noites na taverna

Opcional, já que tudo é relativo !!

Reizimar Muniz

Autora do livro de poesias "Eu, Moderno". Adora cinema, livros e amigos. (simples assim!)

Da proeza de remar contra a maré

Pobre, negro, nascido e criado em meio a violência e a falta de esperança ! órfão de pai, mãe alcoólatra e um irmão traficante! O que você acha que lhe aconteceu? Surpreenda-se e pare de reclamar da vida !


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Em meio ao espetáculo da copa... em meio aos grande milionários que fazem gols... em meio a ostentações e protestos por uma país melhor... em meio a tantos meios de aparecer e surpreender, eis que surge uma história de uma herói que não brinca com a bola!

Uma boa notícia para burguês ver: um pobre coitado, mais um pobre à mercê do que os holofotes apontam, dribla suas dificuldades diárias, seus demônios pessoais e vai ao campo para tentar vencer tantas dificuldades e fazer o grande gol da virada de sua vida!

"A dor da gente não sai no jornal" já citou Chico Buarque, o que não deixa de ser uma dura verdade cantada a limpo !

Eis a notícia que me emociona: numa família de periferia, de vinte filhos, mãe alcoólatra, sem pai (este jaz), pegando comida de lixo, catando nos restos alheios as sobras para sua sobrevivência e morando num ambiente para muitos hostil, cercado de pobreza e violência, eis que surge um jovem com a proeza de remar contra a maré e, bem além disso, conseguir o impensável (sim, impensável! não cabe aqui nem mesmo o eufemismo para impossível): formou-se em medicina, com a ajuda dos livros que também colheu do lixo e da garra que encontrou pela vida!

É mais uma dessas histórias que nos fazem refletir, pensar no quanto somos permissíveis com as nossas limitações pessoais.Quando alguém em condições ínfimas nos surpreende com uma resposta incrivelmente superior a tantas dificuldade, nos dá uma lição que não está nos livros: você se torna aquilo que você mesmo se permite!

Eis um resumo da noticia: Cícero Pereira Batista, nascido e criado na quadra 20 da QNL - conhecida pelos altos índices de violência - tinha apenas três anos quando o pai morreu. Sua mãe caiu no alcoolismo e seu irmão mais velho passou a traficar e usar drogas. A comida achada no lixo era a sua sobrevivência.

Diria que ele fez dos limões, uma limonada. No lixo não tinha só restos de carne podre e iogurte vencidos para combater a fome. Tinha também uma porta para fugir de tudo aquilo. Tinha livros sujos e discos desprezados. Para muitos seriam só discos ultrapassados e livros sem importância.

Ele lia tudo que encontrava pela frente (sim, ele sabia ler). Foram proveitosos tanto seus livros velhos e manchados quanto os vinis que escutava na casa de um vizinho. Beethoven e Bach. Foram seus embalo para uma vida melhor. Eram seus tesouros pessoais.

A irmã de Cícero o matriculou em uma escola pública próxima a sua casa. Contou com a ajuda de professores e amigos para seguir em frente. Passou em segundo lugar no curso técnico em enfermagem pelo Cespe, banca que integra a UnB (Universidade de Brasília).

Ao concluir o curso foi aprovado no concurso da Secretaria de Saúde para técnico em enfermagem e passou a trabalhar no HRT (Hospital Regional de Taguatinga).Em seguida passou para o vestibular de medicina em uma faculdade particular de Araguari. Numa rotina de estudos de segunda e sexta e plantão de 40 horas no fim de semana, no HRT, sua rotina não lhe rendia ainda conforto algum pois o pouco dinheiro que tinha era para mensalidade do curso. Foi então que mais uma vez superou as dificuldades e através do ENEM conseguiu bolsa de estudos. Outra dificuldade que deve lhe ter feito cócegas foi o preconceito racial que enfrentou ao cursar medicina no Gama. Isso não era nada perante todas as etapas que venceu na vida. Preconceitos: Fica a dúvida se os tolos merecem ódio ou compaixão !

Essa foi a resposta que ele deu pra tudo isso em uma entrevista a um site de jornal:

"— Eu nunca pensei em desistir. Meus companheiros sempre foram os livros e a música clássica me dava leveza de espírito para seguir em frente. Eu pensava que se Beethoven se tornou um dos grandes compositores da história eu também poderia me tornar um bom médico." (...) — Eu quero justificar a confiança que meus professores e meus amigos depositaram em mim. Por isso estou focado em me tornar um bom médico, dar uma vida melhor para minha mãe e depois me especializar em psiquiatria ou pediatria. Mas ainda penso estudar Direito, quem sabe.

Ele formou-se em medicina. Hoje é aclamado, porque no mundo só é herói aqueles que tem boas histórias de superação para contar, porque elas inspiram, alimentam aquela força motriz que temos e nos esquecemos de usar nos momentos de dificuldade! Possivelmente nascemos para ser feliz, mas a vida é como numa partida de futebol que jogamos para sair vitoriosos, só que para tanto temos que vencer os adversários que estão ali para fazer gol e nos tirar de campo!

Esse ilustre desconhecido tem algo que vale a pena ser citado: perseverança! Talvez, fosse sua única saída mas ele poderia se entregar a todas as mazelas à sua volta e fazer parte delas. Mas não o fez!!

Sim, há espaço e beleza pra tudo e todos! O problema é que muitos se dão por vencidos por viverem se maldizendo da sorte que tem !

É como Nietzsche escreveu: "ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu!"

Sejamos heróis de nossa própria vida, então! Temos bons exemplos a seguir!

Carpe Diem !


Reizimar Muniz

Autora do livro de poesias "Eu, Moderno". Adora cinema, livros e amigos. (simples assim!) .
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