(Foto de Cartier Bresson)
Enquanto as máquinas fotográficas não se popularizavam todos estimavam serem registrados em chapas, filmes e papel por serem raras as oportunidades de imortalizar um momento em suas vidas. Houve quem repudiasse a ideia por não entender o mecanismo e crer que a própria alma fosse roubada se a fotografia o capturasse, mas bastante gente estava disposta a até pagar para ver. Um completo estranho tinha a permissão de fotografar de repente uma cena do quotidiano que lhe despertasse algum sentimento, sem pedir permissão aos componentes da tal cena, e aqueles ficariam lisonjeados. No entanto esse tempo acabou.
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Onde quer que se vá hoje em dia há uma câmera. Poucos eventos passam sem o testemunho de uma imagem perene. A fotografia se popularizou, porém, junto a isso, uma paranoia em relação à privacidade se instaurou na sociedade e, ao menos que o fotógrafo seja minimamente familiar, é preciso ter cuidado ao capturar aquela cena do quotidiano. E essa preocupação com a vida íntima “revelada” é uma provável hipocrisia, já que quando a máquina está nas mãos conhecidas, uma foto evidência às vezes constrangedora vai parar nas páginas públicas da internet.
Bom, os fotógrafos já estavam preparados para o fenômeno restritivo antes de este ocorrer. As máquinas compactas foram ganhando mais e mais usuários desde 1925 com o lançamento da Leica. E em 1991 a Kodak lançou a primeira máquina que pode ser considerada câmera digital cujas fotografias perdiam em muito para a qualidade das analógicas. Sem problemas, pois, conforme essa tecnologia avançava, essa distinção foi atenuada, ao menos para a leiga sensibilidade visual. Tanto faz para um tamanho de foto comum se ela tem 10 ou 37.5 megapixels. Fora a reduzida no tamanho dos aparelhos. Qualquer um pode se tornar um espião com uma “super” câmera na caneta ou no celular.
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No dia 11 de junho de 1997 o empresário Philippe Kahn fez a artimanha de combinar uma câmera digital com seu celular para enviar a foto de sua filha recém-nascida para mais de duas mil pessoas em tempo real. Foi criada a maior tendência da atualidade, misturar toda bugiganga possível em um único aparelho. O que não falta em todo lançamento de celular é uma câmera acoplada e esses celulares são a nova Leica. Faz filmes em alta definição e é muito discreta. Agora só depende de o profissional preparar uma composição bem pensada, cheia de sentimentos e sem ser flagrado em um flagrante.
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Existe muita liberdade, é uma anarquia, não se respeita nem onde começa o espaço do outro e isso é bom. É necessário para que sejamos bons. Acontece que enquanto ninguém é plenamente bom como era na inocência dos anos dourados é melhor se esconder. Porém a nova câmera escondida vai te pegar e você não vai nem saber.
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Comentários
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Anonimo
Fim da privacidade!
Chato para os bons, péssimo para os maus.
Vc nunca está sozinho, há sempre uma câmera te fotografando/filmando.
Sergio
Vai chegar um tempo em que a privacidade será monopolizada por grandes empresas e vendida aos simples mortais a preço de ouro.
Belo texto.
Parabéns !
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