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sempre acreditou que não deveria ter nascido carne e osso.
deveria ter amanhecido inverno

A melancolia de um cavaleiro das trevas

Um ícone da cultura pop: Batman. Personagem criada há mais de 80 anos, transcendeu sua linguagem de origem, os quadrinhos, e hoje é indubitavelmente a mais reconhecida figura das HQ's. Suas recentes, e bem sucedidas, incursões pelo cinema, ajudaram a pôr em evidência este herói que, ao longos das décadas, passou por inúmeras transformações não somente estéticas, mas também de personalidade. Este artigo propõe jogar uma luz sobre as trevas desta personagem, tentando observá-la sob a ótica da melancolia que permeia sua existência, de forma mais ou menos flagrante, desde a sua criação em 1939.


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ENTRANDO NA CAVERNA

No final da década de 30, a editora Detective Comics precisava de um herói que fosse a antítese do Super-Homem, que fazia muito sucesso na época. Vem à luz, então, pelas mãos do norte-americano Bob Kane, inspirado pelas histórias de detetive e pelo mascarado Zorro, Batman. Um herói criado pela perda e consumido pelo desejo de vingança. Vestido de negro e espreitando por sobre os prédios da gótica e sombria Gotham City, temos aqui o primeiro super-herói com características muito mais ligadas à morte que à vida. Mas, nem sempre foi assim...

No início, as histórias eram bem ingênuas, típicas da época, de quando Batman se contentava em matar (sim ele matava! Seu código de honra só surgiu mais tarde, devido a uma caça às bruxas ocorrida nos EUA, engendrada contra os quadrinhos, considerados corruptores da juventude norte-americana) e prender os vilões - ora sozinho, ora acompanhado por seu companheiro Robin, que foi criado uma década depois justamente para atenuar as características sombrias do personagem. Percebendo durante a década de 80 que uma nova demanda de mercado era gerada, sobretudo por uma mudança da mentalidade dos leitores de quadrinhos que não se contentavam mais com aquelas histórias que até então vigoravam (e de cunho, ouso dizer, quase infantil), os editores e roteiristas da DC Comics (a editora que detém os direitos do personagem e que, por sua vez, pertence ao conglomerado Warner Bros.) dão um giro de quase 180º na concepção da personagem.

Negando solenemente as baboseiras cinematográficas cometidas por Hollywood contra a personagem - inclusive a horrenda série dos anos 60, que de tão tosca virou cult, estigmatizando o personagem indelevelmente durante décadas como um paspalho - vou me ater à linguagem visual de origem, os quadrinhos. Principalmente, a partir de sua “Renascença” nos anos 80, década que, definitivamente, marca a personagem com uma série de histórias derradeiras, e que até hoje têm sido usadas como base para os novos roteiristas acerca de como deve ser o personagem e seu universo, nas quais ele é, de fato, o que foi criado para ser: um ensimesmado obsessivo e meticuloso, uma criatura soturna e fria, que se espraia pelas madrugadas enevoadas de Gotham, como uma gárgula sempre vigiando, e preparada para um mergulho sobre a escuridão que repousa no abismo de luzes da cidade noturna.

COSMOLOGIA QUIRÓPTERA

Batman é um herói gerado, e cultivado, pela dor de uma perda. Vitimado pelo trauma de assistir seus pais serem assassinados por um assaltante quando tinha apenas oito anos de idade, o jovem Bruce, alter-ego do herói (e não o contrário) nunca se recuperou. Ao contrário do que se poderia esperar, de acordo com as teorias freudianas, o trabalho de luto de Bruce Wayne nunca se extinguiu e, talvez por uma predisposição patológica, vai imbuí-lo de uma perene melancolia, onde toda sua libido só encontrará efêmero alívio na vingança contra o tipo criminoso, o “objeto” gerador da perda.

Ainda criança, com seis anos, Bruce caiu num poço onde habitava uma ninhada de morcegos, fato este que ficou gravado em sua mente gerando uma grave quirópterofobia, que durante a vida inteira lhe acometeu de insônia e terríveis pesadelos com esses mamíferos. Podemos encontrar aqui a ausência de sono, e as psicoses alucinatórias carregadas de desejo do melancólico, de que falava Freud em seu Luto e Melancolia. Após sofrer seu grande trauma, a morte dos pais, ele promete a si mesmo que faria de tudo para o que aconteceu a ele não acontecesse a mais ninguém. Mas, para isso, ele não poderia mais ter medo, teria que ser ainda mais assustador que os próprios criminosos que combatia, e isso só seria possível a ele sob nada mais que o signo do morcego. O que era a coisa mais assustadora do mundo, o seria também para seus algozes, ao mesmo tempo em que serviria de exorcismo ao seu próprio medo... uma reação simples e infantil: o desejo de uma criança.

