nostálgicas primícias

a primeira vez que vi o futuro

Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco).

Um Pequeno Ensaio Sobre o Fracasso

A ideia do fracasso é assustadora. Ainda mais em um mundo no qual somente a notoriedade e a riqueza parecem ter vez. No entanto, o fracasso pode significar liberdade e conhecimento. Basta aprendermos a fazer das falhas possibilidades.


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As manchetes dos jornais que informavam, diariamente, sobre o desempenho brasileiro nos 30º Jogos Olímpicos, realizados em Londres, no ano de 2012, durante o mês de julho ao mês do “cachorro louco”, estampavam uma palavra sonora e, de certo modo, feia, que gera, a muitos de compleição frágil, uma tremenda angústia: fracasso. “Fabiana Murer fracassa...”, “Cesar Cielo fracassa...”, “A seleção de Mano Menezes fracassa...”, “O basquete feminino fracassa...”. Não alcançar o resultado almejado ou, nesse caso específico, que se esperava que se alcançasse (expectativa de uma mídia que pouco difunde o esporte no Brasil – não assistimos transmissões de jogos de tênis, nem da liga nacional de basquete feminina, muito menos nado sincronizado, levantamento de peso ou badminton ao vivo –, de um público que não conhece as regras dos esportes e nem o nome dos atletas e de dirigentes que recebem grana para eleger por anos a fio o presidente de alguma federação esportiva e que costuma ser expert em caixa dois) origina uma crise sobre o futuro do esporte no Brasil e a dúvida se os nossos atletas – sem incentivos, patrocínios, de vida agreste, para muitos, o esporte foi uma forma de fugir da miséria – estão preparados mentalmente para ganhar, serem vencedores, ídolos, lendas do esporte. A quinta maior economia e o sexto país mais populoso do mundo não consegue produzir campeões olímpicos que ratifiquem seu favoritismo e conquiste o tão sonhado ouro (pois, muitos possuem títulos mundiais, o que os credenciam ao posto mais alto do pódio) para “um povo sofrido que vibra, ora e chora por/com eles”. Esse singelo texto não é sobre a participação da delegação brasileira em Londres 2012, mas um pequeno ensaio sobre o fracasso, como lidamos com as falhas, com os acidentes neste mundo contemporâneo no qual a palavra de ordem é sucesso.

Lembro-me de uma sentença do escritor britânico Charles Dickens, autor do magnífico romance “Grandes Esperanças”, “Cada fracasso ensina ao homem algo que precisava aprender”. Não há aprendizagem sem falhas. Não há conhecimento que não impute certo sofrimento. Porém, no outro extremo, não há sucesso que não signifique perda. O neoliberalismo pretendeu fabricar um ser humano vinculado a triunfos sequenciais, praticamente ininterruptos. Neste mundo de inúmeras opções de carreiras, as expectativas são altas, e a ideia básica é, “Você pode ser o que quiser. Basta ter força de vontade, ter tenacidade, ser eficiente”. Porém, nessa frase anulam-se os acidentes, o fato de nem sempre termos o talento para exercer uma função (reconhecer isso não é fracasso, mas admitir a possibilidade de construir uma nova vida). Em entrevista a Jô Soares, no Programa do Jô, em 28/11/2001, Antônio Abujamra disse ao grande comediante e chato entrevistador, “Você precisa de um fracasso, Jô”. Abujamra teve inúmeros fracassos, Jô Soares aparentemente nenhum. Quem nunca fracassou, não viveu o suficiente. Logo, o fracasso é necessário. Recordemos de Charles Dickens.

Zygmunt Bauman, a partir do pensamento de Ulrich Beck, postula que hoje precisamos encontrar soluções biográficas para contradições que são sistêmicas, “Os riscos e as contradições continuam sendo produzidas socialmente; são apenas o dever e a necessidade de lidar com eles que estão sendo individualizadas” (Zygumnt Bauman, A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2008, p. 65). O que vale dizer que homens e mulheres vivem sob a égide do desamparo institucional. Somos responsáveis pelos nossos infortúnios e vacilos, e se não triunfamos fora por inadequação e incompetência, não podemos transferir culpas ou elaborar acusações. O leitmotiv neoliberal, “O indivíduo deve se fazer sozinho” contém seu oposto, “O indivíduo deve sozinho arcar com suas falhas”. Como nos lembra Bauman, “(...) agora, como antes, a individualização é um destino, não uma escolha (...)” (Ibidem, p.64). A fuga não faz parte do pacote da individualização. Mas a depressão, a angústia, a síndrome do pânico e o estresse sim.

Toda a loucura do mundo contemporâneo traz à baila a obra do escritor tcheco Franz Kafka. O autor de “O Processo” denunciou como a falta de esperança pode anular a coragem de rejeitar tudo aquilo que se configura como um grilhão pela ordem vigente: a burocratização da vida, a formação de hierarquias, que permaneçam incontestáveis, a construção de um modo de vida que impeça a compreensão da realidade simbólica que nos rodeia. Kafka escreveu sobre o fracasso, um fracasso modelado que resulta do poder do entendimento, de não estar sob o jugo de forças exteriores, como o próprio esteve sob o domínio do pai autoritário, irônico e especialista em disparar frases desestimulantes. O cenário emocional no qual o autor de “O Castelo” viveu, o fez aspirar ao fracasso, contudo um fracasso seu, não intermediado por terceiros, não insuflados pelo misto de ferocidade e negligência paterna. Kafka foi a vítima lúcida, nada autocomplacente, um desbravador em denunciar a obsessão da sociedade moderna pelo triunfo na vida, que aviltava o ser humano, e condenava cavalheiros e damas a falta de esperança ou a se exilarem na solidão. Kafka, que pediu ao amigo Max Brod que queimasse todos os seus escritos depois de sua morte (o que não foi atendido), deixou uma obra da distorção que classificou o fracasso como impulso da compreensão da vida.

