emoções (Kevin Corrigan) que se converte em assessor político; uma caixa de loja vietnamita e muda (Miho Nikaido) que começa a cantar depois de ler o livro de Simon; um mercenário editor de livros (Chuck Montgomery) que enxerga dólares (senão virtude literária) nos versos de Simon, uma mãe esgotada pela depressão que se vê entregue nos braços de um estranho.

Thomas Jay Ryan (em sua estréia no cinema) é uma revelação no papel de Henry Fool, ao lado de James Urbaniak, que realiza uma impressionante atuação no papel do calado Simon.

Bom exemplo de vida inteligente no cinema americano. Filme focado no enredo, com personagens oscilando entre reais e surreais. Bons diálogos, sem clichês e com cenas bem interessantes. Trama que expõe a fratura entre arte, vida de artista e vida moderna. A boçalidade dos críticos profissionais, o livro, a poesia e o novo milênio. Destaco a cena do pedido de casamento, uma espécie de Buñuel atualizado com uma pitada de humor ianque.

Sobre o diretor: "Hal Hartley formou-se em Cinema pela Universidade de Nova York (NYU) em 1984. Dirigiu o curta-metragem "Dogs", em 1988, antes de estrear na direção de longa com "Uma Relação muito Perigosa" (1989).

Seu trabalho seguinte foi "Confiança" (1990). Os curtas "Ambition", "Surviving Desire" e "Theory of Achievement" (todos de 1991) foram exibidos na 16ª Mostra de São Paulo, numa retrospectiva de sua obra que incluiu também o longa de estréia e o posterior "Simples Desejo" (1992).

"As Confissões de Henry Fool" foi seu longa seguinte. Ele dirigiu ainda "Amateur" (1994), "Flerte" (1995), "O Livro da Vida" (1998), "Beatrice e o Monstro" (2001) e "The Girl from Monday" (2005)".


Luís Otávio Hott

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