no divã

Pequenos ensaios sobre psicologia e cultura

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos.

O amor pode ser uma tragédia [e o que eu vou fazer com isso?]

O que poderia ser uma história de aventura e amor, como os clássicos da Disney, se transforma em uma tragédia. Nem sempre a fase heroica é seguida do merecido descanso, de uma vida feliz e pacífica. E aí, como estamos lidando quando tudo dá errado?


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Comecei o dia me lembrando de Medéia. Grega… de destino trágico, mata os próprios filhos em vingança ao marido infiel. Imortalizada como infanticida, acusa a si mesma para livrar todos os pecados de Jasão, que sai, até hoje, como o herói injustiçado. Uma espécie de Judas feminino, o bode-expiatório dos pecados dos homens.

Feiticeira, filha do rei da Cólquida, Medéia conheceu Jasão quando ele chegou ao reino de seu pai para solicitar o Novelo de Ouro. Influenciada pelos poderes de Afrodite, se apaixona pelo herói e decide ajudá-lo em sua empreitada.

O rei não permitiria que Jasão levasse consigo o Novelo de Ouro, mas mente dizendo que Jasão poderia levá-lo caso cumprisse uma série de trabalhos, dentre eles emparelhar touros cuspidores de fogo e lutar contra guerreiros mágicos. Medéia oferece sua ajuda pedindo em troca o amor de Jasão que, com a ajuda da feiticeira, consegue realizar os feitos e depois, com ajuda dela novamente, consegue escapar com a lã e fugir da cidade com a princesa.

Vão a Corinto e lá se casam tendo vários filhos. É aí começa a tragédia.

Creonte, rei de Corinto, oferece a Jasão a mão de sua filha Glauce em casamento. Ambicioso, Jasão abandona Medéia e prepara-se para casar com a jovem princesa. Medéia vinga-se do marido envenenando a futura esposa de Jasão e matando os próprios filhos, depois fugindo da cidade e não sendo punida pelos seus atos.

Muita gente deve estar se perguntando, o que uma tragédia como essa tem a ver comigo? É uma analogia, estúpido!

Quantos relacionamentos terminam e a busca por um culpado se transforma na tarefa essencial? Quem foi o responsável pelo fim dos contos de fada, pela destruição de toda a esperança de que dias melhores, satisfatórios e eternos viriam? O amor morre e seu corpo estirado no chão pouca importância faz, devemos linchar o seu assassino, colocar a culpa em alguém.

A analogia é uma atividade importantíssima quando o assunto é a psique humana. A percepção de que o nosso sofrimento [ou mesmo felicidade] nada tem de inédito e que é tudo humano, demasiado humano.

Nos relacionamentos amorosos, assim como em todos os relacionamentos, alguém denuncia, antes de todos os outros, algo de errado na ordem das coisas. A corda sempre arrebenta no lado mais fraco, na mão de quem, com menor poder, tem de se ver no fundo do poço sem quaisquer subterfúgios. É assim que acontece com as crianças que inundam os consultórios de psicologia, somatizando os pecados dos pais… o adoecimento dos idosos, o aumento do contingente de moradores de rua… sobras do capitalismo.

Medéia, nada mais é que a denúncia do uso e do descarte… Feiticeira, oriunda de uma região considerada bárbara que depois de fugir com seu amado, perde os poderes sobre o seu antigo reino e não tem o mesmo prestígio que teve ao ajudá-lo em sua empreitada passada. Mas pensamos conosco, depois de tudo feito, Medéia é a única culpada. Louca, cruel e assassina. Afinal, que direito ela tem de arranhar o meu carro, só por que eu a traí no dia do seu aniversário com uma das amigas dela?

Revisemos nossos julgamentos e assumamos a parte que nos cabe nesse malfadado latifúndio.


Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos..
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