no divã

Pequenos ensaios sobre psicologia e cultura

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos.

O fim da masturbação arte

A transição do desejo sexual e a forma que entendemos nossa cultura.


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Em dezembro de 2012 foi decretado o fim do Cine Privê. O programa responsável por exibir filmes eróticos leves [conhecidos como softcores] nas madrugadas de sábado para domingo, durou quase 20 anos e chegou a ter a 3ª maior audiência da rede Bandeirantes. Por mais bobo que pareça, estava simbolicamente marcado o fim de toda uma cultura. Era o fim da masturbação arte e a transição definitiva para a masturbação de resultados.

Este não é um texto moralista ou saudosista e não deve ser lido dessa forma. Interessa muito mais a imaginação e o poder de criar novas conexões sobre o tema, assim como os sonhos fazem em nossa vida pessoal. Posso, eu, ou os leitores, termos ideias individuais sobre o que achamos melhor, mas isso não significa que eu esteja interessado em vendê-las aqui, muita gente já faz isso na internet. Apenas problematizo, cada um tira suas próprias conclusões [e, de preferência, divulga na área reservada aos comentários e nos compartilhamentos com os amigos].

Para começar, apresento uma cena recorrente entre meninos que tiveram de seus 12 aos 16 anos, durante o intervalo de 1993 e 2008. Sentado na sala, madrugada de sábado para domingo, com o controle na mão [com ou sem trocadilhos] e o som da TV no mute ou no volume mais baixo possível. A observação de qualquer movimentação na casa era essencial, enquanto passava um filme com cenas de sexo não explícitas e atuações suspeitas. Este foi o momento de iniciação sexual de muitos jovens rapazes. Quando relato essa cena pelos olhos de um garoto, não deixo de pensar que muitas garotas também passaram momentos assim, a repressão é capaz de tirar o poder de fala e depoimento delas, mas não anula a curiosidade sexual, que está democraticamente espalhada pelos gêneros, classes sociais, etnias e quantos grupos mais vocês conseguirem pensar.

Corta para 2011. Uma significativa parte da população brasileira está incluída digitalmente, algo em torno de 46% da população [de acordo com os dados do IBGE], sendo que para o público jovem essa porcentagem ultrapassa mais da metade da população. Erroneamente, para causar um impacto sensacionalista, muitos jornais divulgam que 30% da internet seria composto por conteúdo pornográfico. Pesquisas com um controle maior, dizem algo em torno de 5% da internet. Tanto faz se o conteúdo produzido seja de 30% ou 5%, existe uma grande diversidade de conteúdo e, qualquer jovem que queira procurar um pouco de sexo explícito, vai ter acesso com facilidade.

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Como já devem ter percebido, não estou falando da qualidade dos filmes, nem do fator explícito ou não de suas cenas, até então meu enfoque é na facilidade de acesso a essas produções. Digamos que, se um jovem em 1996, quisesse ter uma experiência sexual que não estivesse ligada à sua imaginação [consideremos aqui que revistas e filmes são elementos materiais], ele teria um significativo atraso de seu desejo, seja criando formas para comprar uma revista pornográfica, alugar um vídeo proibido para menores de 18 anos ou esperando chegar a madrugada de sábado para ver um filme que não mostrava quase nada... Se um mesmo jovem, hoje, em 2014, quiser um pouco de conteúdo pornográfico, basta ter acesso à internet. Às vezes, não é preciso ao menos procurar... o conteúdo vem até você.

Existe, nestes dois exemplos, uma diferenciação na forma de lidar com o desejo. O jovem de 1996 criará suas representações e fetiches a partir de uma espera. A imagem que o excita está diretamente ligada ao custo de sua exibição, à dificuldade para conquista-la. No período atual, a disponibilidade de imagens inverte a lógica. Como existe um excesso de conteúdo, a performance deve ser cada vez mais espetacular. Closes mais explícitos, posições mais difíceis, mais pessoas em cena, sexo mais pirotécnico.

Na televisão brasileira, a arte sempre teve um tratamento parecido com o conteúdo erótico. Não são poucas as vezes que somos surpreendidos em alta madrugada com filmes e outros programas de qualidade, enquanto o resto do dia é preenchido por uma programação bem inferior. Parece que, aos olhos dos veículos de mídia brasileiros, a população não tem maturidade o bastante para uma produção artística, assim como os jovens não teriam para o conteúdo sexual... ainda me pergunto qual dessas duas ideias é mais hipócrita. A TV Bandeirantes não foge à regra e durante um período apresentou, antes do Cine Privê, outro programa de cinema que muitas vezes exibiu filmes de altíssima qualidade. Germinal, O livro de cabeceira, Um estranho no ninho... só para citar alguns exemplos.

Assim como nos jornais impressos, a tv possui uma limitação técnica. O custo da programação, distribuição, publicidade, direitos autorais... Desta forma não é tão simples, como é na internet, montar uma programação ao seu gosto e, mais uma vez, a satisfação de desejos passa por uma espera para que as condições sejam favoráveis.

Da mesma forma que, ao abrirmos um jornal impresso, passaremos os olhos em outras notícias ou, ao comprarmos um cd ou vinil, escutaríamos o álbum completo produzido pelo artista, constantemente somos pegos por um programa que não esperávamos entre as trocas de canal até começar o programa desejado. Muitas das vezes só passamos rapidamente e continuamos o nosso percurso zapeando entre um canal e outro, mas algumas vezes nossa atenção é pega por uma cena. Esses garotos, esperando um pouco de sexo na tv, tinham que criar mecanismos para ficarem acordados até a hora dos filmes e, na maior parte das vezes, ficavam zapeando por algum programa que ajudasse a passar o tempo. Creio que muitos deles foram tocados pela Sétima Arte [sim, com letras maiúsculas] nesse intervalo de tempo.

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Estranho imaginar que o cinema erótico possa ter sido “incentivador” de cultura, vivendo em um momento histórico que a pornografia compete espaço a espaço, tentando ter primazia sobre a atenção. Aqui é importante separar as terminologias, na forma que as entendo. O erotismo tem como intuito maior a sedução, a incitação do imaginário para conteúdos excitantes. A pornografia explicita, de forma quase clínica, o ato sexual. A diferença de ambos não se dá pelo conteúdo em si, mas pela forma que se “conta a história”. Não seria o erotismo o representante daquilo que possui uma certa censura na imagem em si, para isso, podemos lembrar de grandes clássicos da literatura erótica que não poupavam em nada suas descrições claras sobre o sexo [essa outra forma que vê o erótico como algo parcialmente censurado é moralismo barato, hipocrisia]. Ainda assim, esses autores, eram capazes de ativar a sexualidade mais interna do leitor, seus desejos mais desconhecidos... a imaginação ativada pelas imagens, não dominada por elas. A pornografia é fácil, ela diz ao expectador o que esperar e como viver a própria excitação, o próprio desejo.

Na forma que apresento os dois termos, poderíamos dizer que os dois conceitos são maiores que o campo das obras de conteúdo sexual. Nesse sentido é possível concluir que o fim do Cine Privê e a proliferação de conteúdo pornográfico pela rede, não é um caso isolado, mas reflexo de toda uma sociedade em transformação. Não quero fazer juízo de valor e dizer se essa transição é boa ou ruim, como afirmei anteriormente, cada um tira as próprias conclusões, mas é nítido que vivemos em uma cultura pornográfica.


Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos..
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