Danilo Baldacini

A estética difícil eleva o espirito.
A excelência aparece no horizonte.

ORFEU

Eis a lenda do maior músico, e um dos grandes aventureiros de quem não se passa a vida toda sem ouvir falar.


Charles Coypel (1694-1752) la muse calliope.jpgCharles-Antoine Coypel

Orfeu é filho de Ôiagro, que lhe conferiu um caráter divino, e Calíope, por isso o talento para as artes. Em outra versão ele seria filho de Apolo e Calíope, e em outras de Poliímnia ou Menipe. Nasceu e morou na Trácia aos arredores do monte Olimpo. A lenda diz que, de tão melodioso, apaziguava os brutos e animalescos, anestesiava os animais e estes o seguiam ao som de seu canto e sua lira, e até as árvores se curvavam à sua passagem; era fluente na música a ponto de ser considerado o inventor da cítara e ter aumentado o número de cordas da lira de sete para nove; sua lira foi um presente de Apolo; durante a expedição dos argonautas Orfeu marcou a cadência dos remadores e os salvou da certa perdição de se deparar com as sereias, quando as sereias tentavam a tripulação com canto, Orfeu entoava cantos mais agradáveis que os delas.

A ninfa Eurídice era maravilhosa como toda ninfa, símbolo que inspira desejo; casou-se com Orfeu. Um dia sofreu uma tentativa de estupro e, ao correr de Aristeu, filho da ninfa Cirene e de Apolo e criado por Gaia e Horas, e difusor da elaboração de laticínios e apicultura entre os homens, pisou numa cobra que a picou e a levou ao óbito. Aristeu teve suas abelhas dizimadas como castigo. 11france.jpgWilliam Blake

O herói desceu ao Tártaro e desbravou. Ludibriou cada ser místico que o podia impedir. Com sua música, encantou até Perséfone e Hades, rainha e rei do mundo dos mortos. Foi concedido a Orfeu o direito de sair do Tártaro com sua esposa viva com a capciosa condição de que ele não poderia olhar para Eurídice, que o seguiria mais atrás, enquanto ela estivesse ainda no Tártaro. Imediatamente quando saiu, vacilou, se virou e viu a porta se fechar engolindo sua amada antes que ela pudesse também sair. Ela foi perdida para sempre.

Orfeu ficou desolado. Não demorou muito para que Zeus o fulminasse com um de seus raios por ter, Orfeu, revelado alguns mistérios do submundo. Sua lira se tornou constelação, e ele foi para os campos Elíseos, lar dos heróis. Na África aconteceu uma história bem parecida. Um cantor morto em 2009 teria aparecido vivo e contando histórias infernais sobre feitiçaria e zumbis. Este ainda não foi acertado por nenhuma seta divina. As autoridades o acusam de fraude, mas familiares o reconhecem como o legítimo Khulekani 'Mgqumeni' Khumalo, cantor popular na África do Sul.

af5-26_72.jpgAkira Fujii

Mitos têm grande importância no entendimento da antropologia. Todo o simbolismo e a inspiração que um mito da categoria do de Orfeu, cada versão, é um ensinamento de vida, é um manual de comportamento. Como definiu Claude Levi-Strauss, o mito é a soma de todas as suas versões. Se os homens podem virtualmente incorporar esses ensinamentos em suas personalidades, então os homens são iguais em possibilidades. E, no futuro, não haverá necessidade de mitos, o humano será completo e consciente, não precisará dos exemplos e tentativas de explicar fenômenos.

A música serve para elevar o ouvinte ao estado metafísico, simular os sentimentos. Orfeu chegou ao nível máximo dessa habilidade e todos que ambicionam fazer música estão tentando tocar seu semelhante, ditar o humor.

perrier orphée devant pluton.jpgFrançois Perrier

Orfeu é fraco e apaixonado, por isso a grande maioria da população se identifica com ele, é a razão de ser uma das histórias perenes da mitologia grega. É invejável por chegar ao limite de uma habilidade que todos têm intuitivamente. Mesmo os desafinados e sem ritmo adoram ouvir a organização dos sons com intenção estética, assobiar, murmurar ou apenas imaginar melodias. Com exceção dos suicidas, talvez, não há quem não quisesse regressar do inferno, caso fosse lá parar, e parar nos Campos Elíseos.


Danilo Baldacini

A estética difícil eleva o espirito. A excelência aparece no horizonte..
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