nostálgicas primícias

a primeira vez que vi o futuro

Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco).

A Invenção na Arte - Devires e Sensações na Filosofia de Deleuze e Guattari

A invenção na arte mobiliza devires e sensações. Para Deleuze e Guattari, a literatura, o cinema e demais gêneros artísticos, produzem blocos de sensações que valem por si mesma e ocorrem, independentemente, do seu criador (o artista), do público (aquele afetado pela obra de arte) e demais fatores externos.


tríptico.jpg Três Estudos para uma Crucificação de Francis Bacon

Em quantas declarações, palestras, textos, conversas de bar, a frase “o artista é um inventor” já foi pronunciada, exaltada, contestada, reafirmada. A arte como invenção, segundo uma pulsão (mais do que um impulso) de transgressão. Em todas as épocas, a arte se caracterizou por provocar o diálogo entre o paradigma – a norma, o estabelecido – e o novo – a invenção, a ruptura. A partir desse colóquio, geralmente, não amistoso, surge um momento de rompimento com as regras, um enfrentamento às tentativas de modelo único. A arte pode ser entendia como manifestação da originalidade. Invenção de um mundo. Invenção de um fingimento como em "Auto psicografia" de Fernando Pessoa.

"O poeta é um fingidor. Finge tão completamente /Que chega a fingir que é dor /A dor que deveras sente. /E os que leem o que escreve, /Na dor lida sentem bem, /Não as duas que ele teve, /Mas só a que eles não têm. /E assim nas calhas de roda /Gira, a entreter a razão, /Esse comboio de corda /Que se chama coração."

Essa dor é uma invenção do poeta. Uma dor-poema. Poucos pensadores do século XX trataram tão a sério o vocábulo invenção quanto Gilles Deleuze e Félix Guattari naquilo que concerne à produção artística. A capacidade da arte em mobilizar sensações e de prolongar o instante possibilita aos mundos engendrados na concepção artística permanecerem independentes de fatores externos que comungam para a sua aparição. “A arte conserva e é a única coisa no mundo que se conserva”, escrevem Deleuze e Guattari, em “O que é a filosofia?”. Ela se conserva por romper com o conservadorismo de cada época; a arte vence o tempo, pois é atemporal, mesmo que filha de seu tempo dialoga com o passado perspectivando o futuro. Deleuze e Guattari, em “O que é a filosofia?”, delineiam como a obra de arte sobrevive em meio ao processo que faz vibrar e surgir a arte: a ideia, a elaboração, o objeto artístico, a recepção, o contexto etc. A arte prescinde de todos esses dispositivos que forjam uma relação com cada ponto. Ela não depende dos seus materiais, não depende do “modelo”, ela é independente do espectador e, na mesma medida, do criador. Os filósofos franceses quando definem essa não-presença de um vínculo de autoria, de contextualização ou da experiência libertam a arte da prisão do estilo, do olhar, da história. “Ela é independente do criador, pela auto posição do criado, que conserva em si. O que conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, isto é, um composto de perceptos e afectos”.

o-vagabundo-e-a-florista.jpg Charles Chaplin em "Luzes da Cidade" (1931)

É preciso relatar que os perceptos não são e nem se originam da percepção; os afectos não são os sentimentos, o enternecimento contido na afetividade; os afectos são a extrapolação da afecção, ultrapassam aquele que é atravessado pela sensação mobilizadora. Segundo Deleuze e Guattari, “As sensações, perceptos e afectos, são seres que valem por si mesmos e excedem qualquer vivido”. Guattari, em "Caosmose", reflete que a arte é potência de emergência, expressão do pensamento, que se configura como invenção de possibilidades de vida; um compromisso com a diferença e não com o indivíduo. A arte se interpõe aos papéis estabelecidos, cruza relações entre distintas matérias, distintos processos de criação.

A arte é vista por Deleuze e Guattari como um ser de sensação que existe em si. Ser que para em pé sozinho; não precisa de um agente eterno para sustentá-la. “Manter-se de pé sozinho [...] é somente pelo ato pelo qual o composto de sensações criado se conserva em si”. A obra de arte se sustenta sozinha, mesmo que não volte a ser executada, reproduzida, exibida novamente. Os blocos de sensações, compostos de afectos e perceptos, precisam de vazios (a sensação se compõe com o vazio) para que a obra de arte possa se expandir. Esses vazios constituem possibilidade de transformação. Um espaço de atuação no qual os perceptos e os afectos são da ordem do não humano, e estes somente são atingidos quando apartados da experiência. O percepto, assim podemos avaliar, não é um signo, nem representação de algo; o percepto e o afecto, esclarecem os filósofos (de maneira alguma de forma sumamente racional, ainda mais se considerarmos que a arte não é constituída pelo raciocínio ou pela percepção), fazem nascer mundos na ausência do homem.