Vemos aqui, também, o ascetismo schopenhaureano. Ao prometer não deixar mais ninguém passar pelo que ele mesmo passou, Batman reconhece que todo ser sofre (ou mais precisamente, tem potencial para o sofrimento), e toma como sua a miséria do mundo. Só que assim como no caso freudiano exposto acima, isso também se dá de forma imperfeita, pois para Schopenhauer, esse reconhecimento da amargura e da nulidade da vida, seria a causa que retiraria o homem da roda de sofrimentos do mundo: a supressão da vontade (análoga a libido freudiana), o não-querer que elimina o tédio e a dor do ser vivente. Só que Bruce Wayne deseja mais que tudo, e o que ele deseja não é nada mais, nada menos, que uma impossibilidade, e isso gerará nele a obsessão, e isso gerará nele a melancolia.

Apesar de seus discursos e esforços contrários, em seu íntimo ele admite a destrutividade inerente a cada ser, desenvolvendo dentro de si mesmo essa espécie de pulsão de morte. Em uma mini-série dos anos 90 chamada Batman: Preto e Branco, temos um breve conto do desenhista e roteirista Ted Mckeever, onde o Homem-Morcego, enquanto autopsia uma jovem que foi espancada até a morte, dialoga com o cadáver da moça: “De onde está agora, você pode provavelmente ver tudo. E notou que os hospitais não são os piores lugares do desespero humano. Os becos da cidade, as sombras, as pocilgas: todos os lugares onde a miséria e iniqüidade humana tentam evitar à luz do dia estão abertos à sua visão. Diga-me, desconhecida: é verdade que vivemos apenas um sonho numa velocidade estonteante e depois partimos para deixar espaço para outros? Outros para quem devemos deixar um espaço limpo. De que vale o indivíduo? Estaremos apenas preservando uma fachada da humanidade?” Batman aqui questiona a mediocridade da vida, em uma postura que beira o niilismo, ele sabe que luta em uma batalha que não pode vencer, e que talvez tudo seja em vão, a vida por si só uma vanitas.

PSICOLOGIA QUIRÓPTERA

Foi somente nos anos 80, considerada a fase de ouro do personagem, que houve a mais profunda modificação no Homem-Morcego, dando-se ênfase às características psicológicas sombrias e patológicas que acometiam o herói. Foi nesta época que surgiram três das maiores histórias em quadrinhos norte-americanas, e segundo alguns especialistas, do mundo em todos os tempos: Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller, Batman: A Piada Mortal (1987), de Alan Moore e Brian Bolland, e Batman: Asilo Arkham (1989) de Grant Morrison e Dave Mckean. Esta última é uma obra–prima que mostra Batman e seu universo em seu lado mais perturbado e assustador, complementada pela arte do mestre Dave Mckean, inegavelmente sombria, composta por pintura e montagens fortográficas. Grant Morrison, o roteirista do conto eleva os quadrinhos ao status de literatura, e poderia dizer que talvez, criador de uma das maiores obras literárias do século XX. Repleta de referências como a Lewis Caroll, o círculo euclidiano, e as lendas arturianas, além de outras mais obscuras, ele trata aqui da jornada de Batman pelo Asilo Arkham, um sanatório para onde são enviados os criminosos insanos de Gotham. A história se inicia em um primeiro de abril, quando os internos do asilo se rebelam e tomam os funcionários como reféns. Entre diversas exigências insanas, eles pedem que o próprio Batman vá residir entre eles. Tudo não passa de um plano arquitetado pelo Coringa, seu arqui-vilão, para corroborar a teoria de que o Homem-Morcego seria tão louco quanto aqueles que combate. Num paralelo com a parábola do abismo nietzscheano (“Se olharmos muito tempo para dentro do abismo, o abismo também olhará para dentro de nós.”), vemos o herói se deparar face-a-face com a loucura, mergulhar nela, e quase ser engolido pelas sombras da insanidade. Num dos momentos mais geniais do conto, vemos Batman questionar sua própria sanidade. Quando inquirido pelo Comissário Gordon, o chefe de polícia de Gotham, se não tinha medo de entrar no sanatório, Batman responde: “Medo? Batman não tem medo de nada. Sou eu. É de mim que eu tenho medo. Medo de que o Coringa esteja certo sobre mim. Às vezes questiono a racionalidade das minhas ações. Estou com medo de que, quando atravessar os portões do asilo, quando eu entrar no Arkham e as portas se fecharem atrás de mim... vai ser como voltar para casa.” Em Batman: A Piada Mortal vemos o próprio Coringa contestar a sanidade do Homem-Morcego, enquanto é perseguido em uma casa de espelhos: “Só é preciso um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático. Essa é distância entre o mundo e eu... apenas um dia ruim. Você teve um dia ruim uma vez, não é? Eu sei como é. A gente tem um dia ruim e tudo muda. Senão, porque você se vestiria como um rato voador? Seu dia ruim o deixou tão louco quanto qualquer um. Só que você não admite... prefere continuar achando que a vida faz sentido... que vale a pena todo esse esforço! Você me dá vontade de vomitar!” Esse questionamento sobre a validez de suas ações, e mais importante ainda, sobre a sua própria sanidade atormenta a alma do personagem, que já possui por si só um espírito bastante fragmentado. Isso gera um profundo pesar, uma preocupação excessiva com a normalidade de suas atitudes, uma característica que também vai transbordar de melancolia o herói. Quando o filósofo Robert Burton escreve no século XVII o seu tratado Anatomia da Melancolia, ele associa a melancolia a um desespero do homem abandonado por Deus. É interessante notar que esse desespero causado pela obliteração da teofania vai se cristalizar dois séculos depois, no homem do romantismo. Em Batman: Asilo Arkham vemos um desespero desse tipo tomar conta do personagem, demonstrando mais uma vez claramente, que ele é assolado por um abandono, dessa vez motivado pela descrença na divindade. Ao enfrentar o criminoso conhecido como “Crocodilo”, o Homem-Morcego é bastante ferido no embate, e seus pensamentos durante a fuga são agridoces: “Sou erguido numa onda de perfeito terror. E o mundo explode. Não há nada em que me apoiar. Nem âncora. Tomado pelo pânico, fujo. Corro cegamente pelo hospício. Não posso nem mesmo rezar. Pois não tenho Deus.”

