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Idéias e pontos de vista de um flâneur

Luís Otávio Hott

Escritor e flaneur-voyeur, um flanvoyeur entre o playground e o abismo.

O sentido oculto das coisas


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O mundo que construímos é um mundo de coisas, coisas às quais nos apegamos, com as quais nos sentimos confortáveis falsamente seguros. Não há mais oportunidades, apenas esforço e trabalho sem sentido. Nosso suor em vão. O próximo estágio nessa evolução será perdermos a fala e voltarmos à andar de quatro como babuínos. O coração do homem está morto.

Tive a infelicidade de ser alimentado pelos sonhos e visões de grandes homens, os poetas e videntes. Foi alguma outra raça de homens que triunfou. Este mundo que já está construído me enche de horror. Não é um mundo em que eu queira viver, é um mundo de agiotas e prostitutas, de advogados e sacerdotes, não para artistas (aqui não passamos da pior espécie de lixo, somos leprosos morais, desajustados econômicos, fardos sociais). Este é um mundo que fede, esteticamente perfeito, mas podre e oco por dentro. É um mundo coalhado de objetos inúteis que homens e mulheres, a fim de ser explorados e degradados, aprendem a ver como uteis. O sonhador cujos sonhos não sejam utilitários não tem lugar neste mundo. Quem quer que não se preste a ser comprado e vendido, seja no campo das coisas, da idéias, dos princípios, sonhos ou esperanças, acaba excluído. Neste mundo, o poeta é anátema, o pensador, um tolo, o artista é um escapista, o homem de visão um criminoso.

Os colonizadores vieram e nos tiraram tudo, nossa pureza, nossa vida, nos estupraram, assassinaram, e nos deram o que em troca? Uma vida limpa, saudável, em meio à pobreza, ao crime, à sujeira, à doença e ao medo? Salários mal suficientes para manter a cabeça fora da água e muitas vezes nem para isso? Eles te pagam para comer e voltar, mantêm a coleira curta, apenas coma e volte seu filho da puta! Tiraram nossa liberdade, nossa felicidade e nos deram o que? Rádio, telefone, cinema, jornais, revistas vagabundas, canetas, relógios, aspiradores de pó e outros aparelhos ad infinitum. São essas bobagens que fazem a vida valer a pena? São essas coisas que nos deixam felizes, relaxados, generosos, compassivos, gentis, pacíficos, tementes a Deus? Estamos prósperos e seguros hoje, como tantos estupidamente sonharam estar? Algum de nós, mesmo os mais ricos e poderosos, tem certeza de eu nenhum vento contrário arrebatará nossas posses, nossa austeridade?

Essa atividade frenética que nos mantêm a todos, ricos e pobres, fracos e poderosos, em suas garras, aonde está nos levando? Ao que parece existem duas coisas na vida que o homem deseja obter, a riqueza e a liberdade, mas eles se enganam pensando que são a mesma coisa. O farmacêutico, o médico, o cirurgião, as incapazes de nos dar saúde; e dinheiro, poder, segurança, autoridade, não fornecem liberdade. A educação nunca provê sabedoria, nem igrejas, religião, nem riqueza, a felicidade, nem segurança, paz. Qual é o sentido de nossa atividade então? Qual a finalidade de tudo isso?

O sentido é a catástrofe. A sociedade e nós próprios temos interesse nas perdas consideráveis, em catástrofes. Guerras, fome, caos, nos atraem, atendem às nossas necessidades e saciam nossa ganância. O homem quer o caos. Na verdade, ele precisa disso. Depressão, conflitos, assassinatos, doença, toda essa miséria. Somos irresistivelmente atraídos a esse estado quase orgástico gerado pela destruição. Está em todos nós, nos deliciamos com isso. É o sentido de tudo na vida, é o prazer e o cuspe, a cura e a doença, só assim o homem é completo.

A mídia forja um quadro triste, pintando-as como tragédias humanas, mas a função da mídia nunca foi a de eliminar os males do mundo, e sim, de nos fazer sentir menos culpados. Gostamos da dor, mas precisamos da mídia para nos absolver de nossa culpa, para dizer: “coitadinhos, infelizes.” Quando na verdade dizemos: “Antes eles do que eu!” e “Quando será a minha vez?” na verdade, o sentido do consumo é a morte, o sentido da ganância é a morte, o sentido da vida é a morte.


Luís Otávio Hott

Escritor e flaneur-voyeur, um flanvoyeur entre o playground e o abismo..
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