noites na taverna

Opcional, já que tudo é relativo !!

Reizimar Muniz

Autora do livro de poesias "Eu, Moderno". Adora cinema, livros e amigos. (simples assim!)

ESPERANÇA GARCIA, A ESCRAVA QUE ESCREVEU UMA PETIÇÃO

Tirado das coisas do mundo que nos impressionam !


Dizem que as mulheres ainda vão dominar o mundo (já ouvir falar isso), e como crença em tal "previsão" poderia citar vários exemplos de mulheres poderosas...salvo engano, a Forbes, famosa revista americana já listou as 100 mulheres mais poderosas do mundo. A ideia de poder, no caso desta lista, está diretamente relacionada a cargos ocupados, dinheiro na conta, empresa na qual emanam sucesso, posição social, etc...claro, isso é compreensível pois se trata de uma revista de negócios e economia. Essas mulheres merecem sim esse mérito, rótulo, ou seja lá a nomenclatura para tal.

Entre as grandes mulheres que entraram em destaque por seu poder ao longo dos séculos, quero destacar aqui uma pequena, sofrida e corajosa, jamais em destaque na lista dos grandes: Esperança Garcia. O seu grande feito? Ela escreveu uma petição. E o que há demais nisso? Ela era uma escrava.

espernaça garcia.jpg

Em suma, Esperança Garcia foi uma escrava que viveu na região de Oeiras na fazenda de Algodões, a cerca de 300 km de Teresina, capital do Piauí. Essa fazenda pertencia à inspeção de Nazaré, hoje município de Nazaré do Piauí. Ela entrou para a história (mesmo sua história não ganhado tanta importância) por escrever uma carta ao governador, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, em 06 de setembro de 1770 denunciando os maus tratos sofridos por ela, seus filhos e companheiras.

Escrito à mão, com os "garranchos" de sua letra, com todos os erros de português, essa petição é o documento mais antigo de reivindicação de uma escrava a uma autoridade. Acredita-se que a carta original está em Portugal, e uma cópia da mesma foi descoberta no arquivo público do Piauí pelo pesquisador e historiador Luiz Mott em 1979.

No século XVIII, mulher não era pra ser ousada. Não podia se manifestar. Não tinha voz. Não tinha vez. Imaginem então uma mulher negra, escrava?

O ser humano tem a capacidade de se superar, seja em qual século for. Seja lá quais forem suas condições.

Não posso afirmar que Esperança Garcia foi vitoriosa em sua ousadia; que seu pedido de socorro foi atendimento e seu sofrimento cessou. Mas sua coragem serviu de inspiração para muitos grupos sociais. Sua ousadia marcou época. Virou história ! A data de sua carta passou a ser, por lei, o Dia Estadual da Consciência Negra.

Esse é o texto da carta escrita por ela (com os erros de português e a linguagem original):

"Eu sou hua escrava de V. Sa. administração de Capam. Antº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Capam. lá foi adeministrar, q. me tirou da fazenda dos algodois, aonde vevia com meu marido, para ser cozinheira de sua caza, onde nella passo mto mal. A primeira hé q. ha grandes trovoadas de pancadas em hum filho nem sendo uhã criança q. lhe fez estrair sangue pella boca, em mim não poço esplicar q. sou hu colcham de pancadas, tanto q. cahy huã vez do sobrado abaccho peiada, por mezericordia de Ds. esCapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confeçar a tres annos. E huã criança minha e duas mais por batizar. Pello q. Peço a V.S. pello amor de Ds. e do seu Valimto. ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar a Procurador que mande p. a fazda. aonde elle me tirou pa eu viver com meu marido e batizar minha filha q. De V.Sa. sua escrava Esperança Garcia”


Reizimar Muniz

Autora do livro de poesias "Eu, Moderno". Adora cinema, livros e amigos. (simples assim!) .
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