O CÉREBRO DO MORCEGO

Sem nenhum super-poder além de possuidor de tecnologia de ponta, um corpo altamente treinado, uma força de vontade própria do obsessivo, e um intelecto muito acima da média, Batman é indiscutivelmente um herói cerebral. No grupo do qual faz parte, A Liga da Justiça (reunião de super-vigilantes do qual participam também o Super-Homem, a Mulher-Maravilha, o Flash, entre outros), ele seria considerado o “cabeça” dentre seus pares. Com uma capacidade investigativa e dedutiva comparada, e só comparada, a Sherlock Holmes, suas descobertas no campo do intelecto chegam a ser assombrosas, mesmo para os outros membros dotados de super-poderes. Mas é interessante notar que dentro do grupo, ele é o apaixonado pela solidão. Sempre deslocado e soturno, e preferindo agir sozinho, ele vive nas sombras, imergindo e submergindo nelas a seu bel prazer. Com o surpreendente hábito de descobrir o que acontece nas entrelinhas antes de qualquer um, ele se mantém sempre em silêncio, só revelando suas conjunturas e conclusões no último momento, e sempre de modo direto e com o menor número de palavras possível. Essas características são muitas vezes vistas pelos outros como manipulação e paranóia. Mas não é a toa que Batman não sorri. Desde a década de 80, o personagem só tem feito cerrar os dentes e manter uma circunspeção quase estóica. Para Aristóteles, a melancolia seria um atributo dos homens excelentes e superiores, então podemos dizer que essa é a origem indubitável da aversão à fala do Homem-Morcego (característica por si só atribuída ao melancólico). Schopenhauer vai estender essa teoria afirmando que o intelectual é afligido por uma sobrecarga nervosa, de sensibilidade, e essa preponderância da sensibilidade é responsável por uma desigualdade de ânimo, ou seja, a melancolia típica dos homens de intelecto. O Homem-Morcego é dono dessa sensibilidade exacerbada, sempre retirado em algum canto, a tudo observando e captando, o mundo pra ele é visto nos mínimos detalhes, apesar de através de uma lente escura, e como é típico aos melancólicos, ele não se despe desses detalhes, retendo tudo dentro de si, até o peso se tornar insuportável.

