nexus desconexos

Idéias e pontos de vista de um flâneur

Luís Otávio Hott

Escritor e flaneur-voyeur, um flanvoyeur entre o playground e o abismo.

Um Junky que almoça nu, William Burroughs


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“Almoço nu”, de William Burroughs é um livro desconcertante, uma alegoria muitas vezes incompreensível, ele cria através de sua linguagem um universo paralelo, fragmentado, complexo e enigmático, em que cada parágrafo é um romance por si só. Uma sátira impiedosa, literatura de imaginação e experimentalismo. Burroughs criou uma obra sobre a qual é impossível compreender tudo.

Mas “Almoço nu” não é um livro para ser entendido, mas sim, apreciado. Como um quadro cubista ou abstrato. Sem aviso, há mudanças de cenário, de uma espelunca urbana cheia de viciados para o coração de uma floresta tropical, e de lá para uma cidade fora de qualquer mapa, a Interzona, uma metáfora de todas as arbitrárias leis humanas e civilizações corruptas. Piratas urbanos combatem babuínos lascivos, fiscalizados por burocratas fiscalizados por criaturas de fúria refugiadas em uma dimensão impossível, doença industrial do pós guerra, agentes do governo encarregados de sugar os cérebros de crianças recém nascidas, lobotomia uterina, contrabando de lubrificantes aromatizados, tudo é possível nessa realidade metamórfica.

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Aqui vai um trecho do livro para explicar o que digo: “Possessão esquizofrênica: eu estava fora do corpo, olhando para mim mesmo e usando meus dedos de fantasma para tentar impedir os enforcamentos... Sou um fantasma e desejo o mesmo que todo fantasma – um corpo – depois de passar um longo tempo transitando pelos becos inodoros do espaço onde não existe vida, mas somente o não cheiro incolor da morte, ninguém é capaz de respirar o farejar a morte por baixo das róseas espirais de cartilagem entremeadas com cristais de ranho, esterco corporal e filtros sangrenegros de carne humana.”

Burroughs, apesar de ser mais velho, fez parte da geração Beat, um grupo de escritores revolucionário que surgiu nos Estados Unidos na década de 50. Junto com Allen Ginsberg e Jack Kerouac ele lutou por uma nova literatura, pela liberdade de expressão e contra o moralismo capitalista. Nascido em St. Louis, formado em antropologia e psicologia na universidade de Havard, Burroughs vagou pela Europa em sua juventude, (sustentado pela abastada família), casou-se e teve filhos, e até mesmo chegou a acidentalmente matar a esposa numa fatalidade enquanto realizavam seu número à la Guilherme Tel, onde ele atirava num copo em cima da cabeça dela, tudo isso antes de encontrar sua verdadeira paixão, os narcóticos, e só então Burroughs se torna William Lee, alterego do autor também usuário de narcóticos e de sexualidade duvidosa. Burroughs começou a escrever tardiamente, iniciando sua produção com Junky, um relato cru da sua experiência com drogas, o que se segue é o fabuloso “Almoço nu”, ou “Naked Lunch”, titulo criado por Kerouac ao ler errado o primeiro manuscrito onde havia o titulo “Naked Lust”, livros tão diferentes mas ao mesmo tempo complementares.

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Escrito de forma desordenada num quarto de hotel no Marrocos por um autor auto-exilado do mundo. A melhor estratégia para ler “Almoço nu” é mesmo resistir à tentação de racionalizar a leitura, abandonado quaisquer expectativas logo na primeira página e se deixando levar pelo redemoinho de imagens e situações que são implausíveis no início, mas ás quais nos acostumamos e passamos a adorar.


Luís Otávio Hott

Escritor e flaneur-voyeur, um flanvoyeur entre o playground e o abismo..
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