noites na taverna

Opcional, já que tudo é relativo !!

Reizimar Muniz

Autora do livro de poesias "Eu, Moderno". Adora cinema, livros e amigos. (simples assim!)

Uma menina feita de trevas

A menina que roubava livros (contém spoiler)


Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler.

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Já li três vezes essa história e em todas elas me encantei novamente. Não dá pra ler esse livro e ficar indiferente. Impossível terminá-lo sem chorar, sem se apaixonar e sem sentir uma simpatia pela morte (isso soa estranho pra você?). É uma história de amor na sua forma mais pura, inocente. Aquele amor que não pede nada em troca. Apenas que esteja vivo, Max, por favor. Ou que mamãe responda aquelas cartas. Que o Rudy consiga matar o Fuhrer, ou que o papai volte da guerra e toque seu acordeão.

O amor e o ódio pelas palavras.

O amor juvenil de um sauker por uma saumensh.

Amor e ódio ao Fuhrer

Amor e ódio pelos judeus;

Pelos vizinhos...

Quando a morte narra essas coisas, a gente não questiona!

Particularmente, não conheço meus vizinhos. Há pessoas de rostos conhecidos que moram ao lado da minha casa, na mesma rua, que trabalham ao meu lado. Mas eu não sei quem é. Quais seus nomes, do que gostam, o que fazem. Aqui não é a Rua Himmel. Já nos bombardearam as emoções há muito tempo. E nunca superamos esse individualismo que arrendaram em nosso mundo.

A vida sob esse céu não tem a mesma emoção.

O mundo não é um lugar para todos serem felizes. Se assim o fosse, estaríamos no paraíso. Estamos vivendo mesmo em algo mais próximo do indiferente e longe do hedonismo, a não ser que o prazer da raça humana esteja na gradativa destruição da empatia. “junte duas medidas de estupidez...”

Rudy e Liesel se amavam.

Liesel era a garota que não sabia perder: seu irmão enterrado na neve a acompanhou por muito tempo em seus sonhos até se tornar uma lembrança dolorida sem o transtorno dos pesadelos. No entanto, seus demônios noturnos trouxeram até seu quarto nas madrugadas o seu papai, fundamental para lhe ensinar as palavras e o fortalecimento da amizade entre um pai alemão e uma filha “feita de trevas”.

Hans hubermann sabia conquistar as pessoas. Ele tinha o dom da empatia, o que poderia ser um problema numa Alemanha nazista! Era um bom pintor, um bom companheiro, um bom cumpridor de promessas. E suas promessas deram a Liesel um amigo igualmente feito de trevas. Um lutador judeu que,também nas madrugadas de seus pesadelos, lutava num ringue com seu oponente mais desumano: o Fuhrer... “Heil Hitler”!

Tantas trevas numa rua com nome de céu. Tantas histórias para um porão tão pequeno. Cabia o mundo inteiro ali:as considerações de Liesel sobre o tempo; os jornais das latas de lixo; as nuvens desenhadas na parede apertada do porão. Até mesmo um boneco de neve...e naquela casa miúda coube o desespero ao ter em sua cama um judeu preste a morrer: Max Vandenburg!

Ao se recuperar, ele, que se considerava um covarde, criou coragem para deixar aquela família que o acolheu e seguir rumo ao desconhecido para que eles não tivessem que continuar com o perigo ter um judeu no porão. Mais tarde Max foi preso e se reencontrou com Liesel sendo chicoteada por causa de um abraço e alguns pedaços de desespero. Papai Hubermann também foi chicoteado e enviado para a guerra. Conseguiu enganar a morte e voltou pra casa, mas não sobreviveu por muito tempo.

Ele e todos na rua com nome de céu foram mortos por chuvas de bombas enquanto dormiam! Houve choro e beijos fúnebres em um Rudy que não teve nenhuma chance, dados por uma menina que mais uma vez era consumida pelo abandono sem volta!

Max sobreviveu! Liesel, agarrada às suas palavras, sobreviveu, mas não ficou com ninguém quem a chamasse de “saukerl” ou que tivesse cheiro de tinta e cigarro, o cheiro da amizade e do amor...


Reizimar Muniz

Autora do livro de poesias "Eu, Moderno". Adora cinema, livros e amigos. (simples assim!) .
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