no divã

Pequenos ensaios sobre psicologia e cultura

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos.

O iogurte é tão saudável que até sinto vontade de fumar

Proliferam gurus de internet prometendo vidas fantásticas para aqueles que seguem seus modelos. Será que esses pacotes de regras trazem satisfação?


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O trabalho de psicólogo não é fácil. Ser um “médico de almas” pede bem mais que conhecimento científico e formação universitária [embora ambos sejam essenciais]. Uma disposição ética é cobrada todos os dias. A pergunta constante sobre o que a alma quer e o que seremos capazes de dar.

O formato do controle médico e sócio-político [alô, Foucault!], somado às facilidades de se publicar na internet, criou um novo “analista” das redes. Entre tantos que surgem diariamente, proliferam gurus de auto-ajuda disfarçados de coachings e outros termos, prometendo estilos de vida mais saudáveis, felizes e com maiores chances de vitória. Disponibilizam conjuntos de regras a se seguir que proporcionariam ingresso e acesso irrestrito a todas as áreas do “grande prazer” que é viver. Não fumar, não beber, fazer sexo seguro, alimentar-se conscientemente, horas de ioga, desapego nos relacionamentos, o politicamente correto... mas será mesmo que qualidade de vida está diretamente associado à toda essa suposta vida saudável?

Uma boa metáfora para o processo de se viver é o de um projétil lançado ao alto. O mesmo movimento de impulso será responsável, posteriormente, pelo movimento de queda. De outra forma, poderíamos dizer que mesmo aquela barra de cereais vai te matar ou mesmo que você extermine todos os problemas atuais, como o preconceito de cor, algum problema novo irá surgir. Obviamente que ter uma vida saudável é muito melhor que uma condição de morbidade, mas onde fica a fronteira entre as duas coisas? Será possível, para qualquer um, ser feliz sem o cigarro ou sem a gordura hidrogenada? Dá para ser tão bonzinho quanto alguns liberais desejam?

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O sujeito médio das estatísticas nunca será encontrado, perfeitamente, na forma de um indivíduo. Isso não significa que o Ministério da Saúde deva largar campanhas de prevenção e promoção de saúde ou que todos os projetos intersetoriais para combate ao sedentarismo sejam balela, mas quando nos baseamos na média para discutir um estilo de vida individual, acredite, nem sempre dá certo [ou melhor, na maior parte das vezes, dá errado]. Aí que entra pergunta inicial... o que a alma nos pede e o que podemos dar?

Na minha adolescência, ouvindo Legião Urbana [até parece pleonasmo usar adolescência e Legião Urbana em uma mesma frase, pelo menos para a minha geração], uma música sempre me chamou atenção: Há Tempos. No fim, Renato Russo canta um trecho composto por um grupo de afirmações, aparentemente, contraditórias... “Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade é ter coragem / Lá em casa tem um poço / Mas a água é muito limpa”. [Se você é da mesma geração que eu, provavelmente leu esse trecho com o ritmo da música, se não é da mesma geração, tá esperando o que pra ouvi-la?] Cada uma dessas afirmações daria, por ela mesma, um novo texto, mas vou me focar somente na última frase... um poço em que a água é muito limpa.

Não deveríamos ficar felizes com um poço em que a água é limpa? Utilizaríamos para o banho, alimento, cultivo ou até para produzir cerveja de qualidade, todos sairíamos felizes, menos o Renato Russo. Tenho minhas dúvidas se ele também não... acredito que quem emite essa última frase não é ele, mas algo maior, algo que reside em cada ser humano. O que fica refletido nas duas últimas estrofes é similar a uma frase do velho Freud: “Poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”.

Mentir é ruim, mas dá para contar a verdade sempre? O hambúrguer cheio de calorias vai, infalivelmente, me causar 15 anos de vida a menos? A infidelidade é tão reprovável assim? E digamos que a mentira não fosse necessária, ou que o hambúrguer fosse tão saudável quanto a tal de rúcula e a infidelidade fosse liberada, acredito que encontraríamos substitutos menos legais [no sentido da lei] para nos divertirmos. Aliás, já devem ter reparado como os cursos que ensinam técnicas e táticas de fetiches e outras perversões sexuais são broxantes...

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Tem algo dentro de todos nós que pede o errado, que pede o fracasso de nossa [insuportável] civilização. Do contrário, teríamos tantos admiradores do filme Clube da Luta ou do personagem Alex no Laranja Mecânica? É um desejo pelo caos, pela falha, o lado sombrio da força.

Fica tudo mais difícil quando temos que perceber o quanto é tênue a passagem da luz à sombra. Em ruas de todo mundo temos senhorinhas e senhorezinhos que são exemplos de ética e moral, responsáveis por furar bolas de crianças e denunciar inocentes churrascos de domingo para a polícia. Quem já estudou em colégio religioso, já deu de cara com supervisoras de uma retidão impecável, capazes de destruir futuros brilhantes com suas frases duras, suas metas inalcançáveis. Professores inteligentíssimos que são incapazes de transmitir uma linha de conhecimento a seus alunos.

Do outro lado, Picasso e Marlon Brando, só para dar dois exemplos entre muitos, conseguiam ser perfeitos babacas em suas vidas pessoais. Picasso era capaz de fazer uma de suas muitas amantes chorar, apenas para tê-la como modelo em suas pinturas e Marlon Brando foi péssimo pai, além de deixar um rastro de problemas em todos relacionamentos que teve. Ainda assim, Guernica é um grito contra a violência e o autoritarismo e os personagens de Brando são de uma genialidade impar. Não dá para saber com toda certeza se ambos precisavam desse lado difícil em suas biografias para compor a genialidade de suas obras, mas suspeito que seriam infinitamente menores sem todos esses defeitos. Mas não precisamos ir tão longe, até os gênios, podemos lembrar-nos de tantos sujeitos que não são, nem de perto, perfeitos e, por isso mesmo, tão capazes de fornecer a palavra certa no momento difícil... compreender nosso deslize, quando tudo mais recrimina. Podemos ficar mais perto ainda, olhando-nos no espelho.


Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos..
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