no divã

Pequenos ensaios sobre psicologia e cultura

Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos.

Ser humano, ser supersticioso

A superstição é um problema humano e já deveríamos ter aceito essa limitação, mas ainda há quem acredite estar por cima disso. Quanto mais vaidade, maior o tombo.


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Somos criaturas supersticiosas. Buscamos padrão em tudo e acabamos interligando pontos aleatórios como se existisse alguma relação de causa e efeito entre eles.

Por exemplo, um sujeito que foi educado para aceitar apenas a existência de relacionamentos monogâmicos em sua vida sai com uma garota que não é sua namorada. No caminho para casa dela, por qualquer motivo, o carro sofre um acidente ou tem algum problema mecânico. Não há nenhuma relação mágica que interligue os fatos, mas dependendo do quanto a moral monogâmica está incutida no pensamento do sujeito de nosso exemplo, podemos esperar que se apodere dele um sentimento de que foi punido por seu comportamento infiel. Às vezes, isso não se dá de forma consciente, mas como um sentimento de receio ou medo de repetir o ato em que tudo aconteceu. Algumas dessas superstições são mais perigosas e outras menos. Algumas pessoas guardam suas superstições só para si e outros querem compartilha-las com o mundo...

O grande problema é que não basta ser uma pessoa racional. Ou pior, quanto mais racional o sujeito se imagina, maior pode ser a certeza de que existe uma ligação entre dois pontos completamente aleatórios que desejariam dele uma determinada postura diante dos acontecimentos da vida. O exemplo que apresentei nos parece tosco, mas quantas correlações espúrias não são tratadas como verdade quase científica por muita gente?

É papel da psicoterapia elaborar esse tipo de coisa. Não basta o conhecimento técnico se não somos capazes de meditar sobre os pontos de desequilíbrio daquele que observa os eventos, no caso, nós mesmos. Mas essa elaboração só acontece se assumirmos o posicionamento de rever os alicerces que guiam a nossa vida... permitir que a dúvida faça parte de nossa existência. Tomar uma postura como essa é um ato de coragem. Esse tipo de revisão pode doer muito.

A história recente está repleta de personagens e movimentos que se consideram acima de toda e qualquer superstição. Não deixa de ser engraçado, para não dizer patético, como essa gente se agarra [desesperadamente!!] em suas certezas e despendem boa dose de agressividade quando seus pressupostos são questionados. A era da internet tem colocado muitos desses “messias” em evidência. É curioso como boa parte deles tem menos de 25 anos e já são conhecedores “dos mistérios da vida”. Posso imaginar como o tombo que tomarão ali na frente irá doer...


Marcelo Marchiori

Psicólogo clínico, especialista em imaginação ativa e interpretação de sonhos. Realiza atendimentos individuais e coletivos, além de ser articulista do blog de sua clínica terapêutica, Descobrindo Sonhos..
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