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Recentemente ao assistir à participação do filósofo Alain de Botton no programa TED - Ideas Worth Spreading (www.ted.com/talks/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success.html), ideias sobre o sucesso e o fracasso na contemporaneidade me pareceram confinar a disputa entre expectativa e realidade em um labirinto, onde a porta é visível, mas o caminho para se chegar até lá permanece misterioso, tortuoso, apesar dos avisos e das receitas fixadas em cada parede. Alain de Botton ao falar sobre as nossas carreiras, e do mundo selvagem do mercado de trabalho, expõe que a vida cotidiana afugenta qualquer compreensão do fracasso como oportunidade de aprendizado, como salientava Charles Dickens. De Botton defende que um dos atuais motivos para condenação do fracasso é o esnobismo, que vem a ser o uso de pequena parte de nossa vida para determinar o que temos de ser. Ou seja, a pergunta, “O que você está fazendo? Trabalha em quê?”. A isca jogada, dependendo da resposta, cessa a curiosidade e a boa camaradagem do encontro. “Que fazes?” é a pergunta que decide o respeito que teremos em relação ao outro, que definirá a hierarquia social na qual nos cingirá o olhar do outro, pertencente, potencialmente, ao entendimento coletivo. “Num mundo repleto de opções e carreiras, como você não aconteceu na vida?”, é o que os lábios formulam e os olhos dizem.

O filósofo suíço afirma que há dois tipos de livros de autoajuda hoje: sobre conquista e sobre baixa autoestima. Livros que denunciam a contradição inerente de um sistema que fomenta a ambição desmedida e a frustração em um equilíbrio assustador. O mundo atual pretende fabricar vencedores, múltiplas receitas de como triunfar em qualquer coisa desfilam nas vitrines das livrarias. Do mesmo modo, livros de como lidar com a frustração, com o medo do fracasso, com a inabilidade de conviver com as falhas, enchem prateleiras das mesmas livrarias.

E para completar a excursão pelo pensamento de Alain de Botton, temos a crítica à tese da meritocracia para distribuir os dividendos sociais relacionados ao esforço e trabalho dos indivíduos, pois, por mais que pareça justo que os melhores se elevem pelo seu talento, firmeza ou destreza, há um grande problema: tal noção leva a entender que os que estão por baixo merecem estar nessa posição/situação e que podemos controlar todas as circunstâncias que envolvam uma decisão. Em suma, anula-se o acaso. Segundo de Botton, “Isso faz com que o fracasso pareça mais esmagador”. Antes, na Inglaterra da Idade Média, os que não alcançavam triunfos na vida eram considerados desafortunados, ou seja, a sorte não havia lhes sorrido. Hoje, porém, as falhas constituem um perdedor, alguém que não possui a coragem dos riscos, o loser que assombra os estadunidenses, e agora, graças à difusão da cultura do sucesso a qualquer preço, o mundo ocidental todo. Quem assistiu ao filme “Jerry Maguire – a Grande Virada” (1996), de Cameron Crowe, com Tom Cruise como a personagem-título, lembra-se da cena em que a noiva chama Jerry de perdedor. O sujeito fica transtornado e ela assustada, logo, retira o que disse. Mas já o havia ferido e transmitido sua mensagem. O fracasso, para Alain de Botton, não é um incômodo lancinante por promover tão somente a perda de rendimento ou de status, mas pelo medo do julgamento e ridicularização perante aos outros. Por isso, o filósofo suíço fala sobre a importância de termos certeza de que nossos sonhos de sucessos são nossos, devemos nos certificar de que cada passo e cada escolha é resultado da ambição engendrada por nossa vontade de construir algo.

O fracasso necessário não precisa ser um fracasso arquitetado. Afinal, quem quer enfrentar inúmeras vozes de acusação e centenas de sorrisos de desprezo? Mas há uma diferença entre aquele que aceita o fracasso, porém não se rende a ele, e aquele que apenas conhece o sucesso: o primeiro ganha a liberdade de falar o que quer, de ousar e de combater a ordem vigente; o segundo acaba por ser defensor do establishment, aludindo, pelos seus triunfos sucessivos, o status quo que o sustenta. Pode ser que nada precise ser levado a ferro e fogo, mas quando o fracasso ocorre nem sempre é fundamental “procurar chifre na cabeça de cavalo” ou “fazer tempestade num copo d’água”. O elemento de fatalidade existe, o acidente é real, e nem tudo carece de explicação. Como bem sabem os atletas, “O fracasso de hoje pode ser o início do sucesso tão sonhado”. Quando esse for, realmente, um sonho seu, boa sorte! Para encerrar, um trecho da música “O Vencedor” da banda Los Hermanos:

“Olha lá, quem acha que perder É ser menor na vida Olha lá, quem sempre quer vitória E perde a glória de chorar Eu que já não quero mais ser um vencedor Levo a vida devagar pra não faltar amor”.


Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco)..
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