nostálgicas primícias

a primeira vez que vi o futuro

Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco).

Tatuagem: lirismo e política em um corpo manifesto como arte

Com o amor à liberdade como ponto central, em uma estória transcorrida durante os últimos anos da ditadura civil-militar, "Tatuagem" celebra o corpo como instância das resistências artística e política.


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“Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda, é uma espécie de primo existencial de “Febre do Rato” (2011), de Claudio Assis. Não à toa, Lacerda é o roteirista das obras de Assis. Se a arte em “Febre do Rato” contesta, liberta, redime e resgata a partir de uma ideia de coletivo que pode desempenhar e propagar; em “Tatuagem” – passado no final da década de 1970, período de esmaecimento da repressão da ditadura civil-militar, que mesmo desgastada ainda exercia através da brutalidade sua faceta mais irascível –, ela explora o campo das transformações comportamentais que irradiam uma ideia revolucionária, calcada em uma defesa de libertação do corpo, de negar a disciplina a qual esse corpo é cruelmente condicionado. Assim, encontramos em “Tatuagem” uma ode à independência do corpo, de um corpo múltiplo, sem limites, marginal, pois é instância de posicionamentos políticos, que tem na arte seu leitmotiv.

Em “Febre do Rato”, na figura do poeta Zizo (o talentoso Irandhir Santos), temos um artista que busca modos de transcender o individual, para dar voz ao seu coletivo, fazendo do corpo poesia e luta política. Clécio (mais uma vez Irandhir), o protagonista de “Tatuagem”, caminha por essa mesma senda, sendo líder de um coletivo, de um grupo de teatro, que faz da contestação e do corpo armas contra os convencionalismos morais e contra a repressão política. A marginalidade é a tônica, e a fotografia de Ivo Lopes Araújo capta a essência do improviso e do respirar libertário que acompanham as personagens, assim o corpo se insere como modus operandi de uma efetivação de perspectivas de confrontação a uma tripla dominação: a de pensamento, da expressão corporal e da sexualidade.

Na estória de amor e desejo entre Clécio e o jovem soldado Arlindo, vulgo Fininha (Jesuíta Barbosa), um artista e um militar, respectivamente, Lacerda traça a possibilidade de um encontro pautado pela reação a uma letargia pequeno-burguesa transfigurada nos “açoites” de um poder autoritário. Fininha é um soldado que faz sexo com homens do seu batalhão, mas não pode reivindicar sua sexualidade. Quando se depara com o frescor e a anarquia dos atores que se apresentam no Teatro Chão de Estrelas – inspirado no coletivo Vivencial Diversiones, que atuou no Recife dos anos 70 –, o soldado se encanta e percebe um refúgio, um local de atuação mais livre, no qual o equilíbrio entre suas personas pode respirar mais levemente. A sua intensa relação afetiva com Clécio demanda o encontro de dois mundos: o militar (repressivo) e o artístico (libertário). Assim, a diferença entre a procura de um senso de liberdade e o medo de “ser o que se é” esbarra no poder coercitivo de regras que impele ao cumprimento de ordens, isto é, o diálogo e o respeito perdem diante da força articulada por cassetetes e atos institucionais que calam um repertório de provocações direcionado ao poder constituído (no caso a um poder ilegítimo, fruto de um golpe de Estado). Nesse ambiente militar de refreamento constante, reina a hipocrisia, pois que Fininha transa com oficiais e soldados. E, a partir do corpo, temos uma falsa libertação no que se refere a esse cerceamento, pois na clandestinidade, sob o auspício de uma autoridade que rege dogmas que sufocam a sexualidade não-tradicional, quebras ao código são permitidas, desde que as aparências sejam mantidas. Desse modo, Fininha é a personagem que, do lado dos militares, é humanizada, estando no polo de desejos e sensações que feitos para serem negados são catalisadores de um afã por descobertas e de arrebatamento comunitário.

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A filosofia por um longo tempo interpôs corpo e mente, aparência e essência e outros dualismo que, de certa forma, limitam a vida a uma discussão sobre oposições e a consequente valorização de um polo sobre o outro. O corpo, de Platão passando por Descartes, foi tratado como secundário ou como empecilho para a descoberta de uma Verdade que somente poderia ser acessada pela Razão. Erigiu-se, assim, uma racionalidade que colocou o corpo como templo das paixões, ilusões e o postulou como repleto de humores e condutas desviantes que nos impedem de alcançar uma vida mais voltada à sabedoria que aos prazeres carnais. Prazeres estes condenados pela tradição cristã, que no Ocidente fez do corpo um canal de desorientação para um comportamento ilibado, algo a ser considerado “sujo” e uma espécie de “cárcere” da alma.

