nexus desconexos

Idéias e pontos de vista de um flâneur

Luís Otávio Hott

Escritor e flaneur-voyeur, um flanvoyeur entre o playground e o abismo.

SHAME - O retrato de uma sociedade em colapso emocional


Shame2.jpg

Shame inicia-se com um corpo nu. Ele vai ao banheiro, urina, depois caminha em direção à câmera, em cena de nu frontal que revela o sexo ao mesmo tempo em que esconde o rosto. A câmera nunca abandona este corpo, mesmo quando está deitado na cama, com aspecto cadavérico. Este corpo resume bem o conceito do filme: o corpo não como erótico, e sim, como matéria. O vasilhame onde o personagem principal Brandon, interpretado por Michel Fassbender, deposita sua atormentada alma humana.

shame-2011_f_001.jpg

Aliás, pode-se dizer que poucas vezes uma produção com tantas cenas de sexo foi tão pouco erótica ou excitante. O ato sexual, em Shame, é mostrado de maneira incômoda, como um martírio: o protagonista Brandon, obcecado por sexo, entrega-se às mulheres que cruzam seu caminho como um animal que caminha ao abatedouro. Engana-se quem pensa que a vida deste Don Juan é um paraíso: o rico publicitário é prisioneiro dos próprios desejos, refém do hábito e da estagnação emocional. incapaz de qualquer forma de afeto e ao mesmo tempo desejoso de afeto, de contato humano desesperadamente, ele recorre ao sexo para abafar sua solidão devastadora. Mas, quanto mais sexo ele pratica, menos de si mesmo sobra nele.

À obsessão do protagonista adiciona-se outra, paralela, do realizador. Steve McQueen, artista plástico que havia iniciado sua carreira cinematográfica com Hunger, retoma o tema do martírio corporal e repete a parceria com Fassbender. Para fazer da compulsão o seu tema, McQueen não relata nenhuma cena que não tenha conotação sexual: quando Brandon vai ao banheiro do trabalho, é sempre para se masturbar, quando uma garota o encontra, eles necessariamente transam, quando ele liga o computador, a página acessada tem invariavelmente um conteúdo pornográfico. O filme mergulha o espectador do personagem, de modo que não vemos nada além da repetição típica do mecanismo obsessivo: assim como o Brandon, a imagem só pensa, mostra e reflete o sexo.

Shame3.jpg

A entrada da irmã do personagem na história só faz complicar a vida deste conquistador compulsivo. Sissy, a irmã, interpretada magistralmente por Carey Mulligan, também tem uma dependência, e uma compulsão, mas no caso dela, o problema é de ordem afetiva. Pela natureza volátil e possessiva de Sissy, e pelo caráter sexualizado de Brandon, nenhum dos dois consegue ter uma relação amorosa estável, saudável – vide a triste cena em que Brandon não é capaz de transar com a colega de trabalho pela qual ele nutria afeto e ansiava uma relação futura, saciando-se apenas com uma prostituta.

A convivência explosiva entre Sissy e Brandon não poderia ter sido melhor retratada, cenas onde a intimidade é apenas corporal, irmãos que não se conhecem mas que não tem pudor nenhum à nudez. A tensão sexual quase invisível é algo que os acompanha durante toda a trama, gerando cenas onde o espectador mais conservador desligaria o televisor.

Os personagens de Shame estão condenados a certo comportamento, que será repetido com frequência cada vez maior, em intensidade cada vez maior. Este drama cruel e sem lágrimas prefere a sensação de incômodo. Sem sentimentalismo nem apelo ao erotismo, Shame compõe uma imagem triste e cruel do sexo, como o cinema raramente havia ousado apresentar. É a retratação do colapso emocional da sociedade ocidental moderna, todos apenas corpos vazios se esbarrando em encontros sexuais furtivos e insatisfatórios. Todos isolados e se isolando cada vez mais, a família se torna um fardo, os amigos são redes de influencia profissional, a hipocrisia é comum e o afeto é substituído pela ganância. Não existe amor, apenas a repetição mecânica, apenas o corpo, apenas a máquina.

Posters de Shame que foram censurados:

shame_poster_proibido.jpg

shame_poster_proibido_1.jpg


Luís Otávio Hott

Escritor e flaneur-voyeur, um flanvoyeur entre o playground e o abismo..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// //Luís Otávio Hott