Danilo Baldacini

A estética difícil eleva o espirito.
A excelência aparece no horizonte.

ARTE, EM SUA VANGLÓRIA

Fato é que desde que Manet pintou por pintar, e chocou a sociedade com temas levianos, virou moda. E a culpa deve recair em gênios que encontraram como melhor solução esconder a temática séria em meio a frivolidade das recomendações de mecenas ou do Leviatã.


Se até nos dias atuais a liberdade é um conceito com definição extremamente subjetiva e ainda é mal difundida, deve-se resgatar a idéia de que sempre houve censura. Saindo da era das trevas, como também é conhecida a Idade Média, quem trabalhou pelo renascimento cultural não foi radical o suficiente para divulgar evidentemente tudo o que queria. Todo o tipo de arte tem suas camadas de entendimento dependendo do quão treinado e demorado é o olhar de quem o consome. Um rápido exemplo é o esboço anatômico (não somente nos corpos de musculatura saliente, nas figuras formadas subliminarmente) em diversos quadros de Michelangelo.

640px-Michelangelo_-_Creation_of_Adam.jpgAfresco de Michelangelo

Foi seguindo o tempo, desde então, o surgimento de técnicas; e temas; e focos diferentes em uma sociedade cada vez mais complexa. E os artistas sempre buscando em gênios já consagrados, cujas obras abordavam temas grandiosos, o momento sublime de seu próprio tempo. Entretanto veio Édouard Manet. Mais um digníssimo artista que tentou dignificar seus antecessores. Alguém com estudo que sabia de onde vinha e aprendera técnicas do mais alto nível, mas que por insistência ou arroubo de uma meta-força estética optou em ampliar o repertório técnico do campo das artes sem se ocupar em passar nada exceto a própria libertação da tradição. Os quadros são do tipo natureza morta, com enredo acidental. Exibicionismo do processo de pintar. “Olympia” e “Almoço na relva”, talvez seus quadros mais famosos, pintados antes dos anos dourados de descobertas de novas liberdades da “Belle Époque”, escandalizaram a sociedade. Nota-se o desespero em chamar a atenção de qualquer jeito também no quadro “Incidente na Tourada”, terminado antes de sua revolução técnica e posteriormente fragmentado por causa da crítica que o considerou demasiado violento.

640px-Olympia-manet.jpgOlympia (1863), Edouard Manet, Musée d'Orsay

Olympia é um dos quadros atacados no convincente livro: Libelo contra a Arte Moderna de Salvador Dalí. Depois de bem aceito por uma pequena parte da crítica, este quadro abriu espaço para uma nova maneira de se fazer arte, muito mais ampla que a corrente impressionista da qual faz parte. A fotografia estava tomando todo o espaço da pintura realista. Era preciso repensar a pintura, realmente. A crítica soube que o que agregava valor a sociedade não era a idéia inteligível discreta de maneira complexa, mas a estética empática. A maioria das pessoas não quer ser analítica quando ouve uma música, por exemplo. Conseqüência disso é uma arte aparentemente ininteligível, com estudos experimentais de novas formas; cores; sons; sem limites nem previsões firmes de aprovação geral. Faz-nos lembrar Paul Klee.

Semana_de_arte_moderna_1922.jpgCapa do catálogo da Semana de arte moderna 1922 Brasil

O modernismo é sinônimo de progresso. Este não é um texto pessimista. Fazendo uma parcial do que ocorreu até agora, o saldo é positivo. É surpreendentemente agradável descobrir que as esculturas de Rodin não estão mal acabadas, que, na verdade, as marcas das faixas protetoras nas obras ou a pedra ainda bruta em determinadas partes como se a obra quisesse ser concluída são testemunhas do “MODUS OPERANDI” do autor. Ah, o Klee não poderia ser mais subjetivo ao galgar a metafísica, intuindo a liberdade das formas e cores. Assim como numa música há notas que “pedem” outras, Klee acreditava prever o que aconteceria se uma linha abstrata transpassasse uma circunferência, por exemplo. E Carlos Drummond, para não excluir outros tipo de artes, que escreveu para se lembrar que mesmo com tantos elementos que o mundo pode oferecer, alguns aparentemente indigeríveis, é possível encará-los com leveza e bom humor, de quebra os simplificando.

640px-Graffiti_piece.jpgParte de Graffiti Eslováquia

Agora os produtores de arte não precisam ter o olhar treinado. Porque é difícil estar pronto para tudo. Alguns artistas como Miró tentaram dar a devida importância aos símbolos arcaicos, com uma roupagem moderna. Mas é tudo tão difícil de lembrar, e mesmo enxergar. Quem ficou consagrado mais recentemente foram os que fizeram pela cultura mais que planejavam, e morreram sem saber o tamanho de sua contribuição. Manet e Andy Warhol escorregaram na arte.

A arte contemporânea apresenta, cada vez de maneira mais diferente, o que já se viu desde sempre: Algumas críticas sociais, algum sentimento, contexto histórico, etc... Essa arte amplia nosso campo semântico sem querer, cria através da criptomnésia, e o crítico goza desvendando sua referência.


Danilo Baldacini

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