Danilo Baldacini

A estética difícil eleva o espirito.
A excelência aparece no horizonte.

PELO REQUINTE POÉTICO

Mais importante que o conteúdo dos temas da poesia é a estética, para apartar os períodos estilísticos. Os primeiros escritos da civilização ocidental são poemas hexâmetros dactílicos – a obra atribuída a Homero; hoje há liberdade plena para escolher o padrão dos poemas. É da importância da estética difícil que se trata esse artigo.


A Ilíada, a Odisséia e os hinos homéricos estão formados em hexâmetros dactílicos, uma estética impertinente ao idioma português , já que utiliza a diferença entre sílabas poéticas longas e curtas. Dáctilos são “pés” compostos cada um de duas sílabas curtas e uma longa. Em grego arcaico parece ser fácil criar esse tipo de verso, dada a quantidade dos poemas que chegaram a este tempo. Em latim essa estética também se mostrou versátil – desde a Eneida até a idade média – mas são línguas que não fazem parte do cotidiano de nenhuma nação. Alguns tradutores optam por fazer os versos em dezesseis sílabas para assemelhar aos hexâmetros.

C_Dandini_La_Musa_Calíope_bowes_museum (1).JPGCalíope de Cesare Dandini

A idade média, com seu rigorismo teológico, explorou todas as possibilidades técnicas das rimas e da sintaxe no hexâmetro dactílico. Feitos pelos dedicados e cultos padres, os poemas mais complexos eram de temática religiosa. A literatura parece brincar com a posição das palavras e desafiam a linguagem a formar pares rimados em momentos surpreendentes como nessa metalinguagem em latim de Bernard de Cluny, um idioma estranho a mim, mas com notável esquema estético.

Ne stupeas, lector, quia sepe Leonica sector: Gratis grata sonis admisceo metra Leonis. Nunc versus planos aro scilicet Ovidianos, Nam querunt illos quidam, quidam magis istos. Est aliud quare metra parco Leonis arare: Versus enervat qui verba Veonica servat, Nec succinctus erit qui dicta Leonica querit. Ergo commixtos nunc illos, nunc sequor istos.

Quando os literatos resolveram acabar com a idade das trevas e resgatar os escritos clássicos, desenvolveu-se a métrica e o ritmo típicos do soneto. A inspiração proporcionada por esse resgate cultural fez com que Camões e Dante redigissem seus poemas épicos com rara dedicação, quase sempre com o hemistíquio na sexta sílaba, a mais tonante. Eles impulsionaram a força intelectual desde então. Shakespeare também, adaptou os pés do pentâmetro iâmbico. Ao invés de utilizar sílabas longas e curtas, fez com a diferença entre a tonicidade delas.

18521.jpgSoneto de Camões

Até os dias de hoje houve vários períodos estilísticos, com mais ou menos apego à elegância dos sonetos. O barroco e o parnasiano puxaram a técnica para o alto, o arcadismo e o romantismo se preocuparam mais com o sentimento que se passou, mas ainda com algum respeito... Até que surgiu o modernismo emburrado e parou de falar ao parnasianismo. Aí virou festa e até quem não deveria virou poeta. Melhor é ser pós-moderno e dominar cada estilo, inclusive o leviano moderno. Assim se ganha repertório e liberdade nos versos. E fica evidente o respeito que o autor tem pela sua arte. Porque de acordo com a graduação de complexidade se altera o nível de solenidade.


Danilo Baldacini

A estética difícil eleva o espirito. A excelência aparece no horizonte..
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