Kavita Kavita

sempre acreditou que não deveria ter nascido carne e osso.
deveria ter amanhecido inverno

Lars e Bianca, Theodore e Samantha

É possível se apaixonar pelo simulacro? Este artigo mostra como dois filmes, "A Garota Ideal" e "Ela", afirmam que sim, e para além disso, elevam essa afeição a um novo status, nos fazendo refletir como esse laço é uma nova possibilidade de amar, prenhe de potência neste novo milênio.


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Separados por cerca de seis anos, os filmes Lars and the Real Girl (2007)(que por aqui recebeu o título canastrão de “A Garota Ideal”) de Craig Gillespie, e Her (2013) de Spike Jonze, me parecem, cada um a seu modo, sintomas de um cinema atento ao estatuto das novas possibilidades afetivas neste início de milênio: a paixão pelo simulacro, não como perversão ou fetiche, mas como potência.

O conceito de simulacro que, a grosso modo, seria a cópia de algo que existe, ou existiu, sem trazer em si a essência deste algo, uma pura aparência sem realidade, um arremedo do original, foi platonicamente rebaixado, para dois mil anos depois ser redimido por Nietzsche. O filósofo grego, que apregoava que este mundo era uma mera cópia do Mundo das Ideias, e portanto uma ilusão, já que a essência está para além, dizia ainda que o mundo sensível, o mundo das aparências, é um véu que recobre e esconde a verdade. Para Platão, a arte, ocupada em representar as coisas do mundo, é duplamente desqualificada, pois ela seria uma simples imitação das aparências: ou seja, uma cópia imperfeita da cópia imperfeita. Nietzsche, no entanto, em seu mordaz ataque a metafísica que se instaura em todo ocidente no rasto da teoria platônica, afirma que a vida se dá neste mundo e se recusa a crer em algo para além dele: a verdade, portanto, está na aparência. O pensador alemão afirmava que negar este mundo em prol de uma “pós-vida” (como ele alegava ser inerente a moral cristã), não passa de um desejo de nada, um niilismo baseado em pressupostos errôneos. É preciso dizer “sim” a este mundo, afirmar a vida aqui e agora. Para Nietzche, o fundamento está na superfície, no que se mostra, e é na “imperfeição” do simulacro onde habita sua potencialidade.

No filme Lars and Real Girl, Lars Lindstrom (vivido pelo ótimo Ryan Gosling) tem profunda dificuldade em empreender qualquer interação social, vivendo isolado em uma garagem no quintal da casa de seu irmão e cunhada. Ele parece até mesmo resistir, ou não perceber, as investidas amorosas de uma colega em seu trabalho. Até que um dia, subitamente, ele apresenta a seus familiares a sua nova namorada: uma boneca sexual comprada na internet. Lars a chama de Bianca, uma missionária religiosa brasileira. A partir daí o filme se desenrola na relação entre o protagonista, Bianca, e os habitantes da cidadezinha pequena onde eles moram.

Por sua vez Her, ambientando num futuro indefinido com estética retrô, Theodore (Joaquin Phoenix) um escritor recém-separado da esposa, adquire um sistema operacional dotado de inteligência artificial e capaz de aprender, num crescendo, sobre o mundo e a natureza humana, conforme convive com seu dono. Possuidora de personalidade, e voz, feminina, Samantha (como se autodenomina o sistema de Theodore), não demora em despertar uma paixão no protagonista e se demonstrar apaixonada por ele também.

Em ambos os filmes temos um personagem principal (coincidentemente, ou não, masculino) que desenvolve subitamente uma relação amorosa com um simulacro feminino. E quando digo subitamente, e não gradualmente, é porque me parece que as duas narrativas ainda se apegam a ideia de que relações inusitadas deste tipo só poderiam surgir, não como fogo lento, mas nesta dinâmica de combustão. Ambos os personagens passam por movimentos conturbados de relação com o outro: Lars que em determinado momento do filme explicita que essa problemática pode ser rastreada desde a infância e a relação com o pai, e Theodore na incapacidade de se desvencilhar afetivamente, e efetivamente, da ex-mulher. Ambos, cada qual a seu modo, estão habitando o território da incompreensão: Lars é incompreendido pelos que o cercam, Theodore não compreende a si mesmo. Resulta daí, talvez, a propensão ao incomum, a implosão da normatividade. Isso fica claro no fato de que em nenhum momento as narrativas recaem num tom de crítica negativa, ou em um reconhecimento de alguma espécie de perversão sexual. Muito pelo contrário, há nos dois filmes uma veemente celebração do afeto.

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Precursor destas histórias cinematográficas talvez seja o livro A Invenção de Morel (1940), do escritor argentino Adolfo Bioy Casares. O personagem principal do romance, um fugitivo da justiça que busca esconderijo em uma ilha deserta, se surpreende ao encontrar outras pessoas habitando o local. Ao observá-los escondido, ele não tarda a perceber que esses moradores cultivam hábitos anacrônicos, e seus gestos, ao longo dos dias, acabam por se repetir exatamente. Um desses estranhos habitantes, uma mulher chamada Faustine logo desperta a paixão do protagonista. Mas ao tentar se aproximar do objeto de seu afeto ele não entende porque ela não o vê e nem o ouve. Até que, no que talvez seja o momento chave da narrativa, ele descobre que Morel, um antigo veranista da ilha (assim como os habitantes que o protagonista contempla todos os dias), havia criado uma máquina fabulosa onde ele gravou, em todas as dimensões possíveis, uma semana das férias dessas pessoas. Morel, antes de morrer, e logo após ele, todos os veranistas, deixa sua máquina ligada utilizando como fonte de energia o movimento das marés, criando assim um filme exibido em looping e ad eternum na ilha. Na parte final do romance, cabe ao protagonista decidir entre apenas assistir, durante resto dos seus dias, aquelas imagens, ou “gravar” a ele mesmo (e assim morrer como os outros) ao lado de Faustine, e viver eternamente como cópia imagética de si próprio.

Há dois dados que permeiam comumente as três histórias: o primeiro é que os protagonistas são, de certa forma, párias. O segundo, nenhum deles consuma, devido a razões mais ou menos óbvias, qualquer ato sexual com sua contraparte. Ainda que estes dados sirvam coerentemente a cada narrativa, não consigo deixar de cogitar neste segundo um implícito conservadorismo, menos flagrante no filme de Jonze e, talvez, mais justificável no livro argentino. Como se houvesse um impeditivo em validar aquela relação até seu ápice, de levar a cabo os abalos à estrutura do normativo. Mas essa sensação, entretanto, parece se desfazer, pois nenhum dos filmes (incluindo aí o livro) recai na leviandade de achar que algum dia deixaremos de amar, e consequentemente nos relacionarmos, uns com os outros, em detrimento dessas novas formas afetivas. Não há nenhuma espécie de contra-apologia ao amor pelo simulacro (inclusive, me é sintomático que as histórias se esforcem para elevá-lo a um outro status, a reafirmá-lo, ainda que de forma questionadora, como “também pessoa”).

A verdade é que o corpo está aí e é incontornável. Basta aprendermos a reconhecer que o amor não é um dado constante e imutável, ele é um incessante devir, algo sempre latejante, uma maré. É um estado bruto de potência que pode desembocar em diferentes objetos ou formas de se dar. Afinal, como dizia o compositor, no fim das contas, qualquer maneira de amor vale amar.


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