Lúcio Kume, Capa Kafka, 2000.jpg "A Metamorfose" (1915) de Franz Kafka

Deleuze e Guattari apresentam métodos para “caracterizar grandes monumentos ou ‘variedades’ de compostos de sensação”. A saber: a vibração, o enlace, o recuo, a divisão, a distensão. A arte imersa ou fomentada por esses elementos engendra um monumento (que parece ativar a memória, mas não está “acorrentada” a ela), monumento este que não celebra o passado, mas presentifica o acontecimento, “O ato do monumento não é a memória, mas a fabulação. Não se escreve com lembranças da infância, mas por blocos de infância, que são devires-criança do presente”. A literatura (assim como o cinema, a música) inventa perceptos – que são paisagens anteriores ao homem – e afectos – devires não humanos, personagens. Pela literatura o conceito de devir se expande, se personifica (sem, no entanto, se cristalizar ou ilustrar); o devir não é atingido por meio de uma fórmula, seja por conversão, mimese ou identificação. O devir é aquilo que está em via de acontecer, aquilo que se mostra inacabado, incompleto, que nunca é plenitude, apesar de conter a potencialidade de ser. O devir, para Deluze e Guattari, é sempre minoritário, anti-hegemônico, subalterno; é devir-mulher, devir-louco, devir animal; devir-outro da língua, em processo de decomposição da língua hegemônica, da língua materna, da língua da pátria. E é nessa senda que caminha a literatura, evitando a individualidade, a narração da própria vida. Escrever não é uma forma de representar a experiência. O devir é caminho de fuga. Ruptura com o “eu” egocêntrico, o “eu” fraco que fala de si. “Embora remeta sempre a agentes singulares, a literatura é agenciamento coletivo de enunciação”, argumenta Deleuze, em “Crítica e clínica”. O que quer dizer que a literatura é o devir de um povo menor, delírios de raças, tribos, que, desalojados da histórias universal, criam o recurso da exposição, do discurso. De acordo com Deluze, “Todo o delírio é histórico-mundial, ‘deslocamento de raças e de continentes”. Autores como Franz Kafka, Hermann Melville, Virgínia Woolf, Lewis Carroll, D. H. Lawrence têm seus escritos observados como passagens, fronteiras, locais de atravessamento. Esses devires não se configuram de opiniões coletivas ou pessoais do autor, não são autobiográficos, no entanto, se constituem de perceptos e afectos existentes nesses conjuntos, “A fabulação criadora nada tem a ver com uma lembrança mesmo que amplificada, nem com um fantasma”, postulam Delueze e Guattari.

contemporaneo.jpg Dança Contemporânea ou Backup Dancing

Ovídio de Abreu nos fala que a partir da proposta de fabulação criadora de Henri Bergson, Deleuze e Guattari desenvolvem uma tese que prioriza a invenção na arte e a possibilidade de devires, “a fabulação é uma ato de criação, um devir que projeta o artista em direção ao caos para, dessa relação, extrair uma composição de sensações (ABREU). Devires que não procuram a identificação, mas sim o novo, zonas de indiscernibilidade; um devir-máquina na relação com toda a produção tecnológica no mundo, o indistinto entre o maquinal e o humano. Guattari postula em “Caosmose” que, “A máquina, todas as espécies máquina estão sempre nesse cruzamento do finito e do infinito, nesse ponto de negociação entre a complexidade e o caos”. Todas as relações possíveis sem apelar para referência ou o signo. Devires que contemplam o caos e o complexo. Uma vida de contingências que é afetada pelos objetos que produzem afectos, perceptos, bloco de sensações. Assim, compondo uma expressão estética. A arte é o mundo da invenção. O artista inventa um mundo de ideias em ideias que o supera e independe de sua vontade, de suas razões ou explicações. Nesse processo não se forja uma representação, mas se gera uma sensação que é intrínseca a afetação causada pelo objeto. Nessa via é que a arte atua como invenção. Invenção que Deleuze e Guattari souberam celebrar libertando a arte dos grilhões da representação, do contexto histórico e da opinião.

Para finalizar, a reprodução do poema “Guerra civil” de Miguel Torga, que parece, por mais enviesada que seja a proposta, apropriada para captar um bloco de sensações em uma elaboração poética que inventa um caminho de fuga, um devir-criança que interroga o adulto, que olha-o profundamente e para si mesmo; uma situação de contestação individual que atinge um agenciamento coletivo de enunciação, que parece “mergulhado” no eu, num projeto de engajamento de salvação de si mesmo, mas é a posição de um homem que se confronta, que se faz e perfaz, porém sempre inacabado, um devir, um caminho de fuga, uma invenção.

"É contra mim que luto /Não tenho outro inimigo. O que penso /O que sinto /O que digo /E o que faço /É que pede castigo /E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança /De criança /E de adulto. O que sou é um insulto /Ao que não sou /E combato esse vulto /Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura, /Peço à vida outra vida, outra aventura, /Outro incerto destino. Não me dou por vencido /Nem convencido /E agrido em mim o homem e o menino." (Miguel Torga. "Guerra civil").

A invenção é a principal ideia do artista. Somente uma ideia que seja invenção é passível de vir à luz, “[...] a arte ergue monumentos com suas sensações [...]” (Deleuze e Guattari). Inventar mundos é a condição ao qual o artista está “condenando”.

Referências

ABREU, Ovídio. A arte na filosofia de Deleuze. In: Os filósofos e a arte. Fernando Muniz... [et al...]. Organização Rafael Haddock-Lobo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Tradução Peter Pál Pelbert. São Paulo: Ed. 34, 1997.

_________ & GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Ed. 34, 1992.

GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. Tradução Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Ed. 34, 1992.

RANCIÈRE, Jacques. De uma imagem a outra? Deleuze e as eras do cinema. Tradução Felipe G. Soares. In: www.intermedias.com. Acesso em 20/04/2010.


Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco)..
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