Esses “hemisférios”, corpo e alma, que formam o ser humano, encontraram em Michel de Montaigne (1533-1592) um conciliador, pois o filósofo francês procurou tratar a realidade fisiológica como instância final da filosofia de um sujeito. Desse modo, já que o corpo é volúvel e seus “desideratos” diversos, a desconfiança em relação à supremacia da Razão é plausível e necessária. O corpo exige, seus impulsos são plenos, e assim a idealização a respeito de um ser guiado somente pelo espírito é um equívoco. O corpo como veículo de conhecimento nos permite deixar que as sensações nos imprimam diferentes maneiras de apreender tudo que nos cerca, desde ações a teorias.

Segundo Foucault, “em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações”. O corpo social é movimentado e docilizados por micro poderes que cumprem a função de automatização dos corpos, que disciplina a conduta de homens e mulheres para os adequarem a noção de controle do poder.

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“Tatuagem”, que transcorre no período de suspensão do AI 5 e um ano antes da Lei de Anistia, mostra uma Recife ainda conturbada, refém dos resquícios de um poder que cerceia seus cidadãos, porém de um poder avariado (seja pela insurgência de militantes de esquerda ou por defensores da democracia liberal, seja pela imagem de brutalidade conquistada através de repressões, desaparecimentos e mortes). No entanto, e talvez por esse motivo, o filme de Lacerda centra-se na relação afetiva de um artista gay e de um militar de vida dupla. E, nessa combinação, o corpo é o instrumento de um lirismo que evoca uma integração entre corpo-composição artística e corpo-lugar no mundo, no qual não se pode negar um intuito político-cultural. Assim sendo, a sexualidade explícita, seja em cenas de nudez ou no livre tratamento da questão da homossexualidade, nada mais é que do que expressão do afeto e do desejo, corpos que se entrelaçam na consumação daquilo que fora comunicado pela pele e pelo encantamento.

E ainda sobre o corpo, uma das personagens mais bem desenvolvida e interpretada em “Tatuagem” é Paulette (vivido de modo brilhante por Rodrigo Garcia), que carrega o registro que abole a fronteira entre interior-exterior diante do mundo pela modificação do corpo, pois Paulette é um travesti sem o humor desqualificador das novelas brasileiras e sem os maneirismos que poderiam transformá-la em caricatura. Arrebata na medida em que faz do corpo seu palco e do palco sua vida.

Esse corpo político construído por Lacerda em “Tatuagem” revela o corpo como memória e linguagem. Está na forma como o corpo transmite o desejo, na postura de Clécio quando canta para Fininha assim que o vê. Na discussão sobre o relacionamento e a infidelidade de Fininha, pondo as contradições de um ideal libertário do amor em foco. E no sexo que explode como turbilhão, mostrando uma ligação carnal envolta por uma afetividade nascente.

E a “Tatuagem” do título não diz respeito apenas a intervenções e marcas no corpo. Assim como na música de Chico Buarque, “Quero ficar no teu corpo/Feito tatuagem/Que é pra te dar coragem/Pra seguir viagem/Quando a noite vem”, a tatuagem é a elaboração da manifestação de um sentimento, interlocutor da ternura existente. Desse modo, o corpo é memória viva, cravada na carne, transparecendo as ousadias do amor e afirmando as mudanças interiores.

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O corpo político desenvolvido como linguagem tem seu ápice na “Polka do cu” (de DJ Dolores), realizado pela trupe do Chão de Estrelas, já que a música é um desafio ao poder repressor, que ameaçou o teatro de interdição, e um princípio de democracia, a partir da ideia que toda pessoa tem um cu – e que há dos mais variados tipos. Assim, o que é relevante é o destino que cada um dá ao seu, assumindo sua autonomia e aceitando as diferenças. O cu é saudado como a utopia possível.

O espetáculo teatral é a apologia de libertação do corpo. E no discurso final a ideia do corpo político, do corpo como arte, se faz através de uma evocação psicodélica ao desfecho musicado e poderoso de “O Bandido da Luz Vermelha”. Assim, as transgressões política e cinematográfica, movimento duplo em “Tatuagem”, se completam, afirmando a vida e uma poética do corpo que tem na liberdade seu principal trunfo, haja visto que pensamento e corpo se encontram no êxtase da feitura artística e nos prazeres desencadeados por uma vida de criatividade.


Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco)..
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