no divã

Pequenos ensaios sobre psicologia e cultura

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos.

Três filmes para perder a esperança na humanidade

Três filmes que mostram o quanto somos pequenos, mesquinhos e frágeis. E, ainda assim, eles podem te fazer muito bem.


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Um amigo me telefona desesperado [sei... essa história de alguém realmente telefonar para outro parece um pouco inverossímil nos dias atuais, mas ainda mantemos esses hábitos estranhos]. Com uma respiração dificultada, me diz passar por uma sintomatologia assustadora. Falta de ar, dormência em algumas partes do corpo, tonteira. Tem dúvidas se está sofrendo algo orgânico [um infarto, talvez?] ou psicológico. Conheço bem aqueles sintomas, trata-se de uma crise ansiosa. Incentivo-o a acompanhar a respiração de forma calma e profunda. Algumas poucas técnicas, simples, porém eficazes, ajudam-no a recuperar um mínimo de tranquilidade.

Já tive semanas em que a média de atendimentos de casos assim beirava dois ou três. As crises ansiosas parecem ser o novo adoecimento da ‘moda’. Andy Warhol profetizou que todos teríamos quinze minutos de fama, se continuarmos no ritmo que estamos, posso profetizar que no futuro todos teremos, pelo menos, quinze minutos de pânico.

Depois da tempestade é momento de revisão. Em alguns casos foi possível identificar uma linha de semelhança entre eles. A descoberta de algumas características desagradáveis sobre si mesmos ou a percepção de que, em uma contagem geral, não somos tão ‘cool’ quanto imaginamos. Ao que tudo indica, muitos não estão preparados para lidar com o pior que existe dentro de nós. Observar-se integralmente assusta.

Um filósofo suíço, Alain de Botton, faz uma defesa interessante: devemos conhecer melhor a fragilidade do caráter humano. De acordo com o autor, e concordo com isso, uma incursão pelas falhas e fraquezas pode ser mais libertador que todo material de auto-ajuda e pensamento positivo disponível no mundo. Conhecer e aceitar os ‘pecados originais’ pode fazer muito bem.

É a partir daí que apresento a lista a seguir; três filmes desconcertantes. A necessária apresentação do quanto somos pequenos, frágeis e confusos. Com um pouco de humor negro, tudo isso fica bem mais poético e, até mesmo, elegante.

Deus da carnificina

Adaptado de uma peça de teatro, o filme do diretor polonês Roman Polanski é a história de dois casais que se encontram para discutir uma desavença entre os filhos enquanto brincavam em um parque da cidade. Inicialmente polidos, maduros e íntegros, vão perdendo as máscaras ao longo da história. A melhor descrição sobre o filme foi dada por um amigo: "Polanski abriu o ralo do banheiro, enfiou minha cara lá dentro, me obrigou a lamber tudo e eu adorei isso."

O cheiro do ralo

Já que falamos do ralo do banheiro, não poderíamos deixar de fora esse daqui. Baseado no livro de Lorenço Mutarelli, o filme nacional, dirigido por Heitor Dália, nos propõe acompanhar os dias do dono de uma loja de quinquilharias. A atividade de compra e venda de objetos usados é transformado pelo personagem principal em um jogo sádico, no qual ele se diverte às custas de gente desesperada por algum dinheiro e, alguns deles, dispostos a se humilhar por isso. Acrescente a isso um ralo de banheiro entupido que causa um cheiro horrível e uma bunda [sim... uma bunda!!].

Um homem sério

Ser um sujeito sério, daqueles que cumpre todos os deveres com integridade parece não ajudar muito. Pelo menos é o que a história dos Irmãos Cohen nos passa. Inspirado no Livro de Jó [aquele da bíblia], vemos um professor, judeu, sério e integro, passando por um difícil período de sua vida. Sem nenhum motivo, tudo começa a dar errado e parece não haver chances de melhora. A crise leva a um momento de investigação filosófica e espiritual: por que eu e não o meu vizinho babaca ou qualquer outro grande canalha do mundo?


Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos..
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