no divã

Pequenos ensaios sobre psicologia e cultura

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos.

As sombras do poder

Uma breve leitura psicológica da [quase] nova política brasileira.


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Tem um conceito dentro da psicologia analítica que devemos sempre lembrarmos dele: a Sombra. Em linhas gerais, um conceito simples: tudo aquilo que não reconhecemos como nosso [ou que não gostamos em nós mesmos] é retirado da luz da consciência e jogado nas sombras inconscientes. Seriam aqueles aspectos nossos que não aceitamos muito e, de alguma forma, nos esquecemos deles… escondemos de nossos próprios olhos.

Seguindo essa linha de raciocínio, todo mundo já deve ter visto alguma pessoa negar um determinado comportamento, sendo que o comportamento negado é uma das principais características dessa pessoa. Não contentes, temos o costume de notar esses mesmos atos em outras pessoas… no vizinho, no namorado, na irmã, no amigo e por aí vai. Estamos falando de um outro conceito muito conhecido dentro da psicologia, chamado Projeção. É a velha história de falar, apontar, responsabilizar o outro por coisas que temos tanta responsabilidade quanto ou, até mesmo, mais.

São dois mecanismos psicológicos muito comuns. Tão comuns que podemos lembrar, rapidamente, de inúmeras ocorrências. Assim como respiramos, negamos algumas características que são nossas e projetamos essas mesmas características em outras pessoas. Mas ser normal não significa que seja o melhor. Em níveis muito elevados, essas duas formas de agir podem gerar adoecimento ou, no mínimo, causar desconforto social. Mas o que é que isso tem haver com a sociedade em si? - pergunta você, car@ leitor@.

Pensando nos grupos políticos brasileiros, especialmente nos grupos civis, temos visto uma forte tendência por uma releitura da política. Grupos que lutam por uma sociedade mais justa através de campanhas pró-feminismo, a Marcha da Maconha, o combate à Copa do Mundo, o movimento por transporte público e diversos outros. Desde as marchas de junho de 2013, esses movimentos têm conquistado destaque e, acredito, terão cada vez poder de influência. Se pudermos notar algumas características em comum nesses movimentos, podemos perceber um afastamento da prática política usual. Resistência em filiação a entidades políticas como partidos, sindicatos e outras associações. Tudo isso, sempre motivado pela máxima de que a política [principalmente a política eleitoral] corrompe.

Hoje, principalmente a juventude, tem buscado alternativas de fazer política. Movimentos como o MPL [Movimento Passe Livre] ou os Black Blocs, que ficaram em bastante evidência nos últimos meses. Eu, particularmente, quero apresentar aqui uma ambivalência de análise em relação a esses movimentos, a essa forma de fazer política. Por um lado fico muito feliz em ver um interesse crescente em mudar a forma de fazer política… em tentar experiências de militâncias alternativas e inovadoras. Mas essa felicidade não cancela os meus receios.

Os partidos políticos, sindicatos, associações… deveriam aprender diretamente com esses movimentos, mas, apesar de todo o poderio demonstrado por eles em todo país nos últimos meses, se recusam a isso. As entidades que possuem maior poder político, não têm participado dessa nova corrente de “energia política”. Cabe esclarecer que o poder político, não é o mesmo que a energia política… para facilitar a compreensão desse termo, vamos considerar essa energia como um entusiasmo de ação, um foco de interesse. Não preciso entrar em grandes análises pra mostrar que boa parte das ações políticas nos últimos anos, têm se realizado fora dessas estruturas. Um bom exemplo disso, foram as greves de garis no Rio e do transporte público em São Paulo, em que os trabalhadores tiveram que passar por cima de seus sindicatos, uma vez que estes tinham acordos que não representavam os anseios de suas respectivas categorias. Esse não interesse, ou mesmo, repulsa quanto aos novos movimentos, pode representar a morte política dessas entidades enquanto agentes de inovação… enquanto agentes revolucionários.

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Acredito que fazer política pressupõe disputar os meios de poder. E é aí que entra a segunda parte de minha ambivalência [e é aí que entra também, toda aquela história de Sombra e Projeção].

A crença de que fazer política ética, significa não disputar o poder é muito parecida com aquela ideia que discuti lá em cima. É uma tentativa de negar a Sombra. De fazer política de tal forma que nunca tenhamos que nos manchar. Que nenhuma questão mais grave, que possa gerar dúvida sobre o caminho certo a se trilhar [lembrando bem que o caminho certo nem sempre é o melhor, ou correto moralmente] participe do dia-a-dia de nossas ações. Nos esquecemos que, quanto mais negamos uma situação, mais ela se faz presente… maior fica a sua urgência. É mais ou menos assim: cada vez que os movimentos sociais se recusam disputar o poder político, maior é poder dos políticos conservadores que de forma nenhuma deixarão de disputar esse poder. Ou perdemos aspectos importantes que estão submersos na Sombra, um bom exemplo é a capacidade de leitura estratégica do momento sócio-político, que encontramos nos partidos, mas que está em falta nos Black Blocs.

Daí a necessidade de “curar” essa ferida psicológica nos movimentos sociais. Se por um lado precisamos de reinventar as organizações, por outro, isso só se dará quando participarmos das instâncias que ainda estão dadas. Do contrário, teremos um sindicato ou partido político que detém o poder e critica a prática política um tanto desorganizada dos novos agrupamentos [mas se esquecem que, sem se reinventar sua prática já corrompida, mantêm o jogo político sujo] e do outro, teremos um movimento simbolicamente forte, com grandes chance de crescimento, mas que, por seu ‘purismo’, mantêm a lógica política e o ‘status quo’ da forma que estão, tudo por uma ideia de que serão capazes de não sujar as mãos... algo parecido como fazer um omelete sem quebrar os ovos.

Não temos ainda o caminho para essa “cura” e pode ser que nunca tenhamos, mas com certeza ele terá que se iniciar pela autocrítica [prática tão importante, mas em desuso atualmente]. Sem autocrítica, sem se colocar diante do espelho [e um movimento diante do outro], só teremos mais do mesmo. Acusação de que o outro é responsável pela crise política e a não compreensão de que suas próprias práticas são as armas dos conservadores. Nesse caso, continuo com minha ambivalência de humor. Fico feliz pelo recado que as ruas têm dado em todo país, mas ainda me desmotivo quando percebo a incapacidade de diálogo entre as duas formas de poder.


Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos..
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