RAIO-X DE UM INSTANTE CAPTURADO DE MELANCOLIA QUIRÓPTERA durer.jpg Vemos no quadrinho do início do artigo, feito por Brian Bolland para a mini-série Batman: Preto e Branco, a típica iconografia da melancolia tão comum nas histórias do personagem. Impossível não remetermos a Dürer e sua gravura Melancolia I (acima). Vemos o personagem centrado e concentrado no monitor, onde divisa as fichas de alguns criminosos conhecidos. A mão segura o peso da cabeça, o peso do conhecimento e das memórias. Vemos ao fundo a coleção de objetos guardados na caverna e que remetem a aventuras passadas: a escultura de um dinossauro, a moeda gigante do Duas-Caras, e o uniforme do segundo Robin, Jason Todd, morto pelo Coringa. De acordo com Susan Sontag em O Colecionador e a Melancolia, as coleções seriam características do melancólico, talvez por uma incapacidade se relacionar melhor com as pessoas que com os objetos. Como a memória é profundamente ligada à melancolia, é interessante notar que esses objetos colecionados pela caverna podem ser vistos também, como lembranças objetivadas. O uniforme do Robin assassinado traz a imagem da ausência, de alguém que nunca mais vai usá-lo... uma imagem definitivamente melancólica, como A Cadeira de Gauguin, de Van Gogh. Outro detalhe interessante é que talvez esses objetos e computadores sirvam para preencher os vazios do espaço, como vemos nos objetos espalhados por toda a superfície da gravura de Dürer. Talvez o melancólico reflita no espaço o seu ego esvaziado, e preenchendo-o, acredite preencher a si mesmo. Batman é inegavelmente dono dessa tendência, desse seu horror vacui.

CONCLUSÃO

Quantos outros ditos heróis encontramos por aí, donos desse pragmatismo, desses tormentos, desse desespero tão comum a nós mesmos, homens dos grandes centros urbanos? Escolhi tratar do Batman aqui, por ser desde a minha infância um personagem que, como um antigo ex-leitor inveterado de quadrinhos, nutro uma paixão especial. Talvez seja por uma identificação melancólica, ou talvez seja pelo sombrio do seu universo, o fato é que eu, por ser ligado há muito tempo ao personagem me achei na condição de ter uma propriedade especial para falar dele, e vi com a proposta desse trabalho um ensejo magnífico, e uma adequação perfeita. Ícone da cultura pop, Batman é um herói que perdura, que atravessa as décadas e mantém ainda grande popularidade. Deixando de lado as discussões sociológicas e psicológicas sobre o porquê do interesse tão perene das pessoas sobre os super-heróis, esses seres “maiores que a vida”, como dizem os norte-americanos, eu acho que no caso do Homem-Morcego especificamente, seja talvez, por que no fim das contas, ele é o mais humano de todos. E quando digo humano, não é porque ele seja destituído de super-força ou de um corpo indestrutível... não, não é isso. O que o torna aparentado com qualquer um de nós é sua capacidade de sentir e ser afligido por coisas que até então, nenhum herói antes se preocupava. Vejamos o Super-Homem, por exemplo. Aquela perfeição toda e tão maniqueísta, soa como algo distante, irreal e inatingível para nós meros mortais, como o deus cristão, por exemplo. Ora, convenhamos que os deuses gregos eram muito mais charmosos em suas imperfeições, e Batman seria como eles: ainda alguém superior, mas dotado de qualidades e defeitos tão “mortais”, que lhe imbuiriam de imensos focos e centelhas de humanidade, gerando em nós essa imediata identificação e atração. Batman não é bonzinho, como um santo ou asceta, e nem faz milagres como tal. Isso é reservado para os “verdadeiros” super-heróis. Batman é apenas um herói, para mim ele não tem nada de super. Ele é um obcecado vingativo, e com o que ele se depara e enfrenta todas as noites não são ameaças cósmicas, ou vilões com pretensões megalomaníacas de domínio global. Ele está eternamente face-a-face com a sujeira das ruas, o pior lado da humanidade, aquele buraco escuro que ele mesmo conheceu quando ainda era uma simples criança. Ele não prende assaltantes em teias, ou os leva voando para a penitenciária mais próxima. Ele os esmurra até os limites da tolerância física, ele quer ver o sangue voando, e escutar o som de ossos sendo partidos. Porque é isso que os criminosos, em sua visão merecem: sentir na pele o que eles oferecem aos inocentes. Como ele mesmo afirma em Batman: O Cavaleiro das Trevas, ele não é um herói e nem tem a pretensão de ostentar tal título. Ele se vê como um soldado, e que no íntimo sabe que luta por uma guerra já perdida. Contra a mediocridade e violência engendrada pelo homem, ele não pode fazer nada a não ser trazer um pouco de alívio para os indefesos, e assim trazer um pouco de alívio para si mesmo também. E como um bom guerreiro melancólico, ele é dono do seu memento mori, quando sozinho e no escuro, agachado no alto de um prédio cinza e envelhecido, ele lembra que em todas as guerras, existem aqueles soldados que um dia não voltam mais para